
O Nordeste vem ampliando, cada vez mais, seu protagonismo na transição energética brasileira. Responsável por mais de 70% da potência cadastrada para os primeiros leilões nacionais de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), a liderança da região vai além da geração eólica e solar: o Nordeste passa a disputar investimentos em tecnologia considerada essencial para reduzir desperdícios de energia, aumentar a segurança do sistema elétrico e viabilizar novos empreendimentos industriais, como hidrogênio verde e data centers.
De acordo com dados divulgados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Nordeste reúne 211 GW dos 296,8 GW cadastrados (71,1%), liderando a geração de energia eólica e solar no país. O Sudeste aparece em segundo lugar, com 18,8% da capacidade cadastrada, enquanto as demais regiões somam 10,1%.
Ao todo, a EPE informou que recebeu 6.091 projetos, maior volume de inscrições já registrado em leilões do setor elétrico. Antes da realização dos concursos, os empreendimentos ainda passarão pela etapa de habilitação técnica.
A liderança nordestina
Para além da liderança na produção de energia solar e eólica, o Nordeste está se destacando pela expansão de sistemas de armazenamento de energia, especialmente por meio de baterias (BESS).
O avanço na tecnologia é considerado essencial para reduzir desperdícios de energia, aumentar a segurança do sistema elétrico, além de viabilizar novos empreendimentos industriais. As baterias também são relevantes para evitar o curtailment, ou seja, o corte ou desperdício de energia por sobrecarga no sistema elétrico.
De acordo com a equipe da Superintendência de Transmissão de Energia (STE), da EPE Brasil, o desenho do primeiro leilão de armazenamento prevê a bonificação para projetos localizados em pontos considerados estratégicos.
Segundo a STE, a sinalização locacional adotada no leilão buscou maximizar os benefícios que podem ser extraídos dos sistemas de armazenamento por baterias, incentivando sua instalação em pontos da rede com menores índices de robustez.
“Esses pontos costumam estar mais concentrados em regiões com maior presença de geração eólica e solar, que são fontes conectadas à rede predominantemente por conversores eletrônicos e que, diferentemente das máquinas síncronas convencionais, não fornecem naturalmente ao sistema os mesmos níveis de potência de curto-circuito e de suporte eletromecânico. Isso faz com que essas áreas apresentem menor robustez elétrica e maiores desafios de controle de tensão e estabilidade”, afirma a equipe do STE.
Ainda de acordo com eles, a metodologia desenvolvida para o leilão identificou uma forte concentração de barramentos prioritários em estados nordestinos, como Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte, e também no norte de Minas Gerais, aumentando a competitividade dos projetos cadastrados na região.
Oportunidades e gargalos
Com mais projetos, é possível supor que novas oportunidades devem surgir na região, bem como a mitigação de antigos gargalos. Para a equipe da Superintendência de Transmissão de Energia (STE), da EPE Brasil, as baterias cumprirão papel fundamental para a melhoria do desempenho elétrico da região.
“Elas vão contribuir com controle de tensão e estabilidade frente à ocorrência de contingências da rede de transmissão. Já do ponto de vista energético, as baterias podem contribuir com disponibilidade de potência e com a mitigação do curtailment energético, deslocando a geração do período de carga mais reduzida para o período de ponta do sistema. Em síntese, esses ativos devem contribuir para um sistema regional mais flexível e resiliente”, explica a STE.
Apesar das amplas vantagens oferecidas pelas baterias, a Empresa de Pesquisa Energética lembra que elas não substituem a necessidade de expansão da infraestrutura de transmissão. “Pelo contrário, sem a referida expansão de transmissão, restrições elétricas locais na região Nordeste tendem a se manter ou agravar, podendo inclusive inviabilizar a concretização de novos projetos de geração renovável, cargas eletrointensivas e BESS.”
Em relação à expansão da rede, recentemente a EPE fez uma recomendação para a implantação do Bipolo Nordeste II. Orçado inicialmente em R$ 17 bilhões, o projeto é um novo sistema de transmissão em corrente contínua, juntamente com suas instalações associadas, que busca ampliar a capacidade de transferência de energia, reduzir restrições operativas e viabilizar os benefícios esperados tanto da expansão da geração renovável quanto da inserção de sistemas de armazenamento no Sistema Interligado Nacional.
Além de mitigar problemas, é esperado que o crescente número de projetos no Nordeste atraia novos investimentos para a região. Um exemplo disso são os conjuntos de obras previstos pelo Bipolo Nordeste II, que poderá atrair cerca de R$ 20 bilhões em investimentos.
Em relação ao LRCAP Armazenamento 2026, a EPE afirma que, apesar da concentração de projetos cadastrados no Nordeste, é preciso aguardar o resultado do certame para confirmar a localização dos empreendimentos vencedores, bem como a capacidade contratada e os investimentos associados.
Contudo, a previsão de um produto dedicado a projetos com conteúdo nacional tende a estimular também a indústria local. Assim, o Nordeste aproveita seu potencial natural para a produção de energia e o transforma em riquezas para a região.