
A combinação entre baixo endividamento, equilíbrio das contas públicas e melhora dos indicadores fiscais transformou-se em um dos principais ativos econômicos de Sergipe. A avaliação positiva obtida pelo Estado nos últimos anos tem ampliado a capacidade de investimento e permitido a execução de obras em diferentes regiões, especialmente fora da Grande Aracaju.
A nota AAA atribuída pela Fitch Ratings, a classificação A da Capacidade de Pagamento (Capag) da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e a quarta posição nacional em gestão fiscal no Ranking de Competitividade dos Estados de 2025, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), colocaram Sergipe entre os entes federativos com melhor desempenho fiscal do país.
Na prática, os indicadores reduzem a percepção de risco, facilitam o acesso ao crédito e fortalecem a confiança de investidores, bancos públicos e do governo federal na capacidade do Estado de executar projetos estruturantes. Desde 2023, programas estaduais e parcerias com instituições financeiras já mobilizaram cerca de R$10 bilhões em investimentos em infraestrutura, saúde, educação, saneamento, turismo, cultura e desenvolvimento rural.
Um ativo invisível que financia o desenvolvimento
Em um estado historicamente marcado pela concentração econômica em Aracaju e pelas desigualdades regionais, a saúde fiscal passou a funcionar como um ativo capaz de impulsionar investimentos e estimular a interiorização do desenvolvimento. A nota AAA da Fitch, renovada entre setembro de 2025 e abril de 2026, reconheceu a solidez financeira do Estado e o controle das despesas públicas. Já a classificação A da Secretaria do Tesouro Nacional colocou Sergipe entre os estados com melhor perfil de crédito do país, permitindo acesso a financiamentos em condições mais favoráveis.
No Ranking de Competitividade dos Estados, Sergipe avançou da 20ª posição em gestão fiscal em 2023 para a 11ª colocação em 2024 e alcançou o quarto lugar em 2025. A melhora dos indicadores ocorreu paralelamente à redução do índice de endividamento. A relação entre dívida consolidada líquida e receita corrente líquida caiu de aproximadamente 23% em 2023 para cerca de 7% em 2025.

Para o presidente do Sindifisco/SE, José Antônio dos Santos, a queda do indicador precisa ser analisada em conjunto com fatores extraordinários, especialmente os recursos obtidos com a concessão dos serviços de água e esgoto.
“O índice de endividamento baixou em 2025, mas ele teve muita colaboração na venda da concessão de água e esgoto. Isso gerou uma receita que entrou como receita corrente e acabou diminuindo o comprometimento da dívida em relação à receita corrente. Então, essa redução de 23% para 7% foi muito em função disso”, afirma.
Santos reconhece que Sergipe alcançou a classificação A da STN e avaliações positivas das agências de risco. No entanto, avalia que os resultados fiscais também estão associados à contenção das despesas correntes. “Do ponto de vista político, isso tem sido conseguido à base de sacrifício das despesas correntes, tanto do lado dos servidores quanto do lado do funcionamento dos serviços públicos”, disse.
Apesar das ressalvas, os indicadores fiscais têm ampliado a capacidade do Estado de acessar crédito e executar projetos de infraestrutura, saúde, educação e saneamento em diferentes regiões sergipanas.
Equilíbrio fiscal amplia capacidade de investimento
A redução da dívida foi favorecida por refinanciamentos, amortizações antecipadas e pela adesão ao Programa de Quitação das Dívidas previsto no PLP 101/2021. A Lei Complementar nº 397/2023 instituiu um marco fiscal estadual, estabelecendo mecanismos de controle das despesas e exigindo a manutenção de uma poupança mínima para preservar o equilíbrio das contas públicas.
Com menor comprometimento das receitas e acesso facilitado ao crédito, Sergipe ampliou sua capacidade de financiar projetos próprios e captar recursos junto a instituições nacionais e multilaterais.
A maior parte dos recursos estaduais está concentrada em infraestrutura. O programa Acelera Sergipe, lançado em março de 2024, contabilizava, até outubro de 2025, 15 obras concluídas e outras 41 em execução, totalizando aproximadamente R$740,5 milhões em investimentos distribuídos por diversas regiões.
As intervenções abrangem drenagem, pavimentação, requalificação urbana, mercados, equipamentos esportivos e recuperação de espaços públicos.
Em abril de 2026, o governo autorizou mais de R$206 milhões para 27 obras em 18 municípios. Desse total, R$163,7 milhões foram destinados ao programa Pró-Rodovias e R$42,3 milhões a obras do Acelera Sergipe.
As intervenções contemplam municípios como Aquidabã, Capela, Carira, Estância, Feira Nova, Gararu, Ilha das Flores, Japaratuba, Lagarto, Laranjeiras, Maruim, Muribeca, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora de Lourdes, Pirambu, Poço Verde, Santo Amaro das Brotas e Simão Dias.
Somando os programas estruturantes anunciados desde 2023, o governo estima investimentos próximos de R$10 bilhões em diferentes áreas.

