O Piauí entrou de vez no mapa da transição energética brasileira. Com capacidade instalada de cerca de 9 GW, o estado produz até nove vezes mais energia limpa do que consome. O estado se consolidou como um dos principais polos de energia renovável do país. Esse excedente colocou a energia no centro do debate eleitoral. O tema passou a ser usado tanto como vitrine de gestão quanto como alvo de críticas sobre seus impactos reais na economia.
Energia como marca de governo
O atual governador, Rafael Fonteles (PT), lidera as pesquisas de intenção de voto e tem na agenda energética um dos principais ativos de sua gestão. A aposta está organizada em três eixos: energia limpa, digitalização e atração de investimentos.

No centro do discurso está a ideia de que o excedente energético do estado não deve ser apenas exportado para o Sistema Interligado Nacional, mas aproveitado localmente como insumo para uma nova geração de indústrias. É o que o governo chama de indústria verde: projetos que usam energia barata e limpa como vantagem competitiva para se instalar no Piauí.
Na prática, isso significa atrair investimentos em hidrogênio verde, data centers e aço de baixo carbono, setores que demandam grandes volumes de energia e que, ao mesmo tempo, geram empregos qualificados e inserem o estado em cadeias produtivas globais. O hidrogênio verde, em especial, tem concentrado atenções: o Piauí figura entre os estados com maior potencial de produção no Brasil e o governo vem articulando acordos com grupos nacionais e internacionais interessados na commodity.
Esse eixo energético se articula com outros pilares da gestão. A digitalização dos serviços públicos e a atuação da Investe Piauí na captação de investimentos compõem uma narrativa mais ampla: a de um estado que quer ser visto não apenas como fornecedor de matéria-prima ou energia, mas como ambiente competitivo para negócios intensivos em tecnologia.
Oposição questiona conversão em renda
A oposição, liderada por nomes como Joel Rodrigues (PP), tende a deslocar o debate para outro ponto. O foco não está na capacidade de geração, mas na distribuição dos resultados. O argumento central é que o estado produz muito, mas ainda entrega pouco em termos de impacto na vida da população.
O Piauí registra o maior nível de desigualdade de renda do país, com forte concentração de ganhos, enquanto parte significativa da população ainda enfrenta dificuldade de acesso a serviços básicos. Críticas recorrentes da oposição apontam que, apesar dos grandes projetos anunciados, o interior segue com problemas estruturais, como escassez de água, infraestrutura precária e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.
Em 2025 mais de 100 cidades declararam sofrer com secas extremas, enquanto outras enfrentaram perdas e deslocamentos causados pelas chuvas intensas. Nesse contexto, o governo é atacado por valorizar uma pauta distante da realidade da população e por ainda operar como um exportador de energia, sem conseguir internalizar os benefícios econômicos.
Disputa sobre modelo de desenvolvimento
A divergência de discurso entre os grupos políticos revela uma disputa mais profunda sobre o modelo de desenvolvimento do estado. De um lado, a aposta em grandes projetos, atração de capital e inserção em cadeias globais de energia limpa. De outro, a cobrança por políticas que gerem efeitos mais imediatos, com maior capilaridade social e territorial.
A discussão envolve decisões estratégicas. O estado deve priorizar grandes indústrias eletrointensivas ou fortalecer cadeias produtivas locais? Deve apostar em projetos de longo prazo ou acelerar a geração de emprego no curto prazo? Deve seguir exportando energia ou induzir maior consumo industrial interno? Essas escolhas ganham ainda mais relevância em um cenário em que a economia piauiense historicamente depende do setor público

Energia como eixo da eleição
Com o avanço da agenda eleitoral, a tendência é que a energia renovável se consolide como um dos principais temas da disputa pelo governo. Mais do que números de capacidade instalada, o debate deve girar em torno da capacidade de transformar esse ativo em prosperidade.
Rafael Fonteles deve explorar o protagonismo energético como símbolo de modernização e planejamento. Joel Rodrigues e outros candidatos de oposição tendem a tensionar a narrativa, questionando a efetividade dessa estratégia na geração de emprego e renda.
Candidaturas de menor expressão também devem buscar espaço nesse debate, seja defendendo modelos alternativos de desenvolvimento, seja reforçando críticas à concentração de investimentos e aos efeitos limitados no interior.
O Piauí já se firmou como potência energética. A eleição deve definir quem conseguirá convencer o eleitorado de que tem o melhor caminho para transformar energia em desenvolvimento real.
