
Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, atrai empresas interessadas em explorar lítio e ampliar o processamento do mineral no estado. A norte-americana Rivaz Corporation, que atua da mineração à fabricação de ônibus elétricos, avalia instalar uma refinaria no município e projeta produzir até 200 mil toneladas do mineral. A área de exploração ainda não foi definida, e o volume anunciado precisa ser esclarecido quanto ao produto e ao período de produção.
Na mesma região, o Grupo Serdan Mineração prevê investir cerca de US$1 bilhão (pouco mais de R$5 bilhões) em um projeto de exploração de lítio entre Quixeramobim e Banabuiú. A empresa prevê utilizar a Ferrovia Transnordestina para transportar o lítio extraído e pretende avançar para a fabricação de carbonato de lítio e, futuramente, baterias.
Embora tenham estratégias distintas, os dois projetos colocam em pauta a possibilidade de desenvolver uma cadeia industrial do lítio no Sertão Central. A concretização desse cenário depende da confirmação das reservas, da viabilidade econômica dos empreendimentos e dos investimentos em infraestrutura para extração, beneficiamento e refino.
Potencial geológico desperta interesse empresarial
Com sede em Pasadena, na Califórnia, a Rivaz avalia áreas em três comunidades de distritos de Quixeramobim: Condado, Malacaxeta e Coqué. Também há interesse em localidades de municípios vizinhos, como Senador Pompeu e Banabuiú. A área de exploração, no entanto, ainda não está definida.
O lítio é utilizado principalmente na fabricação de baterias recarregáveis para veículos elétricos, celulares e notebooks, além de sistemas de armazenamento de energia solar e eólica. O mineral também tem aplicações na produção de cerâmicas, vidros e lubrificantes. A expansão da eletrificação e da demanda por armazenamento de energia ampliou sua importância para diferentes setores industriais.
Um estudo publicado em setembro pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificou a região de Solonópole–Quixeramobim como uma área favorável a novas descobertas de lítio, césio e tântalo. O levantamento reforça o interesse geológico pela região, mas não equivale à comprovação de reservas comercialmente exploráveis.
Para o secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, a combinação entre potencial mineral, melhorias logísticas previstas e possibilidade de desenvolver atividades industriais ajuda a explicar o interesse empresarial.
A estratégia do governo estadual é ampliar a participação do Ceará em diferentes etapas da cadeia produtiva, começando pela extração e pelo beneficiamento mineral, avançando para a produção de compostos químicos de maior valor agregado e, em uma etapa posterior, para a fabricação de componentes e baterias.
A viabilidade dessa expansão, porém, depende da confirmação dos recursos minerais disponíveis e das condições necessárias para sustentar a operação industrial. “Sem essa base, não é possível dimensionar com segurança uma operação de mineração, uma unidade de beneficiamento ou uma planta de conversão química”, afirma Feijó.

Infraestrutura e incentivos atraem investimentos
Em Quixeramobim, a Prefeitura aposta na localização geográfica e na estrutura econômica do município para atrair novos empreendimentos. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Afrânio Feitosa, a cidade tem cerca de 90 mil habitantes e entre 12 mil e 13 mil empregos formais. A atividade industrial inclui os setores calçadista, de embalagens e de malharias.
Feitosa atribui parte da estratégia de atração de empresas à Lei Complementar nº 122/2025. Segundo ele, a legislação permite negociar benefícios econômicos e fiscais com empreendimentos interessados em se instalar no município. A prefeitura também mantém um acordo de cooperação técnica com o Governo do Ceará para facilitar as negociações relacionadas a incentivos fiscais.
Outro fator considerado estratégico é o acesso a rodovias federais e estaduais. A perspectiva de chegada da Ferrovia Transnordestina, que deverá conectar áreas do interior nordestino ao Porto do Pecém, também é vista pela administração municipal como uma oportunidade para ampliar a atividade industrial e logística.
“A ferrovia Transnordestina é, de fato, um divisor de águas. Com a chegada da ferrovia, quem souber aproveitar essa oportunidade e esse modal ferroviário sairá na frente”, afirma Feitosa.

