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7 de julho de 2026 11:25

Desafios históricos em Saúde e Saneamento assombram disputa pelo governo da Paraíba

Desafios históricos em Saúde e Saneamento assombram disputa pelo governo da Paraíba

Regionalização do atendimento, expansão do saneamento básico e investimentos em infraestrutura de água e esgoto devem pautar o debate eleitoral
Foto: Pixabay

Em ano eleitoral, desigualdades no acesso à saúde regionalizada e à infraestrutura básica expõem custos ocultos, financeiros e humanos, da ausência de políticas estruturantes. Enquanto candidatos colocam a saúde no centro do debate eleitoral, dois eixos estruturais permanecem subdimensionados na discussão pública: a efetividade e a progressão da regionalização do atendimento e o avanço (ou a estagnação) do saneamento básico.

Presente na imensa maioria dos debates eleitorais pelo país, a saúde e o saneamento também devem ocupar um espaço central na corrida pelo Governo da Paraíba. Contudo, as particularidades do contexto paraibano tornam as discussões no estado mais peculiar.

Serviços de água e esgoto

O primeiro tema que já movimentou o debate pré-eleitoral na Paraíba diz respeito ao serviço de água e esgoto. Ofertado pela Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) para a imensa maioria dos municípios paraibanos, o serviço já foi alvo de críticas e discussões políticas a respeito da gestão do saneamento básico no estado.

Em 2022, a Cagepa esteve envolvida em uma polêmica com a administração pública de Santa Rita, terceira maior cidade da Paraíba em termos populacionais. Na época, a prefeitura local rompeu o contrato com a empresa, alegando falta de investimentos em melhorias, por parte da Cagepa, para ampliar o acesso da população ao fornecimento de água e ao tratamento de esgoto.

Hoje, em 2026, sob a justificativa de ampliar a oferta de saneamento básico em 85 municípios do estado, o Governo da Paraíba estabeleceu uma Parceria Público-Privada (PPP) com a empresa espanhola Acciona. Estão previstos investimentos de cerca de R$ 3 bilhões pelos próximos 25 anos de parceria.

Contudo, a ação do Governo da Paraíba gerou controvérsia e um debate acalorado no campo político. Pré-candidatos de oposição, como Cícero Lucena (MDB) e Efraim Filho (PL), criticaram a inclusão do capital privado no sistema de água e esgoto paraibano.

Enquanto o debate “esquenta” no campo político, a população paraibana sente os reflexos da falta de investimentos. De acordo com o ranking do Instituto Trata Brasil, a cidade de João Pessoa apresentou piora nos indicadores e ocupa o 70º lugar no ranking de saneamento básico. No quesito atendimento urbano, o cenário é ainda pior: a capital está na 94ª posição, com 78,58% de cobertura.

Ainda sobre o tema, segundo dados do Instituto Trata Brasil, cerca de 62,8% da população, o que corresponde a 2,6 milhões de paraibanos, ainda vive sem acesso à coleta de esgoto. O déficit de acesso à água, por sua vez, atinge 41,3% da população (1,7 milhão de pessoas), índice bem superior à média nacional, de 18,1%. Diariamente, cerca de 245 milhões de litros de esgoto residencial são despejados sem tratamento nos rios e praias do estado.

Além dos benefícios para a população, o investimento em saneamento básico pode significar maior arrecadação e economia para o estado. Segundo o instituto, a cada R$ 1,00 investido, estima-se um retorno de R$ 4,30 em benefícios para a população. Com uma possível universalização, os ganhos projetados para o estado incluem R$ 1,5 bilhão em valorização imobiliária e R$ 407 milhões em economia com gastos na saúde.

Regionalização da saúde

O investimento em saneamento básico pode contribuir para outro tema que invariavelmente aparece nos debates eleitorais Brasil afora: a saúde pública.

Uma particularidade da saúde paraibana está no intenso fluxo de pacientes do interior para centros maiores, como João Pessoa e Campina Grande, em busca de atendimento especializado, que, por vezes, não é ofertado em outras regiões do estado.

