
Apesar de avanços recentes na redução da pobreza, o Nordeste brasileiro ainda enfrenta um impasse estrutural: a renda cresce lentamente, o mercado de trabalho segue frágil e programas sociais, embora eficazes, não conseguem sozinhos romper o ciclo de desigualdade. O diagnóstico foi apresentado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) em webinar da série Carta Nordeste, que reuniu especialistas, na quarta (29), para discutir os limites e as potencialidades das políticas sociais na região.
Um dos dados mais contundentes apresentados no debate ajuda a dimensionar o problema: em 2024, a renda domiciliar per capita do Nordeste ainda equivalia a apenas 65% da média nacional, avanço tímido frente aos 61% registrados em 2012. A distância é ainda maior quando comparada às regiões mais ricas do país, pouco mais da metade da renda do Sul e Sudeste.
Para o economista João Mário Santos de França, esse ritmo lento de convergência revela um desafio estrutural. “O Nordeste teve um crescimento um pouco acima da média nacional, mas, mesmo assim, em 12 anos a convergência foi muito pequena”, disse.
O debate mostrou que a fragilidade do mercado de trabalho é um dos principais entraves ao desenvolvimento regional. Enquanto no Brasil a renda do trabalho representa cerca de 75% da renda das famílias, no Nordeste esse percentual cai para cerca de 67%.
Essa diferença ajuda a explicar outro dado central; os programas sociais têm peso muito maior na renda nordestina. Segundo os pesquisadores, eles chegam a representar mais do que o dobro da média nacional na composição da renda das famílias.
Para Vitor Hugo Miro, essa combinação revela uma economia menos dinâmica. “As famílias precisam cobrir uma lacuna de renda que não vem do trabalho, principalmente via programas de transferência e benefícios sociais”, completou.
Queda da pobreza não resolve desigualdade
Os dados apresentados indicam que houve, sim, avanços importantes nos últimos anos. A pobreza no Nordeste caiu de cerca de 56% da população para algo em torno de 40%, impulsionada principalmente pela ampliação do Bolsa Família.
Mesmo assim, o patamar segue muito acima da média nacional, que gira em torno de 23%.Já a extrema pobreza também recuou, mas permanece em nível elevado. “O Nordeste ainda tem quase o dobro da média nacional de pessoas vivendo na extrema pobreza”. Para João Mário, o problema vai além da pobreza. “A desigualdade no Brasil cai lentamente porque há uma concentração muito grande no topo da renda”.
Os especialistas foram unânimes em reconhecer o papel decisivo do Bolsa Família na redução da pobreza e da desigualdade. O programa ampliou a cobertura, aumentou o valor médio do benefício e gerou impactos positivos em indicadores como alimentação, saúde e escolaridade.
Mas também destacaram seus limites. Para Valdemar Pinho Neto “o Bolsa Família não pode ser pensado como solução única para um problema tão grave quanto a pobreza”. Ele defende que o programa precisa ser articulado a outras políticas: “A renda por si só não vai trazer produtividade, bons empregos ou trajetórias de ascensão social. Isso depende do dinamismo da economia local e de políticas complementares”, disse.

Mobilidade social depende do território
Um dos pontos mais enfatizados no webinar foi o peso das condições locais. Dados apresentados mostram que jovens beneficiários têm trajetórias muito diferentes dependendo de onde vivem.
Em nível nacional, cerca de 70% dos beneficiários deixam o programa após uma década. Mas, no Nordeste, essa mobilidade é significativamente menor. Segundo Valdemar Pinho Neto “o que acontece no Brasil não acontece de forma igual no Nordeste. As condições econômicas locais fazem toda a diferença”.
Fatores como emprego formal dos pais, nível educacional e infraestrutura urbana influenciam diretamente a chance de saída da pobreza. O desafio, portanto, é transformar renda em desenvolvimento.
O consenso entre os especialistas é que o Nordeste precisa avançar para uma nova etapa: sair da lógica de proteção social isolada e construir um modelo de desenvolvimento mais robusto.
Entre as prioridades apontadas estão: políticas de inclusão produtiva; qualificação profissional; estímulo ao crédito e à economia local; foco na primeira infância; adaptação das políticas às realidades regionais.
“O caminho é conectar proteção social com oportunidades, e não tratar o debate como ser a favor ou contra programas sociais”, amarrou a fala Pinho.