
A menos de seis meses das eleições, uma pauta começa a atravessar com mais força o debate político em Alagoas. Mais do que pedidos pontuais por incentivos fiscais ou obras isoladas, parte significativa do setor produtivo passou a pressionar por um projeto de desenvolvimento capaz de enfrentar gargalos históricos de infraestrutura, qualificação profissional, crédito e inovação.
O movimento reflete uma mudança de expectativa dentro do empresariado alagoano. Em vez de reivindicações fragmentadas, entidades ligadas à indústria, comércio, construção civil, tecnologia e pequenos negócios vêm tentando construir consensos sobre quais áreas deveriam orientar a próxima agenda econômica do estado.
Infraestrutura logística aparece entre as prioridades mais recorrentes. O debate envolve desde a precariedade de rodovias estaduais até os desafios de integração entre produção industrial, agronegócio, turismo e portos. A percepção entre empresários é que Alagoas avançou em alguns indicadores econômicos nos últimos anos, mas ainda opera com limitações estruturais que reduzem competitividade e dificultam atração de novos investimentos.
A Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, a FIEA, passou a reforçar esse discurso com mais intensidade nos últimos anos. Em documento ligado ao planejamento estratégico da indústria até 2032, a entidade defendeu a necessidade de políticas integradas entre governo, universidades e setor produtivo para ampliar inovação e competitividade no estado. O presidente da FIEA, José Carlos Lyra de Andrade, afirmou que “a inovação é uma construção de longo prazo, que depende da interação entre diferentes agentes e da continuidade dos investimentos”.
A federação também ampliou recentemente sua estrutura voltada à tecnologia e sustentabilidade industrial, em meio à preocupação crescente com modernização produtiva e qualificação de mão de obra. Em janeiro de 2026, a entidade criou uma diretoria específica de Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade Industrial, alegando responder às “novas demandas do setor produtivo”.
No setor comercial, o discurso é semelhante, mas acompanhado de preocupação com o ritmo da economia e o ambiente de negócios. Em análise divulgada pela Fecomércio Alagoas no início de 2025, o assessor econômico Francisco Rosário apontou que a confiança empresarial vinha sendo pressionada pelas condições conjunturais da economia e pela cautela do setor privado diante das incertezas do mercado.

Ao mesmo tempo, entidades ligadas ao empreendedorismo passaram a defender uma agenda mais voltada à inovação e produtividade. O Sebrae Alagoas intensificou nos últimos anos programas de aceleração tecnológica, apoio a startups e internacionalização de pequenos negócios. Em publicação recente, a instituição afirmou que “organização, planejamento e qualificação são aliados para começar 2026 com mais competitividade”, ao defender atualização tecnológica e capacitação contínua como fatores decisivos para sobrevivência empresarial.
Essa pressão por inovação ganhou força especialmente após a expansão do ecossistema de startups no estado. Dados divulgados pelo Sebrae apontam crescimento de 123% no faturamento das startups apoiadas pela instituição em 2025, enquanto o número de empresas de tecnologia cadastradas aumentou 40% nos últimos dois anos.
O tema também aparece em seminários empresariais recentes. Durante o Alagoas Summit 2025, evento voltado a empreendedorismo, tecnologia e negócios, representantes do setor produtivo defenderam maior integração entre universidades, empresas, crédito e políticas públicas para evitar que Alagoas perca competitividade regional na economia digital.
Outra preocupação crescente envolve a diversificação da matriz econômica alagoana. Historicamente dependente do setor sucroenergético, do turismo e do funcionalismo público, o estado tenta ampliar espaço em áreas como serviços digitais, pequenas indústrias, tecnologia, economia criativa e energias renováveis. Parte do empresariado avalia que Alagoas ainda possui baixa densidade industrial e pouca integração entre cadeias produtivas.
Na construção civil, por exemplo, o Sinduscon Alagoas vem defendendo expansão do crédito imobiliário, retomada de obras estruturantes e ampliação da infraestrutura urbana como forma de sustentar crescimento econômico de longo prazo. Em balanço divulgado no fim de 2025, o setor destacou que a retomada de grandes obras e o fortalecimento do crédito ajudaram a impulsionar novos negócios no estado.
Há ainda uma preocupação territorial importante. Enquanto Maceió concentra serviços, turismo e parte significativa da renda estadual, empresários do agreste e do sertão defendem políticas mais fortes de interiorização econômica, ampliação de crédito e fortalecimento de arranjos produtivos locais.
Para o cientista político Eduardo Magalhães, pesquisador das relações entre economia regional e comportamento eleitoral, a tendência é que a disputa de 2026 em Alagoas seja mais atravessada por temas econômicos do que em eleições anteriores. “O empresariado alagoano parece menos interessado em agendas pontuais e mais preocupado com previsibilidade, infraestrutura e capacidade de planejamento do estado. Isso força os candidatos a apresentarem propostas mais estruturadas para desenvolvimento econômico”, afirma.
Segundo ele, existe hoje uma percepção mais disseminada de que crescimento econômico depende de coordenação entre educação técnica, crédito, logística e inovação. “O debate tende a sair do campo exclusivamente político e entrar em questões mais concretas de competitividade. Como melhorar a infraestrutura? Como atrair empresas? Como formar mão de obra? Como interiorizar investimentos? Essas perguntas devem aparecer com força na campanha”, avalia.
Nos bastidores políticos, possíveis candidaturas já começam a incorporar parte desse discurso. Integrantes do grupo político ligado ao governador Paulo Dantas vêm defendendo continuidade da política de atração de investimentos e fortalecimento do turismo como eixo econômico estratégico. Já setores da oposição passaram a insistir em críticas relacionadas à baixa industrialização, dependência fiscal e necessidade de ampliar investimentos privados no interior.
Nesse cenário, a eleição de 2026 pode funcionar menos como uma disputa apenas partidária e mais como um teste sobre qual modelo de desenvolvimento econômico deverá orientar Alagoas na próxima década. O consenso entre entidades empresariais parece cada vez mais claro. O estado precisa crescer, mas sobretudo encontrar formas de crescer com mais produtividade, inovação e capacidade de competir regionalmente.
