
Maceió ganhou um plano estruturado que prevê a implantação de sistemas estruturantes de transporte de média e alta capacidade em sua Região Metropolitana, após décadas de intervenções pontuais em soluções de mobilidade.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério das Cidades elaboraram um estudo que prevê cinco projetos prioritários para a capital alagoana, com investimentos entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,08 bilhões. O levantamento coloca a cidade no radar de uma estratégia nacional de fortalecimento da mobilidade urbana, pautada na identificação de gargalos na mobilidade urbana das principais capitais brasileiras.
A proposta prevê a expansão de aproximadamente 42 quilômetros da rede de transporte coletivo nos municípios de Maceió, Rio Largo e Satuba. A análise técnica delimitou essa área como prioridade para o planejamento dos futuros investimentos após estudos apontarem que 83% da população metropolitana está concentrada nela.
De acordo com o Ministério das Cidades, a Região Metropolitana de Maceió atende ao critério estabelecido pelo Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), que contempla regiões com mais de 1 milhão de habitantes. Atualmente, a região conta com 1,3 milhão de moradores e concentra uma grande parcela dos deslocamentos diários do estado.
Entre os projetos considerados estratégicos estão a implantação do BRT na Avenida Fernandes Lima, sua extensão até o Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, a implantação do corredor da Avenida Menino Marcelo, o corredor da Avenida Josefa de Melo e um sistema na Avenida Gustavo Paiva, cuja viabilidade foi estudada tanto na modalidade BRT quanto em Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
A definição desses eixos estratégicos foi feita considerando, além da ocupação urbana, a projeção de demanda pelos próximos 30 anos, os fluxos de deslocamento na região, a integração entre os diferentes modais de transporte e o potencial de redução de emissão de gases ligados ao efeito estufa.
Desafios e novas perspectivas
Para Jessica Lima, professora da Universidade Federal de Alagoas e doutora em Engenharia de Transportes e Gestão das Infraestruturas Urbanas, Maceió enfrenta alguns desafios para executar esses planejamentos, que ainda estão em fase inicial e sem data para execução.
“Qualquer meio de transporte precisa ser organizado em formato de rede. Se ele não funciona em formato de rede, ele não opera da melhor forma possível. O que a gente tem aqui em Maceió são alguns corredores radiais, mas muitas vezes a conexão entre esses corredores é complicada, o que acaba sobrecarregando mais do que necessário. Isso é uma falha de estrutura, de como a geografia foi configurada, de como permitiram a construção de condomínios, de como a cidade ficou estruturada”, aponta.
Além de analisar mais profundamente e pensar soluções para minimizar ou contornar os impactos dessas questões estruturais, o andamento do projeto depende ainda da conversão do planejamento em projetos executivos, garantindo fontes de financiamento e estruturando a governança necessária para a implantação de novos corredores.
Segundo o Ministério das Cidades, as informações produzidas pelo ENMU já estão sendo incorporadas pela equipe técnica responsável pela formulação de novas políticas públicas para o setor.
Os dados deverão subsidiar o aprimoramento de programas federais ligados à mobilidade urbana, dando à capital alagoana a possibilidade de contar com uma base técnica consolidada e, assim, disputar investimentos federais e estruturar projetos de longo prazo.
Mesmo com a estimativa de investimentos de R$ 2,08 bilhões, ainda não foram definidos os mecanismos financeiros que serão utilizados para tirar o planejamento do papel e viabilizar os empreendimentos sugeridos.
O Ministério destaca que, apesar de o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana contemplar análises de financiamento do transporte público, o relatório específico sobre fontes alternativas de captação de recursos só deverá ser publicado posteriormente.
Mobilidade e desenvolvimento
Em consenso, especialistas e órgãos avaliam que a construção de uma rede estruturada de transporte coletivo pode produzir efeitos que vão além da mobilidade, como afirma Jéssica Lima.
“O transporte é um indutor de equidade, ele é essencial para que todos os outros serviços possam funcionar de forma adequada. O fato de um transporte funcionar bem faz com que todo o resto da economia possa funcionar melhor também, então todo mundo deveria querer um bom transporte público de qualidade e a um preço módico ou, como tem se advogado muito recentemente, gratuito, no caso financiado publicamente por todos, já que todos se beneficiam dele”, aponta.
O Ministério destaca ainda outros pontos de melhorias que podem surgir. “Os benefícios esperados da implementação desses projetos é, em primeiro lugar, a melhoria dos serviços de transporte público coletivo para a população e, com isso, a redução do tempo de deslocamentos necessários, o acesso a maior quantidade de oportunidades e a possível redução do número de acidentes de trânsito devido a potencial substituição de automóveis por passageiros de transporte coletivo. Além da redução de emissão de gases poluentes e de custo operacional”.
Se executada e devidamente implantada, a rede poderá mudar de forma significativa a dinâmica urbana da Região Metropolitana de Maceió, com a redução de gargalos históricos de deslocamento. Para a capital alagoana, isso significa se aproximar de um modelo já utilizado em outras capitais do país, com sistema estruturante de transporte coletivo e fluidez na mobilidade da população.