
Conforme o Maranhão se aproxima de mais eleição, indicadores de renda, pobreza e desenvolvimento voltam ao centro do debate sobre os caminhos que o estado deve percorrer para superar gargalos históricos. Mesmo com avanços recentes em alguns setores, as melhorias ainda não chegaram à percepção da população em questões cotidianas, o que deve ser fundamental para a escolha do eleitorado.
Em entrevista ao Investindo Por Aí, o economista maranhense Wilson França avalia que o estado esbarra em uma questão central: a estrutura econômica atual dificulta a transformação do crescimento visto nos dados em aumento efetivo de renda para a população. O especialista define esse modelo como uma “economia de enclave”, marcada pela baixa produtividade e pela concentração em atividades que, apesar de movimentarem grandes volumes de recursos, não necessariamente geram empregos com salários elevados ou alcançam parcela significativa da população.
“Isso quer dizer que a nossa estrutura produtiva apresenta uma baixa produtividade, concentrada em setores que têm baixos salários e baixo nível de escolaridade dos seus trabalhadores”, explica França. Ele cita o agronegócio como exemplo: embora o setor tenha forte estrutura organizacional e utilize tecnologias avançadas, mais de 80% dos trabalhadores ligados à produção de soja, segundo sua avaliação, têm renda próxima de um salário mínimo ou inferior.
Dentro dessa dinâmica, o que se observa é um crescimento econômico que não necessariamente está atrelado à melhora de condições de vida da população. O economista sinaliza que, ainda que o setor agrícola contribuía para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) do estado, o Maranhão se mantém atrás de outras unidades federativas quando se trata de potencial de desenvolvimento.
A expectativa é que esse descompasso também se reflita nas escolhas que a população fará em 4 de outubro. França analisa que o maranhense deve avaliar o contexto geral focando em experiências concretas do dia a dia e não em indicadores macroeconômicos. Mesmo com a estabilização da economia, a percepção de encarecimento do custo de vida se faz presente no cotidiano populacional.
“Esses dois fatores ajudam a manter, nesse caso, o consumo estagnado e levando as famílias maranhenses a não perceber que, sim, a economia está crescendo. Tanto do Brasil quanto do Maranhão”, afirma.
Cotidiano deve pesar para eleitores
Nesse cenário, temas mais cotidianos e de percepção mais objetiva, como educação e segurança pública, tendem a ganhar espaço na decisão do eleitor.
Segundo o economista, isso não significa que a economia não será pilar relevante para a tomada de decisão. O tema deve aparecer, principalmente, ligado à geração de emprego e renda e melhoria dos serviços públicos. A percepção sobre a própria vida acaba funcionando como uma espécie de régua para avaliar governos e candidatos.
“O que há, na prática, é uma expectativa por um ‘choque de gestão’”, afirma.
O desafio se torna ainda maior quando se considera a persistência da pobreza no estado. Para França, políticas de transferência de renda são importantes para enfrentar situações imediatas de vulnerabilidade, mas não conseguem, sozinhas, modificar as condições que reproduzem a pobreza.
Ele cita o programa Maranhão Livre da Fome, lançado pelo governo estadual, como uma iniciativa voltada à contenção da vulnerabilidade por meio da concessão de benefício financeiro para aquisição de alimentos. “O Programa funciona com a concessão de um benefício de R$ 200,00 por domicílio/chefe de família para compra de alimentos – e valor esse que pode aumentar dado as condições de vulnerabilidade social domiciliar. A dificuldade da implementação e operacionalização d o Programa, algo que é discutido principalmente pelos seus opositores, mostra a dificuldade que as gestões estaduais maranhenses tem tido com o combate à pobreza”.
Wilson aponta que, para superar a pobreza, é necessário articular e combinar diferentes áreas. “Questões como mobilidade, infraestrutura urbana e social, educação e saúde deveriam ser propostas de maneira integrada”, defende.
Para ele, existe ainda a necessidade de construir estratégias integradas: os benefícios sociais são uma ponte para que as famílias alcancem mais autonomia financeira. “Todo e qualquer programa de transferência de renda tem uma limitação de natureza clássica. Ele não consegue se sustentar sem sofrer uma pressão fiscal e de opinião pública. A transferência de renda é um paliativo, é um curativo”.
O caminho defendido pelo economista propõe que as situações mais urgentes, a exemplo da fome e da pobreza extrema, sejam estabilizadas como medida emergencial. Depois disso, ele sugere que o Estado concentre esforços em investimento, inovação e infraestrutura social. A combinação seria fundamental para atacar os gargalos que limitam a produtividade e a capacidade de geração de renda do Maranhão.
Crescimento precisa chegar à população
Entre os setores apontados como potenciais vetores de desenvolvimento estão a exploração de petróleo e gás natural, especialmente diante das perspectivas relacionadas à Margem Equatorial; a Zona de Processamento de Exportação de Bacabeira; e o agronegócio, impulsionado pela expansão da fronteira agrícola e pelo crescimento do Complexo Portuário do Itaqui.
O desafio, porém, está em transformar essas oportunidades em desenvolvimento mais disseminado. “A nossa malha modal é muito frágil se comparada com o volume da produção do agronegócio. Há poucas ferrovias e boa parte da produção ainda é transportada em caminhões que sofrem com a má conservação das nossas rodovias. Somado à dificuldade que os ganhos do “agro” têm junto com o restante da população, este setor fica em “segundo plano ”, quando falamos de percepção da população maranhense”.
Da demanda básica à transformação estrutural
Para o próximo governo, portanto, o desafio será conciliar duas agendas. A primeira é formada pelas demandas imediatas que devem influenciar diretamente o voto, como saúde, educação, segurança e infraestrutura. A segunda envolve a transformação da estrutura econômica do Maranhão para aumentar a produtividade e a renda no médio e longo prazo.
Após a resolução das urgências, o Maranhão deve visar uma transição gêmea, como sugere o economista, que se baseia em unir modernização digital e sustentabilidade. Para isso, seriam necessários investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação e pela criação de novos setores produtivos capazes de gerar maior valor agregado.
Para os candidatos, a estratégia deve ser pautada em retirar do eleitor a ideia de que os grandes investimentos não dialogam com a realidade cotidiana, mostrando que eles devem produzir efeitos mais amplos sobre emprego, renda e consumo dentro do estado.
