O empreendedorismo brasileiro está passando por uma nova fase. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a formalização de empreendedores chegou a 35% em 2025, o maior índice desde o início da série. Apesar do recorde, o Nordeste ainda representa uma pequena fatia do cenário nacional, com uma taxa de formalização de 20,1% entre empregadores e trabalhadores por conta própria em 2025, à frente apenas da região Norte, com 15,6%.

Mas o que explica a maior busca pela formalização dos empreendedores? Segundo o Sebrae, a formalização costuma ser motivada por uma combinação de fatores econômicos e operacionais, como o acesso a crédito e serviços financeiros, uma vez que instituições financeiras geralmente exigem CNPJ e histórico formal da empresa para ofertar linhas de financiamento; a emissão de nota fiscal, condição necessária para atender clientes empresariais e órgãos públicos; a possibilidade de vender para outras empresas e participar de licitações, ampliando mercados e oportunidades de negócios; e o acesso à proteção previdenciária e a benefícios sociais, especialmente no caso dos MEIs, por exemplo.
Para o empreendedor Rogério Félix Dourado, dono da Cisso’s Acessórios, a necessidade de formalização do negócio surgiu justamente da tentativa de atrair grandes clientes.
“O que me levou a transformar o meu negócio em um CNPJ foi o fato de que grandes empresas não vendem para quem não tem CNPJ, como a Tim, a JBL e a Multilaser, por exemplo”, afirma Rogério.
O empreendedor começou com um pequeno negócio em Camocim, no litoral oeste do Ceará, mas hoje já expandiu para duas lojas. O empreendimento se destaca na região com a venda de diversos produtos, entre eles eletrônicos, acessórios para celular e computador. O empresário tem forte presença nas redes sociais.
Já para Mirna Gomes, empresária de 37 anos, a formalização do próprio negócio sempre foi o objetivo principal. Filha de empregada doméstica, criada apenas pela mãe e ex-motorista de aplicativo, ela fundou A Lasanharia em 2019, em Salvador (BA), apostando em um restaurante especializado exclusivamente em lasanhas artesanais. De acordo com Mirna, mesmo antes de conseguir uma estrutura adequada, ela sempre pensou no próprio negócio de maneira profissional.
“Em 2027, o meu negócio completa 8 anos. Embora eu não tenha começado com nenhum recurso, sempre pensei no negócio de forma profissional. Então, desde o primeiro momento, quando eu criei o cardápio, eu fui lá e abri o MEI. Eu percebi que eu precisava da formalização antes mesmo de começar, porque eu pensava assim: ‘Se é para fazer, (vou) fazer bem-feito’.”
Ao analisar o perfil dos empreendedores nordestinos, o economista paraibano Cássio Besarria explica que o quadro geral dos empresários da região ainda mostra os empreendedores nordestinos em situação de vulnerabilidade quando comparados aos de outras regiões do país.
“Os dados mostram um indivíduo menos escolarizado, que tem suas atividades concentradas em setores de baixa produtividade, com menor acesso a instrumentos institucionais que facilitam a formalização. Esses dados também indicam que os pequenos negócios da região ainda se concentram em um estágio de desenvolvimento estruturalmente inferior ao restante do país, especialmente quando comparados às regiões Sul e Sudeste”, explica o professor.
Na contramão do perfil predominante, a empreendedora Mirna Gomes destaca que a obtenção de crédito por meio de instituições como o Sebrae foi fundamental para manter vivo o sonho de empreender.
“Eu tive crédito através do Sebrae, com a linha de financiamento do FAMPE, que foi o que contribuiu ali, né, para dar gás. Porque uma vontade sozinha, ela é só um desejo. Às vezes, o desejo, a vontade, ele dá e passa. Então, nessa trajetória solitária que é a do empreendedor, a gente precisa de órgãos e instituições que acreditem. Eu tive o privilégio de muitas instituições acreditarem no meu negócio, acreditarem que eu era capaz”, conta Mirna.
Mirna Gomes faz parte de uma estatística curiosa sobre o perfil dos empreendedores nordestinos. Dados do DataSebrae apontam uma maior participação de mulheres na formalização de negócios (23%), enquanto os homens representam 19% dos empreendedores com CNPJ formalizado.
Segundo Besarria, a diferença entre homens e mulheres na formalização do empreendedorismo no Nordeste reflete uma combinação de fatores que vão desde questões estruturais até fatores setoriais e comportamentais.
“Esse fenômeno é muito atrelado ao tipo de atividade econômica exercida por cada um desses grupos e ao modo como cada um acessa os instrumentos formais. Por exemplo, os ramos de atividade em que as mulheres nordestinas estão mais concentradas são os setores com as maiores taxas de formalização, que seriam o comércio e os serviços. Já os homens estão presentes em setores menos formalizados, como a construção civil e a agricultura. Então, a própria escolha do ramo de atividade vai ter esse efeito quanto à formalização ou não.”
O economista também afirma que a escolaridade é outro fator que pode influenciar a busca pela formalização. Segundo ele, quem busca a formalização precisa compreender as vantagens de ter um CNPJ, bem como os benefícios da adesão ao MEI e as oportunidades que se abrem, como o maior acesso a serviços bancários ou até mesmo o uso de plataformas digitais.

