
A retração do mercado internacional de suco de laranja já produz efeitos no campo e pressiona produtores do Nordeste, que enfrentam queda nos preços, dificuldade para escoar parte da produção e necessidade de rever estratégias para manter a atividade. No Vale do Mundaú, em Alagoas, onde a citricultura é marcada pelo cultivo da laranja-lima, os efeitos se somam a problemas que já atingiram os pomares nos últimos anos, como estiagens e a infestação pela mosca-negra.
Com cerca de 90% do suco de laranja brasileiro destinado ao mercado externo, a cadeia sente os efeitos da retração da demanda internacional e do excesso de oferta, enquanto produtores, pesquisadores e instituições de crédito discutem alternativas como diversificação dos cultivos, agroindustrialização, ganho de eficiência e acesso a financiamento.
No Vale do Mundaú, os efeitos das dificuldades enfrentadas pela citricultura são sentidos há anos pelos produtores. Segundo Antonio Carlos Souza, presidente da cooperativa de produtores da região, os períodos de estiagem entre 2016 e 2019 e, posteriormente, a ocorrência da mosca-negra provocaram perdas expressivas nos pomares e levaram parte dos agricultores a abandonar o cultivo da laranja.
“A situação do produtor é essa: com a fábrica não comprando, eles têm prejuízo, porque o mercado não absorve toda a produção, principalmente a laranja que é muito pequena. Os produtores são pequenos agricultores e já não têm recursos para investir. Agora, muito pior”, ressalta.
Com a dificuldade de comercialização, parte dos agricultores passou a buscar alternativas, como a criação de gado e o cultivo de banana-da-terra. Souza afirma que, no município de Santana do Mundaú, interior de Alagoas, a produção da fruta chegou a crescer entre os produtores que dispõem de água para a irrigação.
O cenário reforça um dos principais desafios apontados por especialistas para a citricultura alagoana: encontrar alternativas para ampliar os mercados da laranja-lima e reduzir a dependência da comercialização da fruta in natura.
Para o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Anderson Carlos Marafon, a citricultura nordestina reúne condições favoráveis para ampliar sua participação no mercado, entre elas a diversidade de ambientes produtivos e a ausência do greening nos pomares da região, uma das principais ameaças à citricultura paulista.

“A baixa diversificação de cultivos cítricos e a destinação majoritária dos frutos ao mercado de mesa dificulta a exploração da cadeia da laranja-lima de forma mais ampla e rentável. Nesse sentido, a agroindustrialização de frutas tropicais é uma estratégia cada vez mais importante para fortalecer a agricultura familiar e promover o desenvolvimento sustentável de territórios rurais. Não se trata apenas de produzir suco, mas também de buscar outras formas de processamento, como a desidratação, a produção de geleias, doces, licores e óleos essenciais, que podem agregar valor à produção e ampliar as possibilidades de mercado”, menciona.
Segundo Marafon, a diversificação precisa ser conduzida a partir de um planejamento estratégico, com a introdução de novas variedades cítricas e porta-enxertos adaptados às condições regionais, permitindo ao produtor explorar diferentes mercados e reduzir a dependência de uma única cultura ou finalidade comercial.
O pesquisador também destaca que a expansão da citricultura para novas áreas, inclusive regiões de clima semiárido, pode abrir oportunidades para o Nordeste, desde que acompanhada de planejamento técnico e escolha adequada das variedades. Em Alagoas, esse potencial se soma à particularidade da produção predominante de laranja-lima, especialmente no Vale do Mundaú, reconhecido pela qualidade e pelas características de baixa acidez do fruto.
Para Souza, a retomada da agroindustrialização poderia representar uma alternativa para absorver parte da produção que hoje encontra dificuldades de comercialização. Segundo ele, a cooperativa dispõe de uma fábrica que já funcionou anteriormente, mas está atualmente fechada.
“Podemos fazer o suco da laranja, mas para vender a quem? A nossa laranja-lima precisa de apoio para colocar a fábrica para funcionar e ter condições de produzir e comercializar o suco. Precisamos de apoio para comprar esse suco e para que a gente tenha condição de sobreviver, abrir a fábrica e tocar para frente”, enfatiza.
A avaliação do cooperativista converge com a defesa de maior agregação de valor feita por pesquisadores da cadeia, mas também evidencia um gargalo adicional: além de industrializar, será necessário construir mercado para os produtos processados.
Em toda a área de atuação do Banco do Nordeste (BNB), as contratações de crédito para a citricultura passaram de R$ 90 milhões, em 2024, distribuídos em 1.980 operações, para R$ 175 milhões, em 2025, em 2.530 operações. Entre os dois maiores produtores de laranja do Nordeste, Bahia e Sergipe também registraram crescimento das contratações no período. Na Bahia, foram contratados R$ 38,7 milhões em 850 operações em 2024. No ano seguinte, o volume superou R$ 45 milhões, distribuídos em 1.145 operações. Em Sergipe, as contratações passaram de R$ 37 milhões em 2024, com 551 operações, para R$ 58,5 milhões em 2025, com 727 operações.

O gerente do Ambiente de Agronegócios do BNB, Eliézer Rodrigues Lobo, explica que o cenário de preços tem levado os citricultores a adotarem investimentos voltados à expansão, embora permaneça a procura por recursos destinados à manutenção dos pomares e à continuidade da produção.
“Esse comportamento demonstra que os produtores seguem comprometidos com a preservação da capacidade produtiva de seus empreendimentos, buscando manter os níveis de produtividade e qualidade da fruta. O crédito rural desempenha papel fundamental na sustentabilidade econômica da atividade agrícola, especialmente em períodos marcados por oscilações de mercado, ao proporcionar recursos para custeio e investimentos que permitam manter a produção e melhorar a eficiência dos empreendimentos”, esclarece.
Entre as alternativas disponíveis, Lobo destaca o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) Rural, voltado ao custeio e aos investimentos agropecuários, e o FNE Irrigação, destinado à implantação, ampliação e modernização de sistemas de irrigação. Segundo ele, os produtores têm buscado principalmente recursos para manutenção dos pomares, tratos culturais e condução da safra, além de tecnologias voltadas ao uso racional da água e à melhoria da qualidade da produção.
Na visão do gerente, o financiamento também pode contribuir para que os produtores atravessem períodos de maior pressão sobre as margens sem comprometer a capacidade produtiva, viabilizando investimentos em irrigação, modernização tecnológica, manejo eficiente e práticas sustentáveis que fortaleçam a competitividade da citricultura regional no médio e longo prazo.