De acordo com dados do Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), do Ministério da Saúde, repassados pelo setor de Regulação e Avaliação em Saúde do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW/UFPB), de janeiro a dezembro de 2019, do total de 8.557 internações registradas no hospital, cerca de 3.405 (40%) foram de usuários oriundos de fora da capital paraibana.

Entre 2007 e 2019, das 79 mil internações contabilizadas, 36 mil foram de pessoas de outros municípios, incluindo pacientes de fora da Paraíba. Dessa forma, mais de 45% dos usuários que precisaram de uma vaga em um dos leitos do HULW são oriundos não apenas do interior da Paraíba, mas também de outros estados brasileiros.

O deslocamento de pacientes pode ser explicado pela falta de oferta de serviços especializados em áreas do interior do estado. Dos leitos disponíveis em hospitais regionais, João Pessoa e Campina Grande concentram cerca de 500 leitos ofertados. Além disso, as duas cidades concentram os quatro hospitais oncológicos da Paraíba.

Hospital Município Região atendida Perfil/especialidades Capacidade aproximada
Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena João Pessoa Litoral e Zona da Mata Trauma, neurocirurgia, ortopedia, urgência Mais de 300 leitos
Hospital de Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes Campina Grande Borborema e Sertão Trauma, ortopedia, alta complexidade Cerca de 250 leitos
Hospital Regional de Patos Patos Sertão Clínica médica, cirurgia, obstetrícia, UTI Cerca de 120 leitos
Hospital Regional de Cajazeiras Cajazeiras Alto Sertão Urgência, maternidade, cirurgia Cerca de 130 leitos
Hospital Regional de Sousa Sousa Sertão Média complexidade, maternidade Aproximadamente 100 leitos
Hospital Regional de Guarabira Guarabira Brejo Clínica médica, obstetrícia, cirurgia Cerca de 90 leitos
Hospital Regional de Picuí Picuí Curimataú Média complexidade Cerca de 60 leitos
Hospital Regional de Itaporanga Itaporanga Vale do Piancó Clínica e urgência Cerca de 70 leitos
Hospital Regional de Mamanguape Mamanguape Litoral Norte Média complexidade e maternidade Cerca de 70 leitos
Hospital Regional de Monteiro Monteiro Cariri Urgência, clínica médica Cerca de 80 leitos

Visando expandir a saúde na Paraíba, o Governo do Estado vem investindo na ampliação de hospitais regionais no interior.

Obra/investimento Município Valor estimado Situação
Ampliação do Hospital Regional de Guarabira Guarabira Mais de R$ 20 milhões Em execução
Modernização do Hospital Regional de Patos Patos Aproximadamente R$ 15 milhões Parcialmente concluída
Reforma do Hospital Regional de Cajazeiras Cajazeiras Cerca de R$ 10 milhões Em andamento
Ampliação de UTIs regionais Diversos municípios Mais de R$ 30 milhões Parcialmente concluída
Investimentos no Opera Paraíba Estadual Centenas de milhões desde 2019 Permanente

O atual pré-candidato ao Governo da Paraíba e ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, durante visita ao município de Patos, no Sertão do estado, comentou que a descentralização da saúde será uma das propostas de sua candidatura. Em entrevista a um site local, Cícero chegou a comentar sobre o custo financeiro e humano do modelo atual de atendimento.

“Hoje, muitas pessoas precisam se deslocar para João Pessoa em busca de atendimento, o que gera custos e sofrimento. Isso mostra que o estado precisa atuar melhor. É necessário levar uma saúde de qualidade e humanizada para mais perto das pessoas.”

Enquanto as eleições não chegam, os pré-candidatos seguem se posicionando no tabuleiro político do estado, marcando posições sobre os mais diversos temas. Para além de promessa de campanha, a eleição de 2026 poderá definir se a Paraíba será capaz de reduzir desigualdades históricas no acesso à saúde e ao saneamento básico.

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