
O desempenho de Campina Grande no último censo do Índice de Progresso Social (IPS), divulgado no final de 2025, trouxe luz aos avanços do município e evidenciaram o papel da conhecida Rainha da Borborema como central a nível de desenvolvimento regional. A nota obtida – 67,78 – supera a média da Paraíba, com 61,09 e a nacional, 61,96.
O IPS avalia critérios como necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades, sendo a última responsável por colocar Campina Grande entre os 15 melhores municípios do país. O sucesso pode ser explicado pela união entre um parque tecnológico e acadêmico bem estruturado ao vigor do setor de serviços, além da tradição de parques industriais relevantes para o estado.
Ao Investindo Por Aí, a Prefeitura de Campina Grande afirmou que os bons números são resultados de trabalhos integrados entre setores. “A gestão municipal de Campina Grande atribui esse resultado a um conjunto de políticas públicas integradas que priorizam o bem-estar da população, com base num conjunto de metas e num planejamento entre os setores da Prefeitura. Mais do que investimentos isolados, o resultado demonstra eficiência na aplicação dos recursos públicos e foco em resultados concretos para a população, que é exatamente o que o IPS mede.”
Esse planejamento, segundo o governo municipal, passou pelo saneamento das contas públicas para permitir intervenções em demandas históricas. A Prefeitura destaca que o foco em projetos estruturantes de grande impacto social foi viabilizado por esse equilíbrio fiscal. “Foi possível a conquista de financiamento internacional e automática viabilização de projetos como a reforma da Feira Central; a construção do Parque da Estação Nova; a despoluição do Açude Velho e a criação do Cinema da Educação”
Entretanto, especialistas alertam que qualidade de vida é um conceito dinâmico e que os números médios podem mascarar abismos geográficos dentro do próprio município. Se no Centro e em bairros como o Catolé a infraestrutura é pujante, a periferia ainda enfrenta gargalos históricos, reforçando que os bons números não excluem desafios e não conseguem transmitir integralmente a complexidade urbana de uma cidade com mais de 4 milhões de habitantes.
Andréa Porto Sales, professora do Departamento de Geociências da UFPB, destaca que é preciso ter cautela ao considerar esses dados. “O IPS dialoga apenas com uma fração da realidade. Embora seja mais sensível que o PIB por focar em bem-estar, ainda corre o risco de se tornar um instrumento de “marketing urbano”. Enquanto o índice mostra progresso, a realidade urbana observada ainda é marcada por uma fragmentação: áreas de alta tecnologia e condomínios de luxo coexistindo com bolsões de precariedade em bairros periféricos que o “olhar estatístico” tende a suavizar”, aponta.
A professora indica ainda que o progresso social estatístico muitas vezes ignora fatores importantes como justiça socioambiental e a segregação residencial. Ela ressalta que o saneamento e o lazer ainda são distribuídos de forma desigual entre o centro e as periferias, onde áreas de risco e ocupações consolidadas permanecem invisíveis aos dados globais.
Gargalos e oportunidades
Um dos pontos mais relevantes do levantamento é a posição de destaque nacional na categoria Oportunidades – Campina Grande está entre os 15 melhores municípios do país neste segmento, que inclui acesso à educação superior e inovação.
Para a gestão da Prefeitura, fatores históricos e estruturais explicam esse desempenho, que é também motivo de questionamentos mais densos. “Há um ambiente de inovação na cidade caracterizado pela presença da UFCG, UEPB e o Parque Tecnológico. Isso gera oportunidades, mas deixa a pergunta para que serve se a base da pirâmide social continua em empregos informais ou serviços de baixa remuneração, sem acesso real à “cidade das oportunidades”.
Também nesse sentido, Andréa Porto Sales defende ainda que questões como mobilidade urbana – com maior fluxo de transportes para o centro em detrimento da conectividade entre bairros periféricos – ainda são muito latentes no município. Ela reforça ainda que, para combater essas questões, é necessário integrar comunidades e promover educação para a cidadania dentro da cidade.
“É preciso superar o planejamento tecnocrático “de cima para baixo”. A população das periferias deve decidir onde os recursos do sucesso do IPS serão aplicados. Precisamos não apenas formar engenheiros de software, mas fomentar uma pedagogia urbana que capacite o cidadão a reivindicar e gerir seu próprio espaço”, reforça.
Com os números e as considerações do poder público e de pesquisadores, fica claro que os bons resultados não são um ponto final, mas sim um ponto de partida. O desafio, defende a professora, é transformar os resultados obtidos em ações concretas que tornem a cidade mais integrada, condizente com a imagem de avanço e dinamismo trazida pelo último IPS. “Um ranking não é um fim, mas um sintoma. O cuidado deve ser não confundir “progresso social” (estatístico) com “desenvolvimento socioespacial” (emancipação real da população).”