
O boleto que vence antes do salário cair, o cartão de crédito que nunca zera, o feijão que pesa mais no carrinho de compras: são esses pequenos sinais do cotidiano, e não os números frios de um relatório do Banco Central, que costumam decidir uma eleição no Brasil. Em março de 2026, o percentual de famílias endividadas chegou a 80,4%, o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Quase 30% das famílias têm contas em atraso, com o custo de vida seguindo pressionando o orçamento doméstico. É nesse cenário de aperto financeiro que o país entra em um ano eleitoral no qual, segundo especialistas, a economia tende a pesar mais uma vez, e de forma desigual entre as regiões.
Para o cientista político Fabio Andrade, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos do Processo Legislativo e de Formulação de Políticas Públicas (Legislab-ESPM), essa relação não é nova. “Historicamente, a situação econômica tem um peso muito grande na decisão de voto dos brasileiros. Isso se manifesta tanto na punição a governos que enfrentaram dificuldades econômicas quanto na recompensa àqueles que entregaram bons resultados”, afirma. Ele cita as eleições e reeleições de Fernando Henrique Cardoso, a reeleição de Lula em 2006 e sua vitória em 2022 como exemplos de pleitos “fortemente influenciados pela percepção da economia”.
Um dos termômetros mais sensíveis dessa percepção é o preço da comida. Segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese em parceria com a Conab, todas as 27 capitais registraram alta no custo da cesta básica em março de 2026, e a região Nordeste, mesmo concentrando os valores mais baixos do país, sentiu aumentos entre os mais expressivos: Salvador (7,15%), Recife (6,97%) e Maceió (6,76%) lideraram as elevações mensais, enquanto Aracaju acumulava alta de quase 11% no ano. O Dieese calcula que, em março, um trabalhador remunerado com o salário mínimo líquido precisou comprometer, em média, 48,12% de sua renda apenas para comprar os itens básicos de alimentação nas 27 capitais pesquisadas – praticamente metade do salário.
Esse aperto tem contornos ainda mais duros no Nordeste, onde a informalidade e o desemprego seguem os mais altos do país. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a região concentra sete das dez maiores taxas de desocupação do Brasil, com Piauí liderando o ranking nacional (9,3% no consolidado de 2025), seguido por Bahia e Pernambuco (8,7% cada), patamares bem acima da média nacional, que fechou o ano em 5,6%, a menor da série histórica. A informalidade também é a mais elevada do país: no Maranhão, mais da metade da população ocupada (57,6%, segundo dado do primeiro trimestre de 2026) trabalha sem carteira assinada, sem acesso a direitos como FGTS, 13º salário ou seguro-desemprego. O rendimento médio nordestino, de R$ 2.616 no início de 2026, segue muito abaixo dos R$ 3.722 da média nacional.
É justamente nesse contraste entre indicadores macroeconômicos favoráveis, como o desemprego historicamente baixo, e a percepção individual de aperto que mora, segundo Fabio Andrade, um dos principais desafios para governos que buscam reeleição. “O custo de vida está historicamente mapeado como um fator de grande impacto eleitoral. Os eleitores costumam penalizar, não apenas no Brasil, mas também em outros países, o aumento do custo de vida e da inflação. Um crescimento da inflação, sobretudo no segundo semestre do ano, pode ser fatal para os governos”, diz. O IPCA acumulado em 12 meses até maio de 2026 estava em 4,72%, acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, puxado especialmente pelos preços de alimentos e bebidas, o grupo que mais pesa no orçamento das famílias de menor renda.
O peso do endividamento, avalia o professor da ESPM, tem um efeito político mais imprevisível do que a inflação. “No caso dos Estados Unidos, ele serviu de combustível para discursos antissistêmicos e populistas. A percepção é a de que as pessoas trabalham, mas uma elite estaria concentrando os benefícios, o que favorece candidaturas que se apresentam como alternativas ao sistema econômico e político”, explica. No Brasil, segundo ele, o governo parece ter reagido a esse risco com políticas como o Desenrola, voltado à renegociação de dívidas, e o Pé-de-Meia, programa de transferência de renda a estudantes do ensino médio, cujos efeitos sobre a evasão escolar, e possivelmente sobre a renda das famílias, “ainda precisam ser mais estudados”.
Essa percepção econômica, no entanto, não é a mesma para todo mundo. “Eleitores de renda mais alta tendem a atribuir uma boa situação financeira mais aos seus próprios méritos e esforços individuais, dissociando-a, em certa medida, da ação do governo. Já as camadas de renda mais baixa costumam estabelecer uma conexão mais direta entre sua condição econômica e o desempenho governamental”, afirma o professor. É esse vínculo mais direto, segundo ele, que explica em parte a força histórica de Lula no Nordeste, associada às políticas de transferência de renda condicionada, como o Bolsa Família. “Houve uma percepção de dinamização da economia local durante os governos Lula, o que reforçou esse vínculo político. Por isso, no Nordeste, o peso dessa variável econômica tende a ser mais elevado do que em outras regiões”, diz Andrade, ressaltando que essa identificação mais direta também pode alimentar “vínculos de dependência política” entre eleitores e lideranças, fenômeno associado na literatura a práticas de caráter populista.
Já para os governadores, a conta é outra. Segundo o cientista político, o eleitor tende a associar resultados econômicos sobretudo à figura do presidente da República, enquanto cobra dos governos estaduais temas como obras, segurança, educação e saúde, o que torna mais difícil para um governador colher, sozinho, os dividendos eleitorais de bons indicadores macroeconômicos se a população não sentir isso na prática. Resumindo, um governador pode apresentar indicadores positivos de crescimento econômico e, mesmo assim, enfrentar dificuldades eleitorais porque a população não percebe melhora no dia a dia.
De olho na campanha deste ano, Andrade sugere observar alguns sinais concretos do humor do eleitorado nordestino: o desempenho das vendas no varejo, que indica disposição para consumir; o comportamento do crédito de longo prazo, como financiamento de veículos e imóveis, que reflete otimismo em relação ao futuro; e a adesão a programas como o Desenrola. “Quanto mais as pessoas assumem compromissos financeiros de longo prazo, maior tende a ser o otimismo em relação ao futuro”, diz. Entre o preço do feijão no mercado e o boleto que não fecha no fim do mês, é esse otimismo, ou até a falta dele, que promete definir boa parte do voto nordestino em 2026.
