
Os ventos no Nordeste sopram diferente. A região é responsável por mais de 90% de toda a energia eólica gerada no Brasil. No norte da Bahia, o novo Parque Eólico, localizado no município de Sento Sé, fortalece a ideia do Nordeste como uma potência em energias renováveis. Contudo, para além da produção energética, o investimento em fontes limpas ocorre com a região tentando se posicionar em um novo mercado: o de data centers.
Realizada em parceria entre a Casa dos Ventos e a multinacional chinesa Goldwind, o Parque Eólico de Sento Sé, de 872 MW, será o maior volume de turbinas eólicas fornecido para um único projeto brasileiro. Localizado no norte da Bahia, o empreendimento contará com 109 turbinas do modelo GWH182-8.0 MW.
Quando estiver em operação, a expectativa é de que o Parque Eólico Sento Sé gere aproximadamente 4,5 milhões de MWh de eletricidade limpa por ano, o suficiente para evitar a emissão estimada de 920.000 toneladas de CO₂ anualmente.
Em nota divulgada à imprensa, Wang Hai, vice-presidente de Negócios do Grupo Goldwind, explicou que o Parque Eólico Sento Sé é um passo estratégico fundamental para a empresa chinesa.
“Sento Sé representa uma iniciativa estratégica fundamental para a Goldwind, e é uma grande honra estabelecer essa parceria com a Casa dos Ventos — algo que vem acompanhado de grande responsabilidade”, afirmou Wang Hai. “Manteremos os mais altos padrões para cumprir cada detalhe deste projeto.”
Segundo informações da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, a escolha técnica pelo município de Sento Sé foi da Casa dos Ventos e da Goldwind. Contudo, ambas possuem empreendimentos contemplados por incentivos fiscais concedidos pelo Estado da Bahia, instrumento que contribui para a atração e a expansão de investimentos em energias renováveis no território baiano.
Mas a escolha de Sento Sé não foi por acaso. O Atlas Eólico da Bahia identifica a região de Sobradinho, Sento Sé e Casa Nova como uma das sete principais áreas de potencial eólico do Estado, com condições favoráveis à implantação de empreendimentos de geração em larga escala. Sento Sé possui atualmente 58 empreendimentos eólicos em operação, o maior número entre os municípios baianos.
Para além da região de Sobradinho, a Bahia é líder nacional na geração de energia eólica e apresentou crescimento expressivo nos últimos anos, passando de cerca de 30% em 2023 para aproximadamente 37% da geração nacional em 2025.
O crescimento baiano se mantém em 2026, com a geração eólica acumulada nos primeiros seis meses ultrapassando 38% da produção brasileira. Em maio, o percentual superou 41%, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Com ventos fortes e unidirecionais em seu singular ‘Corredor de Ventos’, a Bahia mantém elevada performance mesmo diante das sazonalidades típicas do setor, alcançando máximas históricas de até 80%* de aproveitamento da capacidade de geração entre seus parques.
Mais energia para Data Centers
O investimento em cada vez mais energias renováveis não é por acaso, ele faz parte de uma estratégia massiva do próprio Nordeste: o avanço da região no mercado de data centers.
A Bahia está entre os estados mais interessados na instalação de data centers do Nordeste. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, o interesse do estado está relacionado ao grande potencial energético.
A Bahia já reúne estruturas em operação e uma carteira de projetos de data centers em diferentes estágios de desenvolvimento, com iniciativas identificadas em Gentio do Ouro, Igaporã e Casa Nova, além de novos investimentos em geração renovável. Os registros existentes demonstram que esse mercado já está em desenvolvimento no Estado e apresenta perspectivas concretas de expansão.
“O interesse do Governo da Bahia na atração de data centers está relacionado à oportunidade de associar a elevada disponibilidade de energia renovável do estado ao desenvolvimento de atividades intensivas em tecnologia, agregando valor à energia produzida na Bahia e ampliando sua inserção na economia digital. A instalação dessas cargas também pode contribuir para o melhor aproveitamento da geração eólica e solar em regiões afetadas por restrições de escoamento”, explicou a SDE em entrevista ao Investindo Por Aí.
O mercado brasileiro passa por forte expansão. Ao final de 2025, os pedidos de conexão de data centers à Rede Básica alcançaram 26,2 GW, crescimento de 32%, enquanto a capacidade instalada nacional é projetada para passar de 826 MW para 1.746 MW até o final de 2026. O novo ambiente regulatório, incluindo o REDATA, reforça esse movimento. No âmbito estadual, o PROTENER amplia as condições para que a Bahia se posicione como polo de atração do setor, apoiada em sua base de geração renovável.
A Bahia já reúne estruturas em operação e uma carteira de projetos de data centers em diferentes estágios de desenvolvimento, com iniciativas identificadas em Gentio do Ouro, Igaporã e Casa Nova, além de novos investimentos em geração renovável. Os registros existentes demonstram que esse mercado já está em desenvolvimento no Estado e apresenta perspectivas concretas de expansão.
Impactos para economia local
Para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a implantação de novos empreendimentos eólicos na Bahia representa um importante vetor de investimento, geração de emprego e renda e dinamização das economias locais, especialmente nos municípios do interior onde se concentra grande parte do potencial eólico do Estado.
“Os impactos começam ainda na fase de implantação dos projetos, com a mobilização de mão de obra e a contratação de fornecedores e serviços relacionados à construção civil, transporte, logística, montagem, alimentação, hospedagem, comércio e outras atividades de apoio”, afirmou a SDE.
De acordo com estudo divulgado pela Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), cada R$ 1,00 investido na construção de parques eólicos gera R$ 2,90 de impacto sobre o PIB, considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos. O estudo também aponta a geração de aproximadamente 10,7 postos de trabalho por MW instalado durante a fase de construção. Esse indicador abrange os empregos em toda a cadeia produtiva. Após a conclusão das obras, as atividades de operação e manutenção ainda contribuem para a manutenção de postos de trabalho permanentes e mais especializados ao longo da vida útil dos empreendimentos.
Ainda de acordo com a SDE, a presença dos parques também pode contribuir para o fortalecimento das economias municipais. Um estudo da GO Associados, realizado para a ABEEólica, identificou que, no período analisado, os municípios brasileiros que receberam parques eólicos apresentaram, em média, crescimento do PIB real 21,15% superior ao observado nos municípios do mesmo estado sem esses empreendimentos. Para o PIB real per capita, o efeito médio estimado foi de 19,69%. Os resultados indicam uma relação positiva entre a implantação da atividade.
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado explica que, para a Bahia, a expansão da geração eólica vai além do aumento da oferta de energia renovável. Mais fornecimento de energia renovável contribui para a implantação de novos projetos e para atrair investimentos privados.
“Nesse sentido, a energia eólica constitui também um vetor de desenvolvimento econômico, especialmente no interior do estado. Esse movimento pode estimular a diversificação das atividades econômicas locais, a valorização e especialização da mão de obra e a geração de novas oportunidades de trabalho e renda, contribuindo para um ciclo de desenvolvimento regional e melhoria das condições socioeconômicas dos territórios”, conclui a Secretaria.
A estratégia segue clara: mais energia renovável sugere mais investimentos em tecnologia e data centers, contribuindo para o estabelecimento da Bahia e do Nordeste como um polo tecnológico do país.