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12 de agosto de 2026 10:15

Nordeste triplica número de agtechs em seis anos e cria ecossistema próprio

Nordeste triplica número de agtechs em seis anos e cria ecossistema próprio

Levantamento da Embrapa mostra crescimento contínuo das agtechs na região, puxado por Bahia, Pernambuco e Ceará. Fazer a tecnologia chegar ao pequeno produtor é o próximo passo
Foto: Pexels

Quando se fala em tecnologia no campo, o imaginário costuma correr para as lavouras de grãos do Sul e do Centro-Oeste. Mas há um movimento em curso que aponta para outra direção: o Nordeste. Em seis anos, o número de startups de tecnologia agropecuária, as chamadas agtechs, passou de 39 para 134 na região. E o avanço veio sem sobressaltos, subindo ano após ano: 39 em 2019, 72 em 2020 e 2021, depois 89, 103, 116 e, agora, 134, segundo o Radar Agtech Brasil 2025, levantamento conduzido pela Embrapa em parceria com a SP Ventures e a Homo Ludens.

O ritmo constante chama atenção porque contraria a ideia de que inovação no agro seria um privilégio das grandes fronteiras produtivas. A Bahia lidera, com 31 empresas, seguida por Pernambuco, com 28, e Ceará, com 26. Juntos, os três estados concentram cerca de 63% das agtechs nordestinas e puxam um ecossistema que, até pouco tempo, mal aparecia no mapa das startups do setor.

A pergunta que interessa, porém, não é apenas quantas são. É o que elas fazem, e para quem. O Nordeste está criando tecnologia pensada a partir de suas próprias necessidades ou apenas trazendo para casa soluções desenhadas para outras realidades agrícolas?

Tecnologia para dentro da porteira

Os dados do Radar oferecem uma pista. O levantamento divide as agtechs por etapa da produção: as que atuam antes do plantio, como as que fornecem sementes e insumos; as que trabalham dentro da propriedade, no dia a dia da lavoura ou da criação; e as que entram depois da colheita, do processamento à venda. No Nordeste, o peso está no meio e no fim dessa cadeia. São 62 empresas dentro da porteira, voltadas à rotina de quem produz, e outras 50 no elo seguinte, já com a safra colhida. Apenas 22 se dedicam à etapa que antecede o plantio.

O que mais cresce, porém, está na ponta final. A categoria mais numerosa da região é a das foodtechs, startups que desenvolvem alimentos e ingredientes a partir de matérias-primas locais, com 21 empresas. São negócios que transformam frutos e plantas nativas do Nordeste, muitas vezes restritos ao consumo regional, em produtos de maior valor, como polpas, farinhas, óleos e ingredientes para a indústria de bebidas e cosméticos. Logo atrás aparecem os sistemas de gestão da propriedade rural, ferramentas que ajudam a organizar plantio, custos e rebanho, com 12 empresas, e as plataformas que integram soluções e dados, que reúnem informações de diferentes fontes num só lugar, com 11.

Para Aurélio Favarin, analista da Supervisão de Ecossistemas de Inovação da Embrapa e coordenador do Radar Agtech, esse desenho não é acaso, mas o aproveitamento de um ativo que a região tem de sobra. “É bastante clara a oportunidade de uso da biodiversidade do Nordeste, e ela vem sendo aproveitada, com um número expressivo de foodtechs”, afirma.

O caderninho vira planilha

É nesse ponto que entra a questão do acesso. A agricultura familiar é a espinha dorsal do campo nordestino: segundo o Censo Agropecuário de 2017, o mais recente do IBGE, a região concentra cerca de 1,8 milhão de agricultores familiares, quase metade dos 3,9 milhões do País. É um público numeroso e com forte presença na produção, mas que ainda dispõe de pouca infraestrutura tecnológica. O mesmo levantamento indica que menos de 2% desses produtores possuem algum tipo de máquina agrícola, como trator ou colheitadeira, e que 93% não recebem assistência técnica regular. Esse é, ao mesmo tempo, o desafio e a oportunidade das agtechs na região: há um imenso contingente de gente no campo ainda pouco atendida pela tecnologia.

A resposta vai nessa direção. Favarin desloca a questão do tamanho do produtor para a utilidade da solução. “O produtor, seja ele pequeno, médio ou grande, somente utilizará tecnologias que resolvam seus problemas e desafios. Isso acontece no Nordeste e em qualquer outra região brasileira”, pondera. Para ele, o desafio das startups é menos criar algo deslumbrante e mais entender a realidade de quem vai usar. “Mais importante do que qualquer ideia que possa parecer disruptiva e transformadora, é fundamental ‘calçar a butina’ e conhecer as dificuldades dos produtores. Percebemos que existe espaço para todos”, afirma.

Um caso ilustra bem essa lógica. Boa parte das agtechs que oferecem sistemas de gestão da propriedade, ferramentas para acompanhar a lavoura, as contas e o rebanho, faz algo relativamente simples: troca o velho caderno de anotações por uma planilha fácil de usar. “Muitas das vezes é uma forma de facilitar a vida do produtor”, resume. A inovação, aqui, está menos na sofisticação e mais na adequação, numa solução que cabe na rotina de quem trabalha no campo. Mas nem toda transformação do setor acontece à luz do dia.

A inteligência artificial nos bastidores

Se a tecnologia que mais chega ao campo é a simples, a mais avançada também já marca presença, ainda que longe dos holofotes. Segundo o Radar, 83% das agtechs brasileiras usam inteligência artificial e, para 35%, a IA está no núcleo do negócio.

“É bem claro que a ampla maioria das startups utiliza IA no processo de desenvolvimento da tecnologia, e não na tecnologia em si, mas é algo que deve mudar ao longo do tempo”, explica. Ou seja, por ora a inteligência artificial está mais na criação da solução do que dentro do produto que chega ao campo.

Sobre o recorte regional, o coordenador do Radar prefere a cautela à afirmação. A pergunta sobre uso de IA entrou pela primeira vez no questionário da pesquisa, e a amostra ainda precisa ganhar representatividade nos estados nordestinos. “Ainda não conseguimos observar padrões significativamente diferentes com relação ao uso de IA na comparação entre regiões”, diz. A leitura sobre o que distingue o Nordeste nesse ponto ficará mais clara nas próximas edições.

Há ainda uma nuance na forma como o Radar conta essas empresas. O levantamento considera o domicílio fiscal, isto é, onde a startup tem o CNPJ registrado. O analista observa que esse endereço pode mudar conforme o estágio da empresa, já que algumas migram em busca de melhores condições e incentivos. É um lembrete de que o mapa das agtechs não é estático, e que reter no território as empresas que ali nascem também faz parte do desafio de consolidar o ecossistema.

O retrato que emerge dos números é o de uma região que deixou de ser espectadora. O Nordeste ainda constrói sua vocação em tecnologia agropecuária, mas o faz a partir do que lhe é próprio: a realidade de quem produz e a riqueza de sua biodiversidade. O crescimento contínuo das agtechs mostra que as necessidades da região vêm sendo lidas, cada vez mais, como oportunidades. O que definirá o próximo capítulo é a capacidade de transformar esse impulso em soluções que cheguem a todos os tamanhos de produtor, e de manter em casa as empresas que a própria terra fez nascer.

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