
No Vale do Açu, no Rio Grande do Norte (RN), cascas de coco que seriam descartadas pela indústria de água de coco estão ganhando uma nova destinação: transformadas em biochar por meio da pirólise, elas retornam ao campo como insumo agrícola e podem contribuir para melhorar a retenção de água, a disponibilidade de nutrientes e a produtividade das lavouras.
A solução transforma um resíduo da agroindústria em matéria-prima para a agricultura e cria um ciclo de reaproveitamento dentro da própria cadeia produtiva, conceito conhecido como “simbiose agroindustrial”. Pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) apontam ganhos de produtividade e eficiência no uso da água, enquanto o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte (Sebrae-RN) destaca o potencial da iniciativa para fortalecer a economia circular no semiárido.
A tecnologia vem sendo desenvolvida pela empresa Charma, que recebeu apoio de programas do Sebrae-RN voltados a negócios de impacto socioambiental. Mona Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto do Sebrae-RN, destaca que a transformação das cascas de coco em biochar representa uma oportunidade concreta de converter um passivo da agroindústria em insumo de valor para a própria cadeia produtiva. Segundo ela, a iniciativa da Charma conecta produção agrícola, agroindústria, inovação e reaproveitamento de resíduos no mesmo território, criando um modelo de economia circular especialmente estratégico para o Vale do Açu, onde a atividade agrícola convive com os desafios do clima semiárido e da eficiência no uso de água e nutrientes.
“Estamos falando de transformar um passivo da agroindústria em um novo produto, com possibilidade de aplicação dentro da própria cadeia agrícola. A casca representa uma parcela muito elevada do coco verde e, quando não encontra uma destinação produtiva, gera custos de transporte, armazenamento e disposição para as empresas. Com a pirólise, essa lógica muda: a casca que sai da indústria de água de coco passa a ser matéria-prima para a produção de biochar, que pode retornar à agricultura e até aos próprios coqueirais. É um exemplo muito concreto de economia circular, porque conecta produção agrícola, agroindústria, inovação e reaproveitamento de resíduos dentro do mesmo território”, afirma.
A gerente do Sebrae-RN ressalta ainda que, embora não exista uma estatística oficial sobre o volume de cascas descartado especificamente pelas agroindústrias de água de coco do Vale do Açu, a dimensão da cadeia produtiva indica um potencial expressivo de aproveitamento. O RN produziu cerca de 164,6 milhões de frutos de coco-da-baía em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto estudos da Embrapa apontam que a casca pode representar 80% a 85% do peso do coco verde. Para Mona, o próximo passo é cruzar os dados da produção regional com o volume efetivamente processado pelas indústrias, permitindo dimensionar com maior precisão a biomassa disponível e o potencial de geração de biochar.
O pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, Rubens Gondim, explica que os testes com biocarvão já apontam ganhos em diferentes indicadores de produtividade do coqueiro. Segundo ele, a aplicação do material resultou em efeitos positivos no número de folhas por planta, na quantidade de folíolos, na produção anual de frutos e no volume de água de coco obtido por fruto e por hectare. Em solos arenosos, o aumento da retenção de água também elevou a produtividade da água, indicando potencial para ampliar a produção agrícola sem aumentar proporcionalmente o consumo de água de irrigação.
“O biocarvão apresentou efeitos benéficos significativos no número de folhas por planta, no número de folíolos por folha, na produção de frutos por planta ao ano, no volume de água de coco por fruto e no volume total de água de coco por hectare ao ano. No solo arenoso, o aumento da retenção hídrica melhorou a produtividade da água, que passou de 5,0 para 10,9 frutos por metro cúbico de água de irrigação e de 2,1 para 3,7 litros de água de coco por metro cúbico de água de irrigação. Na prática, isso significa produzir mais utilizando menos água, o que é especialmente relevante para a agricultura em regiões de clima semiárido”, enfatiza.
Alexandre Santos Pimenta, professor e pesquisador da UFRN, explica que as pesquisas conduzidas por sua equipe na Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ) apontam que a aplicação de biochar promove melhorias simultâneas nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Segundo o pesquisador, a elevada porosidade do material contribui para reduzir a compactação, melhorar a aeração e aumentar a retenção de água, enquanto sua capacidade de elevar o pH e a Capacidade de Troca Catiônica favorece a disponibilidade de nutrientes como fósforo, potássio, cálcio e magnésio para as plantas. Esses efeitos, associados à formação de ambientes favoráveis à atividade de microrganismos benéficos, podem resultar em ganhos de produtividade e biomassa em diferentes culturas.
“O biochar atua de forma bastante ampla sobre o solo. Sua elevada porosidade contribui para reduzir a compactação, melhorar a aeração e aumentar a retenção de água. Quimicamente, ele pode elevar o pH, reduzir a presença de alumínio tóxico e aumentar a Capacidade de Troca Catiônica, fazendo com que nutrientes essenciais, como fósforo, potássio, cálcio e magnésio, permaneçam mais disponíveis para as plantas e sejam menos perdidos por lixiviação. Além disso, sua estrutura porosa cria micro-habitats que favorecem a proliferação de microrganismos benéficos. Na prática, esses mecanismos podem se traduzir em maior produtividade e geração de biomassa em culturas como feijão, milho, arroz e soja, especialmente quando o biochar é associado à adubação convencional”, frisa.
Além dos ganhos relacionados à produtividade agrícola, Pimenta ressalta que o biochar apresenta potencial ambiental relevante. Conforme as pesquisas reunidas pelo professor e sua equipe, o material pode adsorver e imobilizar contaminantes presentes no solo, incluindo metais pesados e resíduos de defensivos agrícolas, reduzindo sua mobilidade e o risco de alcançar o lençol freático. A aplicação também contribui para o sequestro mais estável de carbono no solo, ampliando o potencial do reaproveitamento de resíduos agrícolas como uma estratégia que combina melhoria da qualidade do solo, eficiência produtiva e benefícios ambientais.