Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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8 de julho de 2026 10:47

O boom das startups do Rio Grande do Norte

O boom das startups do Rio Grande do Norte

Empresas incubadas no Metrópole Parque (UFRN) desenvolvem soluções em IA para setores automotivo e de recursos humanos; casos incluem aporte de R$ 6 milhões e destaque em publicação da Amazon
Foto: Reprodução/Internet

O Rio Grande do Norte registra 677 startups ativas e crescimento de 21,3% no último ano, segundo o Sebrae Startups Report Brasil 2025, e figura entre os dez maiores ecossistemas de inovação do país. Parte desse avanço é impulsionado pelo Metrópole Parque, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que concentra empresas de base tecnológica e projetos de desenvolvimento.

O parque tecnológico reúne atualmente 42 startups (25 incubadas e 17 pré-incubadas), além de 190 empresas associadas, e responde por mais de 3.450 empregos diretos no estado.

Esse desempenho reflete a consolidação de um ecossistema de inovação baseado em tecnologia e conhecimento, impulsionado pela integração entre universidades, incubadoras e empresas, além da ampliação dos investimentos e da oferta de soluções para diferentes setores da economia.

Ecossistema aposta em economia do conhecimento

Segundo o diretor do Metrópole Parque/UFRN, Rodrigo Romão, o diferencial do ambiente de inovação está na conexão entre formação acadêmica, pesquisa aplicada e empreendedorismo.

“É um processo de cultura empreendedora que combina formação de talentos humanos com alto domínio técnico; execução contínua de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) com grandes empresas e instituições públicas; e o papel de articulação entre diversos atores do ecossistema de inovação local”, afirma.

Ele destaca que a estrutura criada no estado amplia as oportunidades para empreendedores e reduz a saída de profissionais qualificados para outros centros do país.

“Nossos empreendedores encontram no próprio estado acesso a capacitação, incubação, aceleração, conexões com o mercado e possibilidades de investimento. Isso reduz a necessidade de migração e cria condições para que profissionais altamente qualificados construam suas carreiras aqui mesmo”, diz.

Para Romão, o amadurecimento do ecossistema já produz resultados concretos, como a atração de investimentos, a expansão das startups incubadas e o reconhecimento internacional conquistado por empresas criadas dentro da universidade.

“Os investimentos captados por startups locais demonstram que o Rio Grande do Norte possui competência científica, capacidade empreendedora e talentos capazes de desenvolver soluções competitivas em escala global”, afirma.

IA aplicada a setores produtivos

Um dos exemplos desse movimento é a Hubbi Parts, startup criada no ambiente de inovação da UFRN que desenvolveu uma plataforma baseada em inteligência artificial para o mercado de autopeças.

A solução utiliza a placa do veículo para identificar automaticamente os componentes compatíveis. Para isso, cruza informações de uma base com mais de 2,3 milhões de peças, construída a partir da padronização de dados da indústria automotiva brasileira. Segundo a empresa, a tecnologia pode gerar economia de até 40% no tempo e nos custos operacionais de oficinas, frotistas e demais empresas do setor.

O CEO Igor Mesquita comenta como a estruturação dessa base foi um dos principais desafios tecnológicos da startup.

“Na prática, nós mapeamos toda a indústria nacional e todo o seu portfólio, além de todos os veículos fabricados ou importados para o Brasil desde 1950 até hoje. A partir disso, fazemos um cruzamento de dados utilizando protocolos de padronização para realizar a limpeza e a higienização dessas bases, que historicamente são bastante despadronizadas. Assim, conseguimos transformá-las em dados estruturados”, afirma.

Igor Mesquita, CEO da Hubbi Parts | Foto: SKA Comunicação.

Ele explica que essa organização permite relacionar veículos e peças de forma automatizada. “Com esse trabalho, é possível estabelecer uma relação direta entre peças e veículos. Hoje, apenas pela placa do carro, conseguimos identificar as peças corretas para cada modelo, onde elas estão disponíveis e qual o seu preço.”