A prefeitura trabalha na elaboração de um plano estratégico para viabilizar um porto seco e uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE). De acordo com o secretário, a área em que a Rivaz solicitou autorização para realizar pesquisas fica a aproximadamente 15 quilômetros do local previsto para a ZPE.
A expectativa é que esses equipamentos atraiam empresas de diferentes setores e permitam ampliar as etapas produtivas realizadas no próprio município, reduzindo a necessidade de transportar matérias-primas para outras regiões para processamento.
Feitosa cita como exemplo a Tempest Stones, empresa que extrai rochas ornamentais em Quixeramobim e transporta os blocos para Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, onde são beneficiados. A prefeitura pretende criar condições para que etapas desse tipo também possam ser realizadas localmente.
No caso do lítio, a instalação de uma refinaria representaria um avanço em relação à simples extração mineral, desde que o empreendimento seja viabilizado e consiga operar em condições competitivas.
Rivaz e Serdan: projetos com estratégias distintas
Apesar do interesse das duas empresas pelo lítio no Sertão Central, Feitosa não vê complementaridade direta entre os projetos da Rivaz e do Grupo Serdan, que têm estruturas e objetivos distintos.
O governo estadual, por sua vez, pretende atrair diferentes etapas da cadeia produtiva para o Ceará. “O que queremos é agregar valor aqui”, afirma Feijó. A estratégia prevê avançar da extração e do beneficiamento mineral ao refino e, futuramente, à produção de componentes e baterias. No curto prazo, o beneficiamento pode ser uma oportunidade, desde que as pesquisas confirmem depósitos com escala e viabilidade econômica.
A implantação dessas atividades depende de matéria-prima em volume regular, água, energia competitiva, insumos químicos, tecnologia e mercado consumidor. O governo estadual pretende apresentar ao governador, até o fim de 2026, um planejamento estratégico para transformar o potencial mineral cearense em projetos industriais.
Sobre as eleições federais, Feijó avalia que mudanças de governo podem afetar financiamentos, infraestrutura, regulamentação e relações comerciais, mas não permitem concluir antecipadamente que projetos específicos serão inviabilizados.
O secretário também cita a Lei nº 15.506/2026, que estabeleceu um marco legal para a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), com diretrizes para estimular a industrialização, a inovação tecnológica e a geração de empregos qualificados.
Formação profissional e expansão urbana
A Prefeitura de Quixeramobim afirma estar se preparando para receber novos empreendimentos. Segundo Feitosa, cerca de 3.800 pessoas são capacitadas em áreas como construção civil, administração, comércio exterior e logística. Memorandos de intenção com empresas preveem que 80% da mão de obra seja local, meta que dependerá da implantação dos projetos e da compatibilidade entre as qualificações e as vagas.
O município também prepara um plano mestre de uso e ocupação do solo, desenvolvido pelo urbanista Fausto Nilo e previsto para o início de 2027, além de medidas para atender à demanda por água e energia e conduzir o licenciamento ambiental.
Feitosa projeta dobrar o PIB municipal e os empregos formais em dez anos. Hoje, a economia movimenta cerca de R$ 2 bilhões anuais e tem entre 12 mil e 13 mil empregos com carteira assinada. A projeção depende da concretização dos investimentos e da expansão da atividade econômica.

Estudo aponta potencial para novas descobertas
O levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), já mencionado, também ajuda a dimensionar os desafios para transformar o potencial mineral de Solonópole–Quixeramobim em exploração comercial, mas seus resultados são prospectivos e não equivalem à certificação de reservas economicamente viáveis.
Na publicação Panorama do Potencial de Minerais Críticos e Estratégicos do Brasil — Edição 2026, o SGB informa que o país produziu 26 mil toneladas de óxido de lítio contido. O órgão também registra ocorrências de ambligonita em Solonópole e lepidolita em Quixeramobim, além de reservas reconhecidas em Minas Gerais e no Ceará.
As 200 mil toneladas mencionadas pela Rivaz poderiam representar um acréscimo significativo à produção nacional, caso o volume fosse efetivamente alcançado e se referisse a um produto comparável, segundo o SGB. O órgão ressalta, porém, que a comparação depende de esclarecer o tipo de material — minério bruto, concentrado ou composto químico processado — e o período de produção previsto. Sem essas informações, não é possível comparar diretamente a projeção da empresa com os dados nacionais.
Refino concentra o desafio industrial
Para além do potencial geológico, o SGB aponta desafios para transformar as ocorrências minerais do Sertão Central em uma cadeia industrial, do beneficiamento ao refino. Isso exige aprofundar pesquisas, realizar sondagens e certificar recursos e reservas, além de garantir água, energia competitiva e instalações industriais.
O órgão também destaca a necessidade de reagentes químicos, tratamento adequado dos resíduos, profissionais especializados e parcerias entre universidades cearenses, empresas e instituições de pesquisa para desenvolver tecnologias de processamento de minerais como espodumênio, ambligonita e lepidolita.
“A transformação química do lítio pode agregar valor ao produto mineral, mas depende de investimentos em tecnologia, infraestrutura e insumos, além de acesso a mercados consumidores”, aponta o SGB.
O Brasil já conta com uma refinaria de lítio em operação, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), em Minas Gerais. No Sertão Central, os projetos da Rivaz e do Grupo Serdan dependem da confirmação das reservas e da viabilidade econômica. A consolidação de uma cadeia industrial em Quixeramobim exigirá transformar o potencial mineral em extração e processamento viáveis no próprio Ceará.