
Em ano eleitoral, desigualdades no acesso à saúde regionalizada e à infraestrutura básica expõem custos ocultos, financeiros e humanos, da ausência de políticas estruturantes. Enquanto candidatos colocam a saúde no centro do debate eleitoral, dois eixos estruturais permanecem subdimensionados na discussão pública: a efetividade e a progressão da regionalização do atendimento e o avanço (ou a estagnação) do saneamento básico.
Presente na imensa maioria dos debates eleitorais pelo país, a saúde e o saneamento também devem ocupar um espaço central na corrida pelo Governo da Paraíba. Contudo, as particularidades do contexto paraibano tornam as discussões no estado mais peculiar.
Serviços de água e esgoto
O primeiro tema que já movimentou o debate pré-eleitoral na Paraíba diz respeito ao serviço de água e esgoto. Ofertado pela Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) para a imensa maioria dos municípios paraibanos, o serviço já foi alvo de críticas e discussões políticas a respeito da gestão do saneamento básico no estado.
Em 2022, a Cagepa esteve envolvida em uma polêmica com a administração pública de Santa Rita, terceira maior cidade da Paraíba em termos populacionais. Na época, a prefeitura local rompeu o contrato com a empresa, alegando falta de investimentos em melhorias, por parte da Cagepa, para ampliar o acesso da população ao fornecimento de água e ao tratamento de esgoto.
Hoje, em 2026, sob a justificativa de ampliar a oferta de saneamento básico em 85 municípios do estado, o Governo da Paraíba estabeleceu uma Parceria Público-Privada (PPP) com a empresa espanhola Acciona. Estão previstos investimentos de cerca de R$ 3 bilhões pelos próximos 25 anos de parceria.
Contudo, a ação do Governo da Paraíba gerou controvérsia e um debate acalorado no campo político. Pré-candidatos de oposição, como Cícero Lucena (MDB) e Efraim Filho (PL), criticaram a inclusão do capital privado no sistema de água e esgoto paraibano.
Enquanto o debate “esquenta” no campo político, a população paraibana sente os reflexos da falta de investimentos. De acordo com o ranking do Instituto Trata Brasil, a cidade de João Pessoa apresentou piora nos indicadores e ocupa o 70º lugar no ranking de saneamento básico. No quesito atendimento urbano, o cenário é ainda pior: a capital está na 94ª posição, com 78,58% de cobertura.
Ainda sobre o tema, segundo dados do Instituto Trata Brasil, cerca de 62,8% da população, o que corresponde a 2,6 milhões de paraibanos, ainda vive sem acesso à coleta de esgoto. O déficit de acesso à água, por sua vez, atinge 41,3% da população (1,7 milhão de pessoas), índice bem superior à média nacional, de 18,1%. Diariamente, cerca de 245 milhões de litros de esgoto residencial são despejados sem tratamento nos rios e praias do estado.
Além dos benefícios para a população, o investimento em saneamento básico pode significar maior arrecadação e economia para o estado. Segundo o instituto, a cada R$ 1,00 investido, estima-se um retorno de R$ 4,30 em benefícios para a população. Com uma possível universalização, os ganhos projetados para o estado incluem R$ 1,5 bilhão em valorização imobiliária e R$ 407 milhões em economia com gastos na saúde.
Regionalização da saúde
O investimento em saneamento básico pode contribuir para outro tema que invariavelmente aparece nos debates eleitorais Brasil afora: a saúde pública.
Uma particularidade da saúde paraibana está no intenso fluxo de pacientes do interior para centros maiores, como João Pessoa e Campina Grande, em busca de atendimento especializado, que, por vezes, não é ofertado em outras regiões do estado.
De acordo com dados do Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), do Ministério da Saúde, repassados pelo setor de Regulação e Avaliação em Saúde do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW/UFPB), de janeiro a dezembro de 2019, do total de 8.557 internações registradas no hospital, cerca de 3.405 (40%) foram de usuários oriundos de fora da capital paraibana.