Saúde concentra mais de R$ 2 bilhões
Até o segundo trimestre de 2025, os investimentos em saúde alcançaram R$2,098 bilhões, o equivalente a 17,68% da receita estadual. Entre as principais iniciativas estão o Centro de Hemodinâmica do Hospital de Urgências de Sergipe (Huse), a construção do Hospital do Câncer Governador Marcelo Déda, com investimentos de R$170 milhões, e a ampliação da estrutura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
No interior, foi inaugurado em junho de 2025 o Centro de Especialidades Dr. José Lima Siqueira, junto ao Hospital Regional de Itabaiana, ampliando a oferta de 12 especialidades médicas. Também foram abertas bases do Samu em Boquim e Simão Dias e implantados novos serviços em Nossa Senhora da Glória.
Educação e saneamento recebem recursos
Entre 2023 e 2024, foram investidos R$137,4 milhões na reforma e ampliação de 62 escolas estaduais. Dessas, 23 passaram por modernização completa e outras 39 receberam obras em quadras esportivas.
No Colégio Estadual Doutor Alcides Pereira, em Maruim, foram aplicados R$4,56 milhões em reforma e climatização. Na capital, R$77,6 milhões foram destinados à rede estadual de ensino entre 2023 e 2026, incluindo a construção do Centro de Educação Profissional Professora Ângela de Melo, no bairro Japãozinho.

No saneamento, a Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) investiu R$367 milhões em 2024. Entre os destaques estão o sistema de esgotamento sanitário de Itabaianinha, com R$ 13,6 milhões; a estação de tratamento de água de Nossa Senhora das Dores, de R$ 3,1 milhões; a nova ETA de Areia Branca, com investimento de R$ 40 milhões e capacidade para atender cerca de 120 mil pessoas; além das adutoras e sistemas de abastecimento em áreas rurais, como o projeto de R$ 28 milhões para o povoado Curralinho, em Poço Redondo.
BNDES leva recursos para agricultura familiar, cultura e meio ambiente
As operações firmadas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) somam cerca de R$445 milhões.
- O programa Sertão Vivo destina R$150,2 milhões a aproximadamente 37,7 mil famílias rurais distribuídas em cerca de 30 municípios.
- O Floresta Viva prevê R$100 milhões em ações de recuperação ambiental em áreas do semiárido e da costa sergipana.
- Já o Viva Sergipe mobiliza entre R$180 milhões e R$195 milhões em projetos voltados para turismo, cultura e artesanato.
Casos emblemáticos mostram alcance da interiorização
Um dos maiores investimentos individuais está concentrado em Nossa Senhora da Glória, principal polo econômico do Alto Sertão. O município receberá R$97,03 milhões para a pavimentação da rodovia SE-325 e implantação do Parque Ecológico Boca da Mata.
A expectativa é fortalecer duas das principais cadeias produtivas da região: milho e leite. O prefeito de Carira destacou que a obra atenderá o “maior produtor estadual de milho” e impulsiona a cadeia leiteira.
Em Japaratuba, R$52 milhões serão destinados à pavimentação de rodovias estaduais, beneficiando atividades ligadas à agroindústria, à pesca e à agricultura.

No Agreste, Itabaiana consolidou sua posição como polo regional de serviços com a inauguração do Centro de Especialidades Dr. José Lima Siqueira. A descentralização dos atendimentos reduz a necessidade de deslocamentos para Aracaju e fortalece a economia local.
Em Santo Amaro das Brotas, R$9,08 milhões serão aplicados na urbanização da prainha do Rio São Francisco. A prefeita Zete de Janjão afirmou que a obra “vai transformar o turismo” e criar um “novo cartão-postal”.
Em Muribeca, os investimentos de R$3,32 milhões permitirão a recuperação de quatro quadras esportivas.
Sindifisco questiona custo social do ajuste
Embora reconheça os avanços nos indicadores fiscais, o presidente do Sindifisco/SE avalia que os resultados têm sido obtidos por meio da compressão das despesas correntes. Segundo ele, os servidores estaduais acumulam perdas salariais históricas. “Foram dez anos sem revisão salarial. E o governo atual não recompôs minimamente. No caso do Fisco, não recompôs nem a própria inflação do período do governo”, afirma.
José Antônio também relata impactos na qualidade dos serviços públicos. “Eu tive a experiência com uma cunhada que esteve internada no Hospital João Alves, e a precariedade de medicamentos, de atendimento e até de pessoal é muito grande. O hospital funciona muito precariamente”, relata.
Na avaliação do dirigente sindical, alcançar classificações fiscais elevadas por meio da contenção dos gastos correntes não representa, necessariamente, uma solução estrutural. “Conter despesas correntes para obter essas classificações é muito fácil”, observa.
Renúncias fiscais entram no debate
Outro ponto levantado pelo presidente do Sindifisco/SE diz respeito ao volume de incentivos tributários concedidos pelo Estado.
Segundo ele, a legislação tributária sergipana reúne mais de 300 dispositivos relacionados à concessão de benefícios fiscais. “A renúncia fiscal em Sergipe é algo escandaloso. Temos mais de 300 artigos na legislação tributária de concessão de renúncias fiscais e ninguém parou para verificar qual é o resultado efetivo que essas renúncias trazem para Sergipe, se geram emprego e desenvolvimento”, conclui.