A empresa agora inicia uma nova etapa de desenvolvimento. Selecionada em edital da Finep, a Hubbi Parts receberá R$ 6 milhões em recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para criar um grande modelo de linguagem (LLM) especializado no setor automotivo.

Segundo Mesquita, o investimento representa um marco para uma empresa criada no Nordeste.

“É algo extremamente relevante, principalmente por se tratar de uma empresa do Nordeste. Quando começamos, em 2019, esse tema ainda era pouco discutido e o universo do venture capital parecia muito distante. Eu acreditava que seria necessário estar em São Paulo para ter acesso a esse ecossistema, mas conseguimos romper essa barreira”, diz.

Ele afirma que os recursos permitirão acelerar o crescimento da empresa.

“Cada vez mais as fronteiras estão diminuindo, e esse investimento vai nos permitir acelerar o crescimento da empresa, contratar mão de obra ainda mais qualificada — algo fundamental para quem trabalha com tecnologias emergentes — e construir, ainda este ano, soluções que talvez só conseguíssemos desenvolver daqui a dois ou três anos”, completa.

Faceponto automatiza recrutamento com inteligência artificial

Outra empresa que ganhou projeção nacional e internacional é a Faceponto. A startup desenvolveu a inteligência artificial Lexia, aplicada aos processos de recrutamento e seleção, e foi destaque em uma publicação da Amazon Web Services (AWS) sobre casos de uso de IA generativa.

Segundo a empresa, a plataforma reduziu o tempo necessário para analisar 30 currículos de cerca de quatro horas para aproximadamente dois minutos e pode acelerar em até 95% determinadas etapas dos processos seletivos.

O CEO Cássio Leandro afirma que o diferencial da solução está em atuar durante todo o fluxo de recrutamento.

“O diferencial da Lexia está em não usar inteligência artificial apenas para responder perguntas — ela atua como uma camada operacional dentro do RH. Em vez de automatizar uma etapa isolada, ela conecta e executa praticamente todo o fluxo de recrutamento e seleção: recebe currículos, interpreta documentos, analisa aderência técnica à vaga, avalia aspectos comportamentais, organiza candidatos e automatiza a comunicação com cada etapa do processo”, afirma.

Segundo ele, a plataforma utiliza diferentes modelos e agentes de inteligência artificial para cada função. “A arquitetura foi desenvolvida para combinar diferentes modelos e agentes especializados conforme cada tarefa, permitindo maior precisão, escala e flexibilidade”, diz.

Cássio Leandro, CEO da Faceponto | Foto: SKA Comunicação.

A redução de tempo ocorre principalmente na triagem inicial dos candidatos, etapa que tradicionalmente concentra boa parte do trabalho manual das equipes de recursos humanos.

“Com isso, conseguimos reduzir um processo que antes levava horas de triagem manual para poucos minutos e acelerar significativamente o tempo entre o recebimento dos candidatos e a tomada de decisão”, explica.

Para o executivo, o reconhecimento da AWS ocorreu porque a tecnologia resolve um problema operacional comum às empresas.

“A AWS destaca justamente essa aplicação prática da IA generativa em um problema real de negócio: transformar um processo tradicionalmente operacional em uma experiência mais inteligente, escalável e centrada nas pessoas”, afirma.

Além de reduzir o tempo de contratação, a plataforma também busca melhorar a experiência dos candidatos.

“Para o candidato, o principal ganho é velocidade e previsibilidade. Em muitos processos tradicionais, currículos ficam dias ou semanas aguardando análise. Com a Lexia, a triagem inicial acontece em minutos e o contato com candidatos aderentes pode ocorrer no mesmo dia”, afirma.

Segundo Leandro, a análise também considera informações que vão além do currículo.

“Além disso, a análise vai além do currículo. A plataforma considera informações da vaga, experiências anteriores, questionários comportamentais e interações do processo para ajudar o RH a tomar decisões mais completas — reduzindo escolhas apenas por palavras-chave ou volume de currículos”, diz.

Os casos da Hubbi Parts e da Faceponto ilustram a inserção do estado em cadeias nacionais e internacionais de tecnologia, especialmente em soluções de inteligência artificial aplicadas a setores produtivos e de serviços.

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