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27 de outubro de 2026 10:48

Fruto do Ceará: como o Mêntore Bank transformou o nanocrédito do trabalhador em um negócio bilionário

Fruto do Ceará: como o Mêntore Bank transformou o nanocrédito do trabalhador em um negócio bilionário

Empresa decidiu olhar para o crédito de baixíssimo tíquete, aquele focado em trabalhadores que ganham até três salários mínimos

Aos 14 anos, Vanderson Aquino vendia água de coco nas ruas do Ceará para ajudar no orçamento doméstico. Foi acompanhando de perto a rotina da própria família que ele enxergava o esforço diário para fazer a renda durar até o fim do mês. E com isso, a urgência por pequenas quantias para cobrir imprevistos do dia a dia.

Anos mais tarde, essa mesma percepção serviu de faísca para a fundação do Mêntore Bank, em Fortaleza, em 2021. Enquanto o sistema bancário tradicional e as grandes fintechs paulistas travavam uma disputa  pelos clientes de alta renda e por grandes volumes de empréstimo, a empresa cearense decidiu olhar para a ponta oposta: o crédito de baixíssimo tíquete, aquele focado em trabalhadores que ganham até três salários mínimos.

A operação, que começou resolvendo necessidades de R$ 50, R$ 100 ou R$ 200, ultrapassou movimentações bilionárias, fincou bandeira na Faria Lima e pavimenta a rota para uma eventual abertura de capital na Nasdaq até 2028, que é a segunda maior bolsa de valores do mundo em capitalização de mercado.

Vanderson Aquino, CEO e fundador do Mêntore Bank | Foto: Arquivo Pessoal

A concessão de crédito de baixo tíquete sempre enfrentou resistência no mercado financeiro tradicional. Em operações de valores irrisórios, os custos operacionais com análise de risco, emissão de contratos, atendimento e cobrança costumam corroer qualquer margem de lucro. “A maior parte do sistema financeiro foi estruturada para operações de valores maiores”, explica Vanderson Aquino, CEO e fundador do Mêntore Bank. “Se o processo for manual ou depender de canais caros de aquisição, a conta não fecha.”

Para André Felipe Canuto Coelho, professor permanente da UFPE no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, para quem vive com o orçamento apertado, R$ 50 ou R$ 100 fazem diferença. “Podem garantir o transporte para o trabalho, completar a compra de alimentos ou ajudar numa despesa inesperada. Então, embora sejam operações pequenas, sua importância para a família pode ser grande.” Mas o professor destaca que é preciso cuidado para não confundir valor pequeno com custo baixo. “É preciso olhar quanto a pessoa recebe, quanto vai devolver e em quanto tempo. Sem conhecer essas condições, não dá para afirmar que seja uma alternativa mais barata que o cheque especial ou o rotativo do cartão.”

Para superar essa barreira histórica, a fintech desenhou um modelo baseado na integração direta com o ambiente corporativo e com a folha de pagamento das empresas parceiras. Em vez de bancar altos custos de aquisição de clientes no varejo aberto, a instituição aproximou a oferta financeira da jornada de trabalho. A estratégia permitiu mapear o perfil de risco do trabalhador a partir da sua rotina laboral real, viabilizando algoritmos automatizados que reduzem drasticamente as etapas manuais e os custos por transação.

A identidade nordestina segue como pilar central da empresa, mas a dor resolvida pelo Mêntore Bank provou ser um fenômeno nacional. Ao desenhar um modelo totalmente replicável, a fintech atingiu a marca de 600 mil correntistas de conta-salário.

André pontua que o principal desafio é fazer a conta fechar sem tornar o crédito excessivamente caro para o cliente. “Mesmo um empréstimo de R$ 100 envolve análise, segurança, atendimento e eventual cobrança. Como a receita por operação é limitada, a empresa precisa trabalhar com eficiência e controlar bem as perdas.”

O crescimento acelerado exigiu disciplina rígida no controle de inadimplência e evolução contínua da inteligência de dados. A partir da tração gerada nas carteiras de trabalhadores no Nordeste, o volume financeiro transacionado atingiu a casa dos bilhões como consequência direta do ganho de densidade operacional.

A expansão do Mêntore Bank levou a instituição a estabelecer presença física na Faria Lima, em São Paulo, coração financeiro do país. O movimento visa aproximar o banco de grandes investidores, parceiros institucionais e talentos do setor de tecnologia e finanças. Transitar entre a vulnerabilidade do trabalhador de baixa renda no Nordeste e as exigências do mercado financeiro em São Paulo tornou-se um dos diferenciais estratégicos de Vanderson. Para o executivo, o segredo está na capacidade de tradução: enquanto a Faria Lima exige governança, consistência e projeções de escala, o trabalhador na ponta precisa de soluções simples que façam sentido na rotina real.

De Fortaleza para o mundo

A projeção de um IPO (Oferta Pública Inicial) marca o capítulo mais ousado da trajetória da fintech. Contudo, a companhia adota um tom pragmático em relação ao processo, tratando a listagem internacional como uma consequência de maturidade institucional e não como uma promessa rígida.

Foto: Divulgação

“Para uma fintech nordestina ganhar escala, o desafio é transformar esse conhecimento local numa operação que funcione em outros mercados. Uma solução pode dar certo em Fortaleza ou no Recife e precisar de ajustes em outras cidades. É nessa expansão que a consistência do modelo aparece”, diz o professor da UFPE, que complementa ao dizer que uma abertura de capital exige transparência, governança e capacidade de prestar contas de forma consistente. “Anunciar esse objetivo é uma decisão estratégica; sua viabilidade precisa ser demonstrada ao longo do tempo. Por isso, eu olharia primeiro para a sustentabilidade do negócio. O volume movimentado pode chamar atenção, mas é preciso entender quanto ele gera de receita, quanto custa manter a operação e qual resultado sobra.”

Para sustentar a tese perante investidores globais, a empresa está em fase de estruturação de governança corporativa, adequação de controles internos, refinamento de compliance e aprimoramento na transparência de balanços, deixando claro que soluções nascidas fora do eixo Rio-São Paulo, ancoradas na compreensão profunda das demandas da baixa renda, têm capacidade de construir teses de negócios bilionárias e com apelo global.

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