
O Conselho Deliberativo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Condel/Sudene) deve aprovar até dezembro o plano que vai definir como serão aplicados, em 2027, os R$ 60,9 bilhões do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). O montante, anunciado em setembro pelo Banco do Nordeste (BNB), supera em 15,9% a programação de 2026 e é o maior da história do fundo. O recorde, porém, não deve dar conta de toda a procura por crédito na região, segundo o próprio banco.
“Mesmo considerando todo o incremento de disponibilidades no período, é importante observar que a demanda agregada dessa área de atuação é superior”, afirma Valdir Machado Neto, gerente do Ambiente de Políticas de Desenvolvimento Sustentável do BNB. Segundo ele, a pressão vem de frentes como a indústria, a recuperação ambiental, a energia, o saneamento e a logística. Para cobrir parte da diferença, o banco tem recorrido a fontes externas ao fundo, como BNDES, Finep e Fungetur, além de organismos internacionais, como o Banco Mundial.
A busca por alternativas ajuda a entender de onde vem o recorde. A maior parte do dinheiro do FNE não sai de novos aportes da União, e sim do pagamento de empréstimos antigos. Das duas principais fontes de ingresso previstas para 2027, os reembolsos de operações anteriores somam R$ 44,5 bilhões, cerca de 69% do conjunto, enquanto os repasses do Tesouro Nacional respondem por R$ 19,7 bilhões. Para Wandemberg Almeida, diretor de Gestão de Fundos e Incentivos Fiscais da Sudene, a proporção evidencia o caráter rotativo do FNE, no qual o valor devolvido pelos tomadores volta a financiar novos projetos.
O BNB vai além e vê o peso dos reembolsos como um sinal positivo. “Não chamo de autofinanciamento”, diz Machado, para quem a predominância desses recursos demonstra saúde financeira. O representante do banco reconhece, no entanto, que o ritmo de crescimento pode variar com a conjuntura econômica e com uma eventual queda na arrecadação de impostos, origem dos repasses federais.
E a conjuntura já dá sinais de mudança. Levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), área de pesquisa do BNB, divulgado em outubro, aponta que a economia nordestina cresceu 2,5% entre agosto de 2025 e julho de 2026, um ponto percentual acima da média nacional, mas perde fôlego desde abril, quando a taxa chegou a 3%. Os resultados do banco no primeiro semestre também mostram piora nos pagamentos. No FNE, a inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,1% para 4,3% em um ano, e as provisões para perdas passaram a consumir 36,3% da margem financeira do fundo, ante 22,8%. Os números dão peso à ressalva feita pelo gerente.
Quanto chega aos pequenos
Se a capacidade do fundo depende de quem devolve o crédito, o outro lado da equação é saber quem o recebe. A proposta para 2027 reserva ao menos 62% do total, ou R$ 37,8 bilhões, aos chamados portes prioritários, grupo que reúne empreendimentos mini, micro e pequenos, mas também os de tamanho intermediário, logo abaixo dos médios. Questionado sobre quanto desse volume chegará de fato à ponta, o gerente explicou que o percentual é uma meta mínima, que pode ser superada, e que sua execução é acompanhada semanalmente, com relatórios à Sudene e ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). A divisão prevista entre esses portes, porém, não foi informada.
Os dados de execução de 2026 ajudam a preencher essa lacuna. Balanço divulgado em agosto mostra que o FNE contratou R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre, metade do previsto para o ano. Desse total, as microempresas receberam R$ 3,53 bilhões e as pequenas, R$ 3,77 bilhões, enquanto os grandes projetos ficaram com R$ 6,27 bilhões. Entre os portes prioritários, o maior volume foi para os empreendimentos classificados como mini, a menor faixa do fundo, com R$ 6,69 bilhões.
O efeito econômico desse crédito ainda não tem estimativa para 2027. O BNB informa que os cálculos só serão feitos após as contratações. A referência mais recente é do Etene, que atribuiu aos financiamentos de 2025 um impacto de R$ 33,2 bilhões sobre o Valor Bruto da Produção, a soma de tudo o que foi produzido.
Setores e estados dentro de limites
Enquanto o impacto não tem número, a distribuição já tem regras. Em agosto, o Conselho Deliberativo da Sudene ampliou de 258 para 329 as atividades prioritárias para financiamento a partir de 2027, incluindo segmentos como transporte, mineração, turismo e cinema. A divisão por setor só será fechada no plano final, mas a execução de 2026 indica onde está à procura: no primeiro semestre, comércio e serviços lideraram as contratações, com R$ 7,46 bilhões, à frente da pecuária, que tinha a maior fatia programada para o ano.
Essa distribuição obedece ainda a limites mantidos para 2027: cada estado deve receber entre 5% e 30% dos recursos, e a infraestrutura pode ficar com no máximo 35%. As duas instituições admitem que as regras têm custo. Segundo Almeida, o teto estadual pode restringir a parcela de um estado cuja demanda projetada supere o máximo, efeito que ele considera inerente à opção por desconcentrar o crédito. Na infraestrutura, o diretor afirma que o percentual não corresponde a uma estimativa do volume necessário para superar os déficits regionais. “Isso não significa considerar suficientes os investimentos em infraestrutura existentes na região”, diz.
Até a votação, a proposta do BNB passa pela análise da Sudene e do MIDR. De acordo com o diretor, as sugestões colhidas em setembro nas reuniões com os estados não são incorporadas automaticamente.
O plano chega, portanto, à reta final com perguntas em aberto. O FNE terá mais dinheiro do que nunca, mas não o bastante para a demanda que o próprio banco reconhece, e sua expansão depende sobretudo do que os tomadores devolvem, num momento em que a inadimplência subiu. A prioridade aos menores negócios, por sua vez, segue medida por uma meta que também inclui empresas de porte intermediário. Mais do que o tamanho do recorde, será a divisão aprovada pelo conselho que vai mostrar quem realmente ganha com ele.