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14 de agosto de 2026 09:01

Algodão nordestino bate recorde puxado pelo agronegócio, mas produção familiar ainda busca escala

Algodão nordestino bate recorde puxado pelo agronegócio, mas produção familiar ainda busca escala

Safra atual deve chegar a 1 milhão de toneladas nos cerrados da Bahia e do Piauí. No semiárido, agricultores familiares investem em certificação e variedades coloridas para conquistar nichos de mercado
Foto: Unplash

O cultivo de algodão, também conhecido como cotonicultura, vive um momento de contrastes no Nordeste. A safra atual, de 2025/26, deve fechar com 1 milhão de toneladas de pluma, a fibra têxtil da commodity, limpa e separada de caroços e impurezas após o beneficiamento industrial. É o melhor resultado da série histórica recente, segundo o Caderno Setorial do ETENE, o Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, ligado ao Banco do Nordeste. O crescimento, porém, tem endereço certo. Os cerrados da Bahia, segundo maior produtor nacional de algodão, e do Piauí, que passou à terceira posição no ranking do país, lideram o avanço da agricultura empresarial que integra o Matopiba, impulsionado pela lucratividade da cultura, em especial para exportação.

Enquanto isso, uma outra face do algodão nordestino busca se firmar por outro caminho. No semiárido, onde a cultura foi praticamente destruída pela praga do bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis) nos anos 1980, agricultores familiares do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco vêm retomando o cultivo. A aposta aqui é outra: certificação, rastreabilidade e manejo visando menor impacto ambiental. Parte dessa produção já resulta em variedades coloridas naturalmente, que dispensam corantes sintéticos e agregam valor à fibra, voltadas a nichos de mercado que valorizam a origem do produto e a responsabilidade social da cadeia.

Da praga do bicudo aos nichos de exportação

Segundo Jackson Dantas Coelho, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal do Ceará e coordenador de Estudos e Pesquisas do ETENE, até 1983 a cotonicultura no Nordeste era praticada majoritariamente em base familiar, muitas vezes associada à criação de gado, que se alimentava do caroço do algodão esmagado. Foi então que a praga do bicudo se espalhou pela região e quase dizimou a produção nas safras seguintes. Mesmo assim, segundo o economista, o algodão permaneceu vivo na memória do agricultor familiar nordestino, pela riqueza que a cultura trouxe em outras épocas.

Essa memória ajuda a explicar a retomada que se observa desde pelo menos 2011, quando associações de produtores cearenses, potiguares e paraibanas já vendiam algodão certificado e orgânico, com variedades coloridas no Rio Grande do Norte e na Paraíba, para empresas do Sul e do Sudeste do país e para compradores europeus, justamente os nichos que hoje sustentam um preço melhor para a fibra. Os contratos pagavam mais em razão da qualidade e da ausência de defensivos químicos.

Mas esse sucesso ainda esbarra numa questão de escala. Mais de 90% do algodão brasileiro vem da agricultura empresarial, e o cultivo familiar, embora tenha papel social relevante, segundo Coelho, ainda não aparece com peso nos levantamentos da Conab e do IBGE. Isso acontece porque o algodão custa mais para produzir do que culturas de subsistência comuns, como milho e feijão, o que limita o quanto essa produção consegue crescer no mesmo ritmo da lavoura empresarial ao longo dos últimos treze anos.

Do lado institucional, há um esforço coordenado para mudar esse quadro. Universidades, a Embrapa Algodão, sediada em Campina Grande (PB), e organizações não governamentais atuam com pesquisas e também assistência técnica. Governos estaduais lançaram programas voltados à retomada da cotonicultura familiar, com sementes adaptadas ao semiárido e orientação no campo.

Esses incentivos fazem parte de um conjunto maior de fatores que, segundo o economista, tornam o algodão nordestino competitivo: solos favoráveis, qualidade da fibra, proximidade geográfica de mercados consumidores e um ambiente institucional que reúne o Banco do Nordeste, a Embrapa, as empresas estaduais de assistência técnica rural, o Senar, o Sebrae e a indústria têxtil, todos movidos pelo interesse comum no fortalecimento da cadeia. A infraestrutura, no entanto, ainda pesa contra a região: as condições das estradas federais, estaduais e vicinais dificultam o escoamento da produção, e o déficit de armazenamento também é relevante. Houve avanço na malha portuária e ferroviária nas últimas duas décadas, mas o pesquisador avalia que a integração entre os modais de transporte segue aquém do desejável, o que tornaria a fibra nordestina mais barata e competitiva se fosse resolvida.

O clima também impõe desafios. A região do Matopiba nordestino é particularmente sensível a veranicos recorrentes, que podem prejudicar tanto o plantio quanto a colheita. Como fatores de resiliência, o economista cita o maior planejamento e a adoção de boas práticas por parte da agricultura empresarial e, no semiárido, o pequeno produtor conta com programas estaduais que já incorporam essa preocupação climática, fornecendo sementes adaptadas e suporte técnico em parceria com os municípios, além do apoio da Embrapa Algodão e do Instituto Agronômico de Pernambuco.

Crédito farto, mas infraestrutura em aberto

O crédito público é peça central desse quebra-cabeça. O Banco do Nordeste, por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste, o FNE, tem operado com número crescente de contratações para a cadeia do algodão, embora o volume financeiro tenha oscilado ao longo do período. Entre 2023 e 2025, foram contratadas 697 operações, somando R$ 1,53 bilhão: as contratações subiram de 148 para 298 no período, enquanto o valor financiado caiu 19% em 2024 antes de saltar 60% em 2025, quando atingiu R$ 637,5 milhões. Esses números cobrem financiamentos para cultivo de algodão, cultivo de algodão arbóreo, beneficiamento e comércio atacadista.

Vale uma distinção importante. Existe também o FNE Proinfra, linha do banco voltada exclusivamente a projetos de infraestrutura, que poderia financiar armazéns, unidades de beneficiamento e vias de escoamento, exatamente os pontos que Coelho aponta como fatores que ainda pesam contra a cadeia. Mas, ao ser procurado especificamente sobre investimentos do Proinfra na cadeia do algodão nordestina, o Banco do Nordeste informou não ter uma fonte disponível para tratar do tema, e esclareceu que os R$ 1,53 bilhão contabilizados no período são do FNE em sentido amplo. Ou seja, não há, até o momento, dados públicos que mostrem se e quanto desse crédito voltado à infraestrutura complementar tem efetivamente chegado à cadeia do algodão.

Essa lacuna ajuda a explicar por que a promessa de agregação de valor ainda avança devagar fora do campo. Segundo Coelho, a certificação e a diferenciação já se traduzem em ganho de preço e de mercado para o produtor, uma tendência mundial e, em muitos casos, condição para a efetivação de contratos comerciais. Pelo lado empresarial, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão e a Agência Brasileira de Exportações e Investimentos atuam para levar o algodão brasileiro ao reconhecimento internacional, com missões a compradores no exterior e recepção de industriais estrangeiros no país. No lado da produção familiar, o processo segue em construção, mas a crescente preocupação do consumidor com origem e sustentabilidade aponta na mesma direção.

O novo ciclo do algodão no Nordeste é, portanto, uma história de dois ritmos. A produção empresarial do Matopiba se consolida e renova recordes recentes. Já a inclusão da agricultura familiar e a agregação de valor à fibra nordestina avançam por nichos específicos, e dependem, daqui para frente, de crédito e infraestrutura que ainda precisam provar, com dados, que estão de fato a serviço dessa cadeia.

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