
Quatro capitais da região Nordeste figuram entre os dez municípios brasileiros de maior dinamismo no mercado de trabalho para o ano de 2026, segundo o ranking Cidades em Alta, elaborado pela plataforma LinkedIn.
Natal lidera a lista em 1º lugar, seguida por Recife em 2º, Fortaleza em 4º e João Pessoa que ocupa a 9ª posição. O estudo baseia-se na movimentação de perfis profissionais e no volume de oportunidades registradas na rede social.
André Felipe Canuto Coelho, professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) conversou com o Investindo Por Aí e ajudou a compreender os fatores econômicos e estruturais que fundamentam a lista divulgada recentemente.
De acordo com o professor, os resultados observados acontecem por conta de uma conjunção de variáveis econômicas, não é apenas um fator isolado ou mera recuperação conjuntural. “Essas capitais vêm combinando crescimento dos serviços, construção civil, turismo, tecnologia e novos investimentos. Recife, por exemplo, tem uma base importante na área de tecnologia, muito ligada ao Porto Digital e ao ecossistema que se formou em torno dele. Fortaleza ganhou muito peso em telecomunicações, infraestrutura digital, energia e, mais recentemente, data centers. Natal e João Pessoa também vêm se beneficiando do crescimento dos serviços, do turismo, da construção e de uma maior capacidade de atrair investimentos e profissionais.”
André Felipe destaca ainda que as políticas públicas, como a expansão de universidades, institutos federais e concessão de incentivos fiscais, atuam na formação do ambiente de negócios, mas que o desempenho atual reflete a articulação entre a iniciativa privada, os custos operacionais da região e o aproveitamento de vantagens locais.
Por se fundamentar em dados do LinkedIn, o indicador reflete o comportamento de parcelas do mercado formal e de profissionais cadastrados na rede, demandando análise complementar em relação às estatísticas oficiais do mercado de trabalho, avalia o especialista.
Diferença entre volume de empregos e valor agregado
Setores como transição energética, parques eólicos e solares, tecnologia da informação e data centers registram aportes financeiros expressivos nas capitais citadas. No entanto, o economista estabelece uma distinção entre o volume de capital investido e a capacidade de geração contínua de postos de trabalho diretos.
Empreendimentos de infraestrutura tecnológica e energética exigem elevado contingente de trabalhadores durante as fases de obras e implantação. Após o início da operação, tais atividades passam a operar de forma intensiva em tecnologia e capital, reduzindo a demanda por mão de obra direta permanente.
O efeito principal dessas cadeias reside na movimentação de segmentos correlatos, como empresas fornecedoras, logística, engenharia, manutenção e desenvolvimento de software. A geração ostensiva de postos de trabalho continua concentrada no setor de serviços, no comércio, na construção civil, na saúde e no turismo.
De acordo com o professor, o papel de setores como energia e tecnologia direciona-se mais para o aumento da produtividade média, elevação dos padrões salariais e melhoria da qualificação das vagas do que para a absorção massiva de trabalhadores.
André destaca que a adequação da oferta de trabalhadores envolve não apenas a formação acadêmica, mas ensino técnico profissionalizante, voltado ao atendimento direto das demandas operacionais das indústrias e empresas de tecnologia instaladas na região. O crescimento da demanda por profissionais nas áreas de tecnologia da informação, automação, análise de dados, engenharia e manutenção especializada expõe gargalos operacionais.
Por isso, em relação às universidades públicas, centros de pesquisa e unidades do Sistema S (entidades brasileiras de natureza privada que prestam serviços de capacitação profissional, como SESI e SENAI), a velocidade de aporte dos investimentos pode superar a capacidade local de formação de quadros técnicos e superiores.
Tendências globais como a transição para matrizes energéticas limpas e a digitalização das atividades produtivas mantêm o Nordeste em posição estratégica para a atração de capitais de longo prazo. “A questão é saber se a região conseguirá transformar essa oportunidade em desenvolvimento econômico mais permanente. Se os investimentos vierem acompanhados de qualificação profissional, fornecedores locais, tecnologia e aumento de produtividade, o efeito pode ser muito relevante. Se forem apenas grandes projetos instalados fisicamente na região, mas pouco integrados à economia local, o impacto será bem menor”, avalia o professor.