
A queda do desemprego no Nordeste ao longo de 2025 consolidou um movimento que já vinha se desenhando desde a reabertura econômica pós-pandemia, mas que ganhou intensidade no último ano. Dados do FGV IBRE mostram que a taxa de desocupação atingiu 7,1% no quarto trimestre, ante 8,7% no mesmo período de 2024, o menor patamar desde o início da série histórica. O avanço combina expansão do emprego, aumento da renda e maior formalização no mercado de trabalho. Esse resultado se apoia em uma base mais ampla de crescimento econômico regional, ainda que mantenha traços estruturais que o mantém acima da média nacional.
A melhora do mercado de trabalho nordestino não aconteceu de forma isolada, mas acompanhou uma expansão mais ampla da atividade econômica. O próprio boletim macro regional da FGV indica que a região apresentou crescimento sustentado ao longo de 2025, com geração líquida expressiva de empregos formais, estimada em mais de 340 mil postos no ano, e recuperação consistente da massa salarial. Esse movimento elevou a renda média real e ampliou o consumo, criando um ciclo que retroalimenta a criação de vagas, sobretudo em setores ligados à demanda interna.
O setor de serviços foi o principal motor dessa recuperação. A retomada do turismo, a expansão das atividades urbanas e o aumento da circulação de renda impulsionaram segmentos como alimentação, transporte, hospedagem e serviços pessoais. Comércio e construção civil também tiveram papel relevante: o primeiro, beneficiado pelo aumento do consumo das famílias; o segundo, associado à retomada de investimentos públicos e privados e à reativação do mercado imobiliário.
“Esse padrão, no entanto, revela uma característica estrutural do mercado de trabalho nordestino, que é a forte dependência de setores de menor produtividade média, o que ajuda a explicar por que, apesar da melhora, a região ainda apresenta níveis mais elevados de subutilização da força de trabalho”, explica o economista e professor da Universidade Federal de Alagoas Cícero Dias.

Segundo a FGV, esse é um dos pontos centrais do diagnóstico. A taxa ampliada, que inclui também desalentados e subocupados, permanece significativamente acima da média nacional, indicando que a melhora quantitativa do emprego não elimina fragilidades qualitativas, como informalidade e baixa remuneração em parte das ocupações. Ao mesmo tempo, a renda média avançou e a massa de rendimentos cresceu de forma relevante, sinalizando que a recuperação não se restringe apenas à quantidade de postos, mas também a algum ganho de qualidade no mercado de trabalho.
Os dados detalhados do levantamento ajudam a dimensionar essa melhora. A renda média real do trabalho cresceu 5,8% no período, alcançando R$ 2.498 enquanto a massa de rendimentos chegou a R$ 57,8 bilhões, uma alta de cerca de 27% desde 2022. Ao mesmo tempo, a expansão do emprego formal reforçou o dinamismo recente do mercado de trabalho regional, indicando maior estabilidade nas ocupações geradas.
Ainda assim, o próprio estudo alerta que o desemprego, isoladamente, não esgota o diagnóstico. A taxa ampliada de subutilização da força de trabalho permanece elevada, em torno de 22,6%, evidenciando a persistência de informalidade, desalento e ocupações com baixa carga horária ou rendimento. Em outras palavras, a melhora é consistente, mas ainda convive com fragilidades estruturais históricas da região.
Dentro desse cenário regional, o desempenho do Ceará chama atenção. O estado encerrou 2025 com a menor taxa de desemprego do Nordeste e uma das menores do país, alcançando cerca de 5% no último trimestre, além de um avanço consistente do emprego formal. Esse resultado não é conjuntural. Ele se ancora em uma trajetória de longo prazo que diferencia o Ceará dentro da região.
Desde os anos 1990, o estado vem estruturando uma política ativa de desenvolvimento baseada na atração de investimentos industriais e na construção de infraestrutura logística. A consolidação do Complexo Industrial e Portuário do Pecém é um dos exemplos mais evidentes dessa estratégia. O equipamento se tornou um polo de exportação e de instalação de indústrias, especialmente nos setores siderúrgico, energético e de transformação. A presença da Companhia Siderúrgica do Pecém e de cadeias associadas ajudou a diversificar a base produtiva e a gerar empregos formais mais qualificados.

Além disso, explica Cícero, o Ceará desenvolveu uma política consistente de incentivos fiscais e de apoio à indústria, atraindo setores como têxtil, calçadista e alimentos. “Diferentemente de outros estados nordestinos, conseguiu combinar essa estratégia com investimentos em educação básica e qualificação profissional, frequentemente apontados como um dos fatores estruturais que melhoram a empregabilidade da força de trabalho local”, afirma o economista; lembrando que é comum, por exemplo, vermos bons índices educacionais no estado, e que “uma coisa leva a outra”. Ou seja, educação qualificada, mão de obra qualificada.
Outro vetor importante foi o fortalecimento do setor de serviços urbanos, especialmente na Região Metropolitana de Fortaleza, que passou a concentrar atividades de comércio, logística e serviços especializados. Essa combinação entre base industrial, dinamismo urbano e políticas públicas continuadas ajuda a explicar por que o estado apresenta maior capacidade de geração de empregos formais em comparação com seus vizinhos.
O resultado é um mercado de trabalho mais resiliente e menos dependente exclusivamente de ciclos de consumo ou de políticas emergenciais. Ainda assim, mesmo no Ceará, os desafios estruturais não desaparecem. A informalidade permanece relevante, e a dependência de setores de menor produtividade continua sendo um limite para ganhos mais robustos de renda.