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20 de abril de 2026 06:01

Nordeste amplia investimentos em 2025 e testa limites fiscais em novo ciclo de crescimento

Nordeste amplia investimentos em 2025 e testa limites fiscais em novo ciclo de crescimento

Avanço puxado por crédito reposiciona região, enquanto casos como Sergipe exemplificam potencial e desafios do modelo

Os estados do Nordeste protagonizam, em 2025, um novo ciclo de expansão dos investimentos públicos, com impactos diretos sobre infraestrutura, emprego e competitividade regional. Levantamento da Aequus Consultoria Econômica, com base em dados da Secretaria do Tesouro Nacional e divulgado pelo Valor Econômico, aponta crescimento expressivo, ainda que desigual, na aplicação de recursos, evidenciando tanto uma mudança de postura fiscal quanto os riscos associados à sustentabilidade desse movimento.

No cenário nacional, a região se destaca pelo ritmo acelerado de investimentos, com estados como Piauí, Maranhão, Paraíba e Sergipe registrando altas superiores a 30%. A estratégia marca uma inflexão relevante: historicamente mais dependentes de transferências federais e com menor capacidade fiscal, esses estados passaram a recorrer de forma mais intensa a operações de crédito e receitas extraordinárias para financiar obras estruturantes.

Esse avanço, no entanto, não ocorre de maneira homogênea. O Nordeste se divide em diferentes ritmos de crescimento. Enquanto alguns estados adotam uma política agressiva de expansão, outros — como Ceará e Pernambuco — mantêm uma trajetória mais equilibrada, buscando conciliar investimento com estabilidade fiscal. Há ainda unidades, como Bahia e Rio Grande do Norte, que apresentam desempenho mais moderado, refletindo cautela ou restrições orçamentárias.

Entre os casos mais emblemáticos desse novo ciclo está Sergipe, que desponta como um dos líderes nacionais em expansão de investimentos. Em 2025, o estado destinou R$ 1,33 bilhão para infraestrutura e aquisição de equipamentos, o maior volume de sua história. O montante representa um crescimento de 62,8% em relação ao ano anterior, colocando Sergipe na segunda posição do ranking nacional, atrás apenas de Goiás.

Os investimentos correspondem a cerca de 8% da Receita Corrente Líquida estadual e foram viabilizados por uma combinação de fontes: arrecadação própria — com destaque para tributos como ICMS, IPVA e ITCMD —, operações de crédito facilitadas pela nota A junto ao Tesouro Nacional e recursos oriundos da concessão parcial dos serviços de saneamento.

Na prática, os recursos têm sido direcionados a projetos de infraestrutura considerados estratégicos. Entre eles, destaca-se o Complexo Viário Senadora Maria do Carmo do Nascimento Alves, em Aracaju, que inclui viaduto, ponte estaiada e ciclovias. Também avançam obras rodoviárias em diferentes regiões do estado, além de estudos para uma nova ponte ligando a capital à Barra dos Coqueiros.

O impacto econômico desse volume de investimentos já começa a aparecer. Dados do Caged indicam a geração de 17.593 empregos formais em Sergipe nos últimos doze meses, com destaque para a construção civil, responsável por mais de 4 mil vagas. O desempenho reforça o efeito multiplicador típico das obras públicas, que estimulam cadeias produtivas e ampliam a circulação de renda.

Estudos da Fundação Getulio Vargas apontam que cada R$ 1 milhão investido na construção civil pode gerar mais de 30 empregos, além de efeitos indiretos em setores como transporte e serviços. Esse potencial ajuda a explicar por que a infraestrutura permanece como eixo central das políticas de desenvolvimento na região.

Questionamentos inerentes

Ainda assim, o modelo de crescimento baseado em crédito e receitas extraordinárias levanta questionamentos. O levantamento da Aequus indica que, desde 2022, houve redução significativa no caixa dos estados, ao mesmo tempo em que despesas correntes continuam consumindo mais de 90% das receitas. Esse quadro limita a margem para novos investimentos no futuro e pode pressionar as contas públicas com custos de manutenção das obras.

O contexto político também influencia o ritmo de expansão. Em um período que antecede disputas eleitorais, o aumento dos investimentos em infraestrutura ganha dimensão estratégica, funcionando como vitrine de gestão e instrumento de capital político. Ao mesmo tempo, abre espaço para críticas sobre a efetividade e a sustentabilidade desses gastos.

O caso de Sergipe ilustra bem esse equilíbrio delicado. Enquanto o estado aposta na ampliação dos investimentos como forma de atrair empresas, gerar empregos e compensar o fim de incentivos fiscais, também reforça o discurso de responsabilidade fiscal, apoiado na capacidade de financiamento já contratada e na previsibilidade das receitas.

O que emerge desse cenário é um Nordeste em transição, que busca superar gargalos históricos de infraestrutura e reposicionar sua economia no contexto nacional. O avanço dos investimentos indica uma aposta clara no papel do Estado como indutor do desenvolvimento, especialmente em regiões onde a iniciativa privada ainda enfrenta limitações estruturais.

No entanto, o desafio central permanece: transformar esse impulso em um ciclo sustentável de crescimento. Mais do que ampliar os investimentos, será necessário garantir sua continuidade sem comprometer o equilíbrio fiscal. Em outras palavras, o sucesso dessa estratégia dependerá não apenas da capacidade de gastar, mas de sustentar, ao longo do tempo, os efeitos positivos gerados pelas obras.

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