
A crise na petroquímica Braskem está longe de um fim. Desde que entrou com um pedido de recuperação extrajudicial em 24 de agosto, investidores da empresa têm buscado possíveis soluções para reestruturar a dívida de cerca de US$ 10,9 bilhões. Diante do cenário, parte dos acionistas vê na Petrobras, acionista da Braskem, a solução para os problemas financeiros da petroquímica. A estatal, por outro lado, vive um dilema entre salvar a empresa e importar uma dívida bilionária.
O dilema a respeito da participação da Petrobras também está dentro da própria Braskem. Segundo apuração do jornalista Victor Irajá para a CNN Money, credores e acionistas da companhia também divergem sobre qual deve ser a participação da Petrobras na solução da crise da petroquímica.
Por um lado, detentores de títulos da empresa defendem que a reestruturação envolva novos recursos e maior compartilhamento do custo entre credores e acionistas. Já a Braskem busca um alongamento das dívidas, que preserve a estrutura de controle e não exija aportes da IG4 nem da Petrobras, ambas acionistas da petroquímica. Além disso, a empresa também resiste à possibilidade de oferecer ações ou ativos adicionais como garantia no processo.
Contudo, a Petrobras já indicou que não deve fazer um aporte isolado. Ainda segundo a CNN, a preocupação da estatal em assumir sozinha o risco de uma solução para a Braskem está em aumentar a tensão política e financeira da própria Petrobras.
Riscos na operação
A Petrobras possui 36,15% do capital total e 47,03% do capital votante da companhia, mas, na avaliação do advogado empresarial e especialista em direito empresarial pela PUC-MG, Gustavo Moreira, a exposição da estatal à Braskem vai além da participação societária.
“Existe uma relação comercial muito forte entre as empresas. A Petrobras é uma importante fornecedora de matérias-primas da Braskem, com contratos de longo prazo que envolvem bilhões de dólares. Então, quando falamos em exposição, precisamos considerar tanto a participação societária quanto essa relação comercial. Uma crise mais grave da Braskem inevitavelmente produz reflexos para a Petrobras”, avalia o advogado.
O risco político relacionado ao caso Petrobras e Braskem está principalmente ligado ao afundamento do solo de Maceió, que atinge cinco bairros da capital alagoana e forçou mais de 60 mil pessoas a abandonar suas residências e comércios. O desastre ambiental é causado pela exploração de sal-gema, realizada pela Braskem. Em novembro de 2025, a Braskem e o governo de Alagoas realizaram um acordo no valor de R$ 1,2 bilhão em virtude dos danos ambientais.
Na avaliação de Gabriel Paes Barreto, economista e pesquisador, a exposição política da Petrobras é bem maior que a financeira.
“A exposição financeira é pequena. Os 47% do capital votante valem R$ 1 bilhão em bolsa, 0,2% do valor da Petrobras. O que havia para perder já se perdeu. O risco real é político. Colocar dinheiro é ser acusado de socorrer empresa privada em cima de Maceió. Não colocar é ser acusado de deixar quebrar, com demissões em três estados e eleição no meio. Ficar parada custa pouco hoje e muito em novembro. Governos costumam escolher o custo que chega depois.”
Apesar de não aceitar ser uma solução isolada para a Braskem, recentemente a estatal elevou para R$ 2,35 bilhões o limite de crédito concedido para a empresa. De acordo com comunicado das empresas, o aumento do limite faz parte de uma relação comercial entre Petrobras e Braskem, com o objetivo de dar suporte às operações da petroquímica.
De acordo com Barreto, a decisão da estatal de não fazer o aporte sozinha é acertada. Segundo ele, o crédito de R$ 2,35 bilhões é 4% da dívida e paga matéria-prima, mas não juros. Impede que a crise financeira vire crise de fábrica.
“A Petrobras disse que não fará aporte sozinha. Fez bem. Passar de 50% traria a dívida inteira e o passivo de Alagoas para o balanço da estatal. O que ela fez foi ampliar de R$ 350 milhões para R$ 2,35 bilhões o crédito para compra de nafta, com garantia em recebíveis. Não é dinheiro novo. É um fornecedor protegendo seu maior cliente sem assumir o risco dele”, explica o especialista.
Contudo, na análise de Barreto, a saída do caso Braskem não é aporte financeiro. Segundo o economista, a saída para a petroquímica reside na venda de ativos, como em outros casos.
“A saída não é aporte, é a dívida encolher. Como na Oi, na Light e na Americanas: o credor perde parte, vira sócio, a empresa vende ativos. A Petrobras garante a operação e oferece um compromisso condicional, sem virar dona. Capital novo vem do fundo que comprou o controle para isso, ou de um sócio de fora. Alagoas fica fora da mesa.”
Segundo ele, caso não haja um novo capital, a recuperação judicial deve ser o caminho. “As fábricas continuam. Mudam os donos. É como deveria ser. A história das nossas empresas estratégicas costuma terminar com o prejuízo socializado. Desta vez pode ser diferente. Depende da Petrobras continuar dizendo não. É a parte mais difícil”, conclui.
Recuperação Judicial
No momento, a Braskem está em um processo de recuperação extrajudicial, em que a negociação é feita diretamente com os credores fora dos tribunais, passando pelo juiz apenas no final para a homologação do acordo. Contudo, para que o processo seja homologado, a Braskem precisa do apoio de 50% dos credores e, no momento, a petroquímica possui apoio de cerca de 39,6%.
Diante do cenário, a recuperação judicial, em que o processo é conduzido inteiramente perante a Justiça, não é descartada. Na avaliação do advogado Gustavo Moreira, a recuperação judicial ampliaria a complexidade do caso Braskem e reafirma que, para a Petrobras, não é interessante assumir sozinha o problema da petroquímica, bem como não seria relevante uma quebra da companhia.
“A recuperação extrajudicial atual está concentrada principalmente na reorganização das dívidas financeiras. Em uma recuperação judicial, o processo passa a ser mais amplo e com maior participação do Judiciário e dos credores. Para a Petrobras, existe uma situação particular porque ela é acionista da Braskem, mas também possui uma relação comercial muito relevante com a companhia.”
A complexidade do caso Braskem vai além da própria empresa, sendo um importante ator na indústria petroquímica brasileira e, com várias relações comerciais, a ameaça à companhia pode significar uma mudança no setor brasileiro e na relação com outras importantes empresas, incluindo a Petrobras.