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26 de outubro de 2026 14:08

Recorde do FNE para 2027 ainda fica abaixo da demanda por crédito no Nordeste

Recorde do FNE para 2027 ainda fica abaixo da demanda por crédito no Nordeste

Banco do Nordeste admite que a procura supera os recursos previstos, e dados de 2026 ajudam a dimensionar quanto chega, de fato, às micro e pequenas empresas
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O Conselho Deliberativo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Condel/Sudene) deve aprovar até dezembro o plano que vai definir como serão aplicados, em 2027, os R$ 60,9 bilhões do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). O montante, anunciado em setembro pelo Banco do Nordeste (BNB), supera em 15,9% a programação de 2026 e é o maior da história do fundo. O recorde, porém, não deve dar conta de toda a procura por crédito na região, segundo o próprio banco.

“Mesmo considerando todo o incremento de disponibilidades no período, é importante observar que a demanda agregada dessa área de atuação é superior”, afirma Valdir Machado Neto, gerente do Ambiente de Políticas de Desenvolvimento Sustentável do BNB. Segundo ele, a pressão vem de frentes como a indústria, a recuperação ambiental, a energia, o saneamento e a logística. Para cobrir parte da diferença, o banco tem recorrido a fontes externas ao fundo, como BNDES, Finep e Fungetur, além de organismos internacionais, como o Banco Mundial.

A busca por alternativas ajuda a entender de onde vem o recorde. A maior parte do dinheiro do FNE não sai de novos aportes da União, e sim do pagamento de empréstimos antigos. Das duas principais fontes de ingresso previstas para 2027, os reembolsos de operações anteriores somam R$ 44,5 bilhões, cerca de 69% do conjunto, enquanto os repasses do Tesouro Nacional respondem por R$ 19,7 bilhões. Para Wandemberg Almeida, diretor de Gestão de Fundos e Incentivos Fiscais da Sudene, a proporção evidencia o caráter rotativo do FNE, no qual o valor devolvido pelos tomadores volta a financiar novos projetos.

O BNB vai além e vê o peso dos reembolsos como um sinal positivo. “Não chamo de autofinanciamento”, diz Machado, para quem a predominância desses recursos demonstra saúde financeira. O representante do banco reconhece, no entanto, que o ritmo de crescimento pode variar com a conjuntura econômica e com uma eventual queda na arrecadação de impostos, origem dos repasses federais.

E a conjuntura já dá sinais de mudança. Levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), área de pesquisa do BNB, divulgado em outubro, aponta que a economia nordestina cresceu 2,5% entre agosto de 2025 e julho de 2026, um ponto percentual acima da média nacional, mas perde fôlego desde abril, quando a taxa chegou a 3%. Os resultados do banco no primeiro semestre também mostram piora nos pagamentos. No FNE, a inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,1% para 4,3% em um ano, e as provisões para perdas passaram a consumir 36,3% da margem financeira do fundo, ante 22,8%. Os números dão peso à ressalva feita pelo gerente.

Quanto chega aos pequenos

Se a capacidade do fundo depende de quem devolve o crédito, o outro lado da equação é saber quem o recebe. A proposta para 2027 reserva ao menos 62% do total, ou R$ 37,8 bilhões, aos chamados portes prioritários, grupo que reúne empreendimentos mini, micro e pequenos, mas também os de tamanho intermediário, logo abaixo dos médios. Questionado sobre quanto desse volume chegará de fato à ponta, o gerente explicou que o percentual é uma meta mínima, que pode ser superada, e que sua execução é acompanhada semanalmente, com relatórios à Sudene e ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). A divisão prevista entre esses portes, porém, não foi informada.

Os dados de execução de 2026 ajudam a preencher essa lacuna. Balanço divulgado em agosto mostra que o FNE contratou R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre, metade do previsto para o ano. Desse total, as microempresas receberam R$ 3,53 bilhões e as pequenas, R$ 3,77 bilhões, enquanto os grandes projetos ficaram com R$ 6,27 bilhões. Entre os portes prioritários, o maior volume foi para os empreendimentos classificados como mini, a menor faixa do fundo, com R$ 6,69 bilhões.

O efeito econômico desse crédito ainda não tem estimativa para 2027. O BNB informa que os cálculos só serão feitos após as contratações. A referência mais recente é do Etene, que atribuiu aos financiamentos de 2025 um impacto de R$ 33,2 bilhões sobre o Valor Bruto da Produção, a soma de tudo o que foi produzido.

Setores e estados dentro de limites

Enquanto o impacto não tem número, a distribuição já tem regras. Em agosto, o Conselho Deliberativo da Sudene ampliou de 258 para 329 as atividades prioritárias para financiamento a partir de 2027, incluindo segmentos como transporte, mineração, turismo e cinema. A divisão por setor só será fechada no plano final, mas a execução de 2026 indica onde está à procura: no primeiro semestre, comércio e serviços lideraram as contratações, com R$ 7,46 bilhões, à frente da pecuária, que tinha a maior fatia programada para o ano.

Essa distribuição obedece ainda a limites mantidos para 2027: cada estado deve receber entre 5% e 30% dos recursos, e a infraestrutura pode ficar com no máximo 35%. As duas instituições admitem que as regras têm custo. Segundo Almeida, o teto estadual pode restringir a parcela de um estado cuja demanda projetada supere o máximo, efeito que ele considera inerente à opção por desconcentrar o crédito. Na infraestrutura, o diretor afirma que o percentual não corresponde a uma estimativa do volume necessário para superar os déficits regionais. “Isso não significa considerar suficientes os investimentos em infraestrutura existentes na região”, diz.

Até a votação, a proposta do BNB passa pela análise da Sudene e do MIDR. De acordo com o diretor, as sugestões colhidas em setembro nas reuniões com os estados não são incorporadas automaticamente.

O plano chega, portanto, à reta final com perguntas em aberto. O FNE terá mais dinheiro do que nunca, mas não o bastante para a demanda que o próprio banco reconhece, e sua expansão depende sobretudo do que os tomadores devolvem, num momento em que a inadimplência subiu. A prioridade aos menores negócios, por sua vez, segue medida por uma meta que também inclui empresas de porte intermediário. Mais do que o tamanho do recorde, será a divisão aprovada pelo conselho que vai mostrar quem realmente ganha com ele.

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