
O Ceará chega à eleição de 2026 carregando um dos debates mais complexos do Nordeste. O dilema deve girar em torno de como um dos estados mais dinâmicos da economia brasileira convive, ao mesmo tempo, com baixos níveis de renda, desigualdades persistentes e uma crise de segurança pública que atravessa o cotidiano da população.
Não se trata, como apontam economistas ouvidos pela reportagem, de um caso clássico de atraso, tampouco um exemplo acabado de desenvolvimento inclusivo. “Ao contrário, o estado tornou-se um laboratório de um impasse contemporâneo comum, do crescimento econômico consistente que não se traduz, na mesma medida, em bem-estar social”, afirma o cientista político e professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC, Igor Amargo.
Os indicadores econômicos ajudam a sustentar a narrativa de sucesso. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará cresceu 2,87%, acima da média nacional, de 2,3%. O avanço foi puxado principalmente pelo setor de serviços, que registrou alta de 3,09%, além de contribuições da indústria e da agropecuária.
O investimento público também ganhou escala. O governo estadual aplicou R$ 4,7 bilhões em 2025, o maior valor nominal da série histórica, e projeta R$ 5,25 bilhões para 2026. A estratégia econômica segue baseada na consolidação do Complexo do Pecém, na atração de indústrias, na transição energética e na inserção internacional, com hidrogênio verde como carro-chefe.
A outra face: renda baixa e pobreza elevada
Mas o retrato muda quando o olhar se desloca da macroeconomia para o cotidiano. Em 2024, o rendimento domiciliar per capita do Ceará foi de R$ 1.210, o segundo menor do país. No mesmo período, a taxa de pobreza caiu para 43,3% e a de extrema pobreza para 7,9%, ambas as menores da série histórica.
Os números indicam avanço, mas também revelam a dimensão do desafio. Mesmo com a melhora recente, quase metade da população ainda vive em condição de pobreza. O crescimento, portanto, não tem sido suficiente para alterar de forma estrutural a distribuição de renda.
Essa discrepância se aprofunda quando se observa o território. Dados do Ipece mostram que municípios como Eusébio registram rendimento médio mensal acima de R$ 4.600 enquanto localidades como Miraíma, Tejuçuoca e Ararendá ficam abaixo de R$ 1.050.
“A desigualdade não se limita à comparação entre cidades, ela também existe dentro dos próprios municípios. O resultado é um estado fragmentado, ou seja, polos dinâmicos, conectados à economia global, convivem com regiões onde o crescimento chega de forma lenta ou indireta”, explica o economista.
Os desafios para a boa educação
Um dos pilares da narrativa de desenvolvimento do Ceará é a educação. O estado lidera indicadores nacionais no ensino fundamental e construiu reconhecimento por sua política educacional.
Mas esse ativo encontra limites claros. A boa performance escolar ainda não se converte plenamente em renda ou em inserção qualificada no mercado de trabalho. A distância entre formação e oportunidade continua sendo um dos gargalos estruturais, especialmente fora da Região Metropolitana de Fortaleza.
Se há um ponto em que o descompasso se torna mais evidente, é na segurança pública. O Ceará chegou a liderar o ranking nacional de homicídios em 2024, com mais de 3 mil casos e alta em relação ao ano anterior. Entre jovens, a taxa de homicídios alcançou 72,8 por 100 mil habitantes, muito acima da média brasileira.
“O impacto não se limita à estatística. A violência interfere na vida cotidiana, no acesso a serviços e até na educação. Estudos indicam que estudantes deixam de frequentar a escola por medo no trajeto ou no ambiente escolar, e mostra como a insegurança atravessa outras políticas públicas”, afirma o professor.
Apesar disso, o Ceará segue atraindo investimentos. No curto prazo, segurança e desigualdade não têm sido suficientes para interromper o fluxo de capital. Mas o efeito de médio prazo é mais complexo. A combinação de violência, informalidade e baixa renda tende a limitar a qualidade do desenvolvimento: dificulta a formação de mercado consumidor robusto, pressiona serviços públicos e compromete a imagem do território.
“Investidores continuam olhando para infraestrutura e incentivos, mas cada vez mais consideram estabilidade social, governança e previsibilidade como fatores decisivos”, afirma o economista e consultor de empresas Rodrigo Souza de Menezes.
A gestão atual acumulou entregas importantes. Na saúde, ampliou a rede, realizou mutirões de cirurgias e expandiu a capacidade hospitalar. Na educação, avançou na universalização do tempo integral e no ensino profissionalizante. Na habitação, lançou programas de subsídio à moradia. Na economia, reforçou investimentos e políticas de atração de empresas.
Pesquisas sobre o Ceará convergem em um diagnóstico: o estado construiu capacidade de crescimento, mas ainda não resolveu sua conversão em bem-estar. Estudos apontam para a necessidade de políticas mais territorializadas, capazes de levar dinamismo econômico para além dos polos consolidados. Também indicam a importância de integrar educação e mercado de trabalho, fortalecer políticas urbanas e tratar a segurança como eixo transversal, não apenas como agenda policial. Há ainda um consenso crescente de que médias estaduais escondem desigualdades profundas e que o desenho das políticas públicas precisa considerar essas diferenças.

O debate que a eleição deve enfrentar
Diante desse cenário, a eleição de 2026 tende a se organizar em torno de uma pergunta central: o modelo que impulsionou o crescimento do Ceará é capaz de entregar bem-estar social?
“Mais do que uma disputa entre governo e oposição, trata-se de um teste sobre os limites de um ciclo político que produziu resultados concretos, mas que agora precisa responder a demandas mais complexas. O estado cresce. Investe. Atrai capital. Forma estudantes. Mas ainda convive com renda baixa, desigualdade e insegurança. O impasse cearense não é a ausência de desenvolvimento. É a dificuldade de fazer esse desenvolvimento chegar, de forma consistente, à vida das pessoas”, concluiu o cientista político.

