
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) criaram um processo físico-químico integrado capaz de recuperar óleo residual presente em cascalhos de perfuração à base de olefina, resíduo sólido gerado durante a exploração de poços de petróleo e gás. A tecnologia, desenvolvida no Laboratório de Tecnologia de Tensoativos (LTT) do Instituto de Química, encontra-se em fase de prova de conceito em escala laboratorial e promete transformar um material descartável em recurso reintegrável à cadeia produtiva.
O método utiliza tensoativos não iônicos etoxilados em concentