A disputa pelo Governo de Alagoas promete ser uma das mais observadas do Nordeste em 2026. Enquanto o grupo liderado pelo MDB chega à campanha apoiado por uma ampla rede de prefeitos, parlamentares e pela máquina estadual, o prefeito de Maceió, JHC, aposta em um caminho diferente: transformar sua popularidade e a vitrine construída na capital em um ativo capaz de romper a lógica tradicional da política alagoana.
Nesta entrevista ao Investindo Por Aí, o cientista político Ranulfo Paranhos analisa como economia, grupos políticos e estratégias de campanha devem influenciar o comportamento do eleitor, explica por que a disputa funciona como um “laboratório” para a ciência política e avalia os principais temas que devem marcar o debate eleitoral nos próximos meses.
IPA: Quando olhamos para Alagoas hoje, a eleição tende a ser decidida mais pela avaliação das gestões ou pela força dos grupos políticos tradicionais?
Ranulfo Paranhos: Existe uma regra geral na ciência política que ajuda a explicar esse processo. O primeiro elemento é o chamado voto econômico: o eleitor faz uma projeção sobre o futuro e vota naquele candidato em quem acredita que pode melhorar sua vida, principalmente do ponto de vista econômico.

Essa teoria é bastante consolidada, mas ela nunca explica uma eleição sozinha. O voto também é influenciado por outras variáveis, entre elas a força dos grupos políticos.
Em Alagoas, esse fator pesa bastante. O MDB construiu, ao longo de décadas, uma estrutura muito capilarizada. Estamos falando de um partido que reúne algo em torno de 70% das prefeituras, seja diretamente ou dentro do seu arco de alianças. E isso importa porque o prefeito faz campanha para governador. Ele leva a imagem do candidato para dentro dos municípios por meio de vereadores, lideranças locais e cabos eleitorais.
Essa estrutura cria uma cadeia de mobilização que continua tendo enorme peso nas eleições estaduais.
IPA: Mas essa lógica tradicional está sendo desafiada?
Ranulfo Paranhos: Sem dúvida. É justamente isso que torna a eleição de Alagoas interessante. Hoje existe um candidato, o JHC, apostando que pode vencer contrariando boa parte das regras conhecidas da política eleitoral. Ele está dizendo, na prática, que sua imagem pessoal pode compensar um partido menor, menos tempo de televisão, menos recursos de campanha e uma estrutura partidária mais limitada.
É uma aposta ousada. Ele acredita que o capital político construído como prefeito de Maceió pode ser suficiente para convencer o eleitor do restante do estado de que é capaz de repetir esse modelo em Alagoas.
Ainda não sabemos se isso será suficiente. A campanha sequer começou oficialmente. Mas é exatamente essa hipótese que está sendo testada.
IPA: O senhor acredita que essa estratégia pode representar uma mudança no comportamento do eleitor alagoano?
Ranulfo Paranhos: Pode, mas é importante separar possibilidade de probabilidade. A literatura mostra que grupo político importa, dinheiro importa, alianças importam, tempo de televisão importa. Essas continuam sendo as regras do jogo.
Agora, eventualmente, aparece um candidato que rompe essas regras. Foi o que vimos, por exemplo, na eleição presidencial de 2018. Boa parte da literatura previa um determinado cenário e surgiu um fenômeno eleitoral que reorganizou completamente a disputa.
Então, sim, existe a possibilidade de um candidato superar essas barreiras apenas com sua imagem. É exatamente nisso que JHC aposta. Mas, neste momento, a probabilidade ainda está do lado das estruturas tradicionais.
IPA: Como fica o peso da economia nessa disputa? Os indicadores econômicos conseguem se transformar em voto?
Ranulfo Paranhos: A economia influencia, mas não necessariamente pelos grandes números. Alagoas nunca foi um estado que pudesse apresentar um grande ciclo de desenvolvimento econômico como argumento eleitoral. Não se tornou um polo econômico do Nordeste como Fortaleza, Recife ou Salvador.
Então o debate tende a caminhar mais para a percepção da gestão pública. Renan Filho, por exemplo, pode apresentar um conjunto de entregas bastante concreto: contas públicas equilibradas, pagamento em dia do funcionalismo, obras de infraestrutura, construção de hospitais.
Houve uma coincidência importante. O estado já estava construindo hospitais quando veio a pandemia, e isso acabou ampliando a capacidade de atendimento justamente no momento em que ela era mais necessária. É uma narrativa de gestão eficiente.
Por outro lado, não houve um grande salto econômico que transformasse Alagoas em referência nacional de crescimento ou atração de investimentos. Ou seja: também não houve decadência econômica, mas tampouco um ciclo extraordinário de desenvolvimento.
IPA: No caso de JHC, a principal vitrine é Maceió. Como essa experiência pode influenciar a campanha?
Ranulfo Paranhos: Essa será, provavelmente, a principal narrativa da candidatura dele. A mensagem é simples: “o que fiz em Maceió posso fazer por Alagoas”. Essa é uma estratégia bastante personalista.
Não significa que ele não apresentará propostas, mas sua campanha tende a estar muito mais baseada na imagem construída como gestor do que propriamente na força partidária. Toda eleição é uma disputa de narrativas. Não basta o que foi feito; importa também convencer o eleitor de que sua vida pode melhorar com determinado candidato. É exatamente esse convencimento que será colocado à prova.
IPA: Ao mesmo tempo, Maceió também enfrenta críticas relacionadas ao aumento do custo de vida. Isso pode entrar na campanha?
Ranulfo Paranhos: Sem dúvida. Toda cidade que se consolida como polo turístico passa por esse fenômeno. O custo dos imóveis sobe, o custo de vida acompanha esse movimento e parte da população acaba sendo empurrada para regiões mais periféricas. Em Maceió isso foi agravado pelo desastre provocado pela Braskem.
O fechamento de uma parte importante da cidade reduziu a oferta de imóveis, elevou preços e aumentou os custos de deslocamento para milhares de pessoas.
Essas consequências econômicas certamente podem aparecer no debate eleitoral. Ao mesmo tempo, a prefeitura utilizará como argumento as obras, o embelezamento urbano, os investimentos realizados e a expansão do turismo.
IPA: Ou seja, haverá um choque bastante claro entre duas narrativas sobre a cidade. O senhor acredita que esta campanha será marcada mais por projetos ou por acusações entre os principais grupos políticos?
Ranulfo Paranhos: Eu acho difícil imaginar uma campanha sem acusações. Existem temas que já estão postos e que podem ganhar muita força durante o período eleitoral.
De um lado, está o caso da Braskem. O senador Renan Calheiros já integrou o conselho da empresa, e essa relação pode voltar ao debate político. Mas há uma questão delicada: quando você ataca a Braskem, também toca em interesses do governo federal, que ainda possui participação acionária na companhia. Isso exige bastante cuidado dos próprios aliados.
Do outro lado, existe a discussão sobre o Banco Master e os investimentos realizados pela Prefeitura de Maceió. Dependendo da estratégia das campanhas, esse tema também pode ganhar dimensão nacional.
Por isso, acredito que haverá uma espécie de equilíbrio. Cada lado possui temas que podem utilizar contra o adversário, mas também sabe que determinadas acusações podem produzir efeitos colaterais sobre seus próprios aliados.
IPA: O senhor usou durante a entrevista a expressão “precificação” desse debate. O que significa isso na prática?
Ranulfo Paranhos: É um conceito muito utilizado na economia e que pode ser aplicado à política. Antes de decidir explorar um tema na campanha, cada grupo político calcula o custo e o benefício dessa estratégia.
Se os Calheiros resolverem explorar o caso do Banco Master, precisam considerar que JHC provavelmente responderá trazendo novamente a discussão sobre a Braskem.
Se JHC fizer o movimento contrário, também sabe que haverá uma reação. Então existe uma avaliação permanente: até que ponto vale a pena transformar determinado assunto em centro da campanha? Quanto isso ajuda? Quanto isso pode prejudicar? Esse cálculo já está sendo feito pelos dois lados.
IPA: Esses temas mais complexos conseguem chegar ao eleitor comum?
Esse talvez seja o maior desafio. Uma coisa é discutir investimentos de fundos públicos, operações financeiras ou responsabilidades institucionais. Outra coisa muito diferente é transformar isso em uma linguagem que faça sentido para o eleitor médio.
As campanhas não são feitas para cientistas políticos nem para especialistas. São feitas para pessoas que querem responder a uma pergunta muito simples: “Minha vida vai melhorar se eu votar nesse candidato?” Se um tema complexo não conseguir responder essa pergunta, ele perde força eleitoral.
IPA: O senhor chamou atenção para as mudanças partidárias de JHC. Por que isso pode ser um problema político?
Ranulfo Paranhos: Porque partidos sobrevivem da confiança entre suas lideranças. Quando um político permanece durante muitos anos em uma legenda, ele constrói relações, alianças, compromissos e previsibilidade.
É assim que funcionam lideranças como Renan Calheiros ou Arthur Lira. Eles construíram seu capital político dentro de estruturas partidárias. O histórico de JHC é diferente.
Ele foi eleito por diferentes partidos ao longo da carreira e realizou sucessivas mudanças de legenda. Agora, mais uma vez, troca um partido maior por outro menor e rompe um acordo político que havia sido costurado anteriormente.
Do ponto de vista da ciência política, isso aumenta a percepção de que ele não é um “homem de partido”. Essa característica pode dificultar alianças futuras, porque confiança é um ativo importante dentro da política.
IPA: Mas o eleitor percebe esse tipo de movimentação?
Ranulfo Paranhos: Nem sempre de forma consciente. O eleitor talvez não acompanhe cada mudança partidária, mas os efeitos dessas mudanças aparecem. Quando um político perde alianças, perde prefeitos, perde lideranças locais, perde estrutura de campanha.
Esses apoios deixam de chegar ao eleitor. É justamente aí que JHC faz uma aposta diferente. Ele acredita que pode substituir toda essa estrutura por comunicação direta, redes sociais, imagem pessoal e popularidade. Essa é uma hipótese interessante, mas ainda não sabemos se ela será suficiente.
IPA: O senhor citou durante nossa conversa exemplos como Fernando Collor, João Doria e Cícero Almeida. Há alguma semelhança entre esses casos e a estratégia de JHC?
Ranulfo Paranhos: Existe uma característica comum. São lideranças muito personalistas. São candidatos cuja principal força política está na própria imagem, muito mais do que na estrutura partidária.
Isso pode funcionar durante algum tempo. Mas a política costuma cobrar um preço quando essas lideranças deixam de construir alianças duradouras. Cícero Almeida é um exemplo interessante em Alagoas.
Foi um prefeito extremamente popular, reeleito com uma votação histórica. Depois passou por diversas mudanças partidárias, perdeu espaço político e chegou ao ponto de não conseguir sequer manter relevância nas eleições seguintes. Não estou dizendo que isso acontecerá com JHC.
Estou dizendo apenas que a literatura mostra que esse tipo de trajetória costuma aumentar os riscos políticos.
IPA: Então, hoje, quem chega mais forte para a disputa?
Ranulfo Paranhos: Pelas regras conhecidas da ciência política, o grupo liderado pelo MDB parte em vantagem. Tem mais prefeitos, mais alianças, maior estrutura partidária, mais capilaridade e uma máquina política consolidada.
A probabilidade favorece esse grupo. Mas eleições não funcionam apenas com probabilidades. A democracia opera sob incerteza. É justamente por isso que campanhas existem. JHC acredita que sua imagem é capaz de compensar todas essas desvantagens estruturais.
Os Calheiros acreditam que a força da organização política continuará prevalecendo. As duas estratégias possuem racionalidade própria. Quem está de fora pode dizer que uma parece mais segura do que a outra. Mas quem definirá qual delas estava correta será, no fim, o eleitor.
IPA: O que essa eleição pode ensinar para a ciência política?
Ranulfo Paranhos: Talvez ela nos ajude a responder uma pergunta importante: até onde uma candidatura altamente personalista consegue desafiar estruturas políticas consolidadas?
A literatura continua mostrando que dinheiro, partidos, alianças, tempo de televisão, prefeitos e organização política fazem diferença. Se JHC conseguir vencer contrariando todos esses fatores, teremos um caso extremamente interessante para estudar.
Se prevalecer a estrutura tradicional, estaremos confirmando aquilo que décadas de pesquisas vêm mostrando. Por isso considero que Alagoas será um dos laboratórios políticos mais interessantes das eleições de 2026.
