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25 de agosto de 2026 08:31

Braskem pede recuperação extrajudicial mesmo após registrar lucro de R$ 3,3 bilhões

Braskem pede recuperação extrajudicial mesmo após registrar lucro de R$ 3,3 bilhões

Petroquímica pretende reestruturar US$ 10,9 bilhões em dívidas e ganhar tempo para adequar o perfil de seus compromissos financeiros à capacidade de geração de caixa
Foto: Divulgação/Braskem

A Braskem protocolou na segunda-feira (24) um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, em um movimento destinado a reorganizar o perfil de sua dívida e preservar a liquidez da companhia. O pedido ocorre após o encerramento do período de proteção de 60 dias obtido anteriormente pela empresa contra determinadas medidas de seus credores. A companhia terá agora uma nova janela de negociação, estimada em 90 dias, para buscar os acordos necessários à aprovação do plano. A recuperação extrajudicial está concentrada no passivo financeiro e não abrange fornecedores, clientes e outros compromissos relacionados à operação da empresa.

O pedido ocorre em um momento de resultados operacionais positivos, o que torna a situação financeira da Braskem particularmente relevante. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de US$ 664 milhões, aproximadamente R$ 3,3 bilhões, revertendo o prejuízo de US$ 53 milhões registrado no mesmo período de 2025. O EBITDA chegou a US$ 1,043 bilhão, alta significativa em relação ao resultado do ano anterior, indicando recuperação da geração operacional de caixa. Apesar da melhora dos indicadores, a empresa permanece pressionada pelo elevado endividamento e pelo calendário de vencimentos de suas obrigações financeiras.

A diferença entre os resultados operacionais e a situação financeira explica a necessidade da reestruturação. Ao final do segundo trimestre, a Braskem apresentava aproximadamente US$ 9,5 bilhões em dívida líquida ajustada, enquanto sua alavancagem financeira permanecia elevada. O problema, portanto, não decorre exclusivamente da capacidade atual de geração de resultados, mas da relação entre essa geração de caixa e o volume, o custo e o cronograma de vencimento das dívidas acumuladas pela companhia. A recuperação extrajudicial busca alterar justamente essa relação, permitindo que os pagamentos sejam distribuídos ao longo de um período mais compatível com a capacidade financeira projetada para a empresa.

A dívida submetida à reestruturação está concentrada principalmente em investidores internacionais e instituições financeiras. Os bondholders internacionais representam aproximadamente 65,3% dos créditos, enquanto bancos e agências respondem por cerca de 26,8%. O restante está distribuído entre debêntures brasileiras, instrumentos híbridos subordinados e certificados de recebíveis do agronegócio. A concentração dos créditos em grandes grupos de credores será determinante para a negociação, porque o plano precisará alcançar os quóruns previstos na legislação para que possa ser homologado e produzir efeitos sobre os credores abrangidos.

Entendendo o cenário

A recuperação extrajudicial possui diferenças importantes em relação à recuperação judicial. Pela Lei 11.101/2005, a empresa pode apresentar o pedido com a adesão de credores que representem pelo menos um terço dos créditos de cada espécie abrangida pelo plano e, posteriormente, buscar o apoio de mais da metade dos créditos de cada espécie. Uma das questões relevantes do processo será justamente a definição das classes ou espécies de credores consideradas para a votação. A composição desses grupos poderá determinar o peso relativo de bondholders, bancos, debenturistas e demais investidores nas decisões sobre o plano de reestruturação.

A estratégia da Braskem é alongar o perfil de vencimento de suas obrigações e reduzir a pressão sobre o caixa no curto prazo. Entre as propostas discutidas anteriormente com os credores estão a extensão dos prazos, alterações nas condições de remuneração da dívida e mecanismos de capitalização de juros. A companhia pretende evitar que uma parcela elevada de sua geração de caixa seja destinada ao serviço da dívida em um período de vencimentos concentrados. A proposta definitiva, contudo, dependerá da negociação com os credores e das condições que forem incorporadas ao plano submetido à homologação judicial.