Gargalos e dificuldades
Apesar de ser uma etapa importante, a formalização do negócio não garante a sustentabilidade da empresa. É comum que, mesmo após esse período, os empreendedores enfrentem dificuldades para continuar crescendo. Renata Malheiros, gestora nacional de Empreendedorismo Feminino do Sebrae, explica que a formalização é uma porta de entrada para o desenvolvimento do negócio.
“A formalização é um passo importante, mas, isoladamente, pode não garantir o crescimento da empresa. Obter um CNPJ representa a entrada no mercado formal, porém muitos pequenos negócios continuam enfrentando desafios relevantes após essa etapa. Dessa forma, a formalização deve ser vista como a porta de entrada para o desenvolvimento empresarial. Para que os pequenos negócios avancem para estágios mais robustos de crescimento, é fundamental combinar a formalização com acesso a crédito, capacitação, acesso a mercados, inovação e apoio à gestão”, explica a gestora.
Na percepção de Rogério Félix, os principais gargalos atualmente são a concorrência com marketplaces de outras regiões do país e a alta carga tributária enfrentada pelos empreendedores nordestinos.

“Uma das principais dificuldades hoje de qualquer empreendedor é a carga tributária muito alta. Além de também a internet, porque existem marketplaces que têm a logística deles toda no Rio Grande do Sul, por exemplo, onde eles têm uma facilidade e um custo mais baixo. E aqui no Nordeste, a nossa tributação é muito alta, principalmente no estado do Ceará”, conta o empreendedor.
Já para Mirna, a maior dificuldade atual com o empreendimento está na gestão do negócio. Apesar de encarar a formalização como um passo positivo, ela afirma que a burocracia do negócio foi um ponto que precisou melhorar ao longo dos anos.
“A formalização não é um vilão, mas, se você não busca conhecimento, é o que eu vejo que acontece muito com muitas pessoas no mercado, você pode acabar criando, o CNPJ, os impostos, todas as obrigações como uma bengala e usar isso como: ‘Ah, é difícil por conta disso’. E não é bem assim”, afirma a empresária.
Segundo ela, o começo da trajetória foi marcado por muitos erros e aprendizados.
“Eu errei muito para chegar onde eu cheguei e continuo errando e aprendendo. Inclusive, muitas coisas que que hoje eu sei, talvez eu não faria. Eu cresci muito rápido, tive uma demanda muito grande. E para acompanhar essa demanda, eu precisei fazer muitos investimentos, porque eu não tinha recurso nenhum. Então, hoje, a minha maior dificuldade é gerir todos esses, esses números que foram necessários para investir e equalizar na nossa rotina, no nosso faturamento, com o nosso endividamento, com o nosso com o que a gente pensa para o futuro, é buscar esse equilíbrio”, conclui a empresária.
Mirna e Rogério são duas histórias que mostram como o empreendedor nordestino corresponde a múltiplos perfis e trajetórias diferentes. Além de fruto da própria persistência, eles também são prova que para empreender, além da vontade, é preciso uma rede de apoio.