Entre 2007 e 2019, das 79 mil internações contabilizadas, 36 mil foram de pessoas de outros municípios, incluindo pacientes de fora da Paraíba. Dessa forma, mais de 45% dos usuários que precisaram de uma vaga em um dos leitos do HULW são oriundos não apenas do interior da Paraíba, mas também de outros estados brasileiros.
O deslocamento de pacientes pode ser explicado pela falta de oferta de serviços especializados em áreas do interior do estado. Dos leitos disponíveis em hospitais regionais, João Pessoa e Campina Grande concentram cerca de 500 leitos ofertados. Além disso, as duas cidades concentram os quatro hospitais oncológicos da Paraíba.
| Hospital | Município | Região atendida | Perfil/especialidades | Capacidade aproximada |
| Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena | João Pessoa | Litoral e Zona da Mata | Trauma, neurocirurgia, ortopedia, urgência | Mais de 300 leitos |
| Hospital de Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes | Campina Grande | Borborema e Sertão | Trauma, ortopedia, alta complexidade | Cerca de 250 leitos |
| Hospital Regional de Patos | Patos | Sertão | Clínica médica, cirurgia, obstetrícia, UTI | Cerca de 120 leitos |
| Hospital Regional de Cajazeiras | Cajazeiras | Alto Sertão | Urgência, maternidade, cirurgia | Cerca de 130 leitos |
| Hospital Regional de Sousa | Sousa | Sertão | Média complexidade, maternidade | Aproximadamente 100 leitos |
| Hospital Regional de Guarabira | Guarabira | Brejo | Clínica médica, obstetrícia, cirurgia | Cerca de 90 leitos |
| Hospital Regional de Picuí | Picuí | Curimataú | Média complexidade | Cerca de 60 leitos |
| Hospital Regional de Itaporanga | Itaporanga | Vale do Piancó | Clínica e urgência | Cerca de 70 leitos |
| Hospital Regional de Mamanguape | Mamanguape | Litoral Norte | Média complexidade e maternidade | Cerca de 70 leitos |
| Hospital Regional de Monteiro | Monteiro | Cariri | Urgência, clínica médica | Cerca de 80 leitos |
Visando expandir a saúde na Paraíba, o Governo do Estado vem investindo na ampliação de hospitais regionais no interior.
| Obra/investimento | Município | Valor estimado | Situação |
| Ampliação do Hospital Regional de Guarabira | Guarabira | Mais de R$ 20 milhões | Em execução |
| Modernização do Hospital Regional de Patos | Patos | Aproximadamente R$ 15 milhões | Parcialmente concluída |
| Reforma do Hospital Regional de Cajazeiras | Cajazeiras | Cerca de R$ 10 milhões | Em andamento |
| Ampliação de UTIs regionais | Diversos municípios | Mais de R$ 30 milhões | Parcialmente concluída |
| Investimentos no Opera Paraíba | Estadual | Centenas de milhões desde 2019 | Permanente |
O atual pré-candidato ao Governo da Paraíba e ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, durante visita ao município de Patos, no Sertão do estado, comentou que a descentralização da saúde será uma das propostas de sua candidatura. Em entrevista a um site local, Cícero chegou a comentar sobre o custo financeiro e humano do modelo atual de atendimento.
“Hoje, muitas pessoas precisam se deslocar para João Pessoa em busca de atendimento, o que gera custos e sofrimento. Isso mostra que o estado precisa atuar melhor. É necessário levar uma saúde de qualidade e humanizada para mais perto das pessoas.”
Enquanto as eleições não chegam, os pré-candidatos seguem se posicionando no tabuleiro político do estado, marcando posições sobre os mais diversos temas. Para além de promessa de campanha, a eleição de 2026 poderá definir se a Paraíba será capaz de reduzir desigualdades históricas no acesso à saúde e ao saneamento básico.