A dimensão do problema fica mais clara quando se observa o calendário financeiro projetado pela companhia. Documentos apresentados durante as negociações indicaram que a Braskem teria de desembolsar aproximadamente US$ 3,7 bilhões entre julho de 2026 e dezembro de 2027 para o serviço da dívida, além de outros compromissos previstos para 2028. A reestruturação pretende modificar essa trajetória de pagamentos, preservando recursos para o funcionamento da companhia e para investimentos necessários à manutenção de suas operações. A intenção é substituir uma concentração de desembolsos no curto prazo por um cronograma de pagamentos distribuído ao longo dos próximos anos.

A situação financeira da Braskem também deve ser analisada no contexto do mercado petroquímico internacional. A companhia atravessou nos últimos anos um período de margens pressionadas, influenciado por excesso de oferta, competição internacional e condições adversas para produtores petroquímicos. A recuperação registrada em seus resultados recentes não eliminou os efeitos acumulados desse período sobre o endividamento. A empresa precisa, portanto, combinar a melhora de sua operação com uma redução da pressão financeira produzida pelo estoque e pelo calendário de vencimentos de suas obrigações.

O processo também ocorre paralelamente à reestruturação da Braskem Idesa, joint venture da Braskem com o Grupo Idesa no México. A empresa mexicana entrou com pedido de proteção judicial nos Estados Unidos pelo mecanismo conhecido como Chapter 11, em uma operação que prevê a reorganização de aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívidas. A Braskem deverá realizar um aporte de aproximadamente US$ 476 milhões na operação e permanecer como acionista majoritária da companhia mexicana. As duas operações são juridicamente distintas, mas ocorrem simultaneamente e exigem recursos e negociações em diferentes jurisdições.

O pedido brasileiro também não elimina as obrigações relacionadas à crise provocada pela exploração de sal-gema em Maceió (AL). Os compromissos associados ao programa de compensação financeira, realocação de moradores e demais medidas decorrentes do afundamento do solo permanecem fora do escopo da reestruturação financeira apresentada nesta segunda-feira. A Braskem já desembolsou bilhões de reais em indenizações e outros pagamentos relacionados ao episódio, que continua produzindo consequências financeiras, jurídicas e ambientais para a companhia. Esses compromissos representam uma frente distinta da negociação que envolve os credores financeiros abrangidos pelo plano.

A recuperação extrajudicial ocorre ainda poucos meses depois de uma mudança importante na estrutura acionária da Braskem. A IG4 Capital, por meio do fundo Shine, assumiu o controle das ações ordinárias anteriormente pertencentes à Novonor, passando a deter aproximadamente 50,1% dos papéis com direito a voto. A Petrobras permanece como acionista relevante, com cerca de 47% das ações ordinárias. A nova estrutura de controle passa, portanto, a enfrentar a tarefa de conduzir a companhia durante uma das maiores reestruturações financeiras de sua história.

A Braskem não interrompeu suas atividades industriais nem apresentou um pedido de recuperação judicial abrangendo toda a companhia. O objetivo declarado da recuperação extrajudicial é restringir a negociação ao passivo financeiro e preservar a continuidade normal das operações. A companhia continuará produzindo, comercializando seus produtos e mantendo seus contratos operacionais enquanto negocia com os credores as novas condições para o pagamento das dívidas. O resultado da operação dependerá, principalmente, da capacidade de obter os quóruns exigidos pela legislação e de alcançar um acordo considerado sustentável pelas diferentes categorias de credores.

O contraste entre o lucro trimestral e o pedido de recuperação extrajudicial, portanto, não representa necessariamente uma contradição contábil. Lucro, geração operacional de caixa e capacidade de pagamento da dívida são indicadores diferentes, e uma companhia pode apresentar resultado positivo enquanto enfrenta dificuldades para cumprir um cronograma de vencimentos elevado. No caso da Braskem, a recuperação extrajudicial está sendo utilizada como instrumento para reorganizar os pagamentos financeiros e adequá-los à capacidade de geração de caixa esperada para os próximos anos.

Os próximos 90 dias serão decisivos para a negociação. A Braskem precisará consolidar o apoio dos credores, definir a estrutura das classes submetidas ao plano e estabelecer as condições definitivas para o alongamento da dívida. Os credores, por sua vez, terão de avaliar se as condições oferecidas são suficientes para preservar o valor de seus créditos e reduzir os riscos associados à companhia. O desfecho determinará não apenas o cronograma de pagamento dos US$ 10,9 bilhões abrangidos pelo processo, mas também a capacidade da Braskem de transformar a recuperação de seus resultados operacionais em uma estrutura financeira sustentável.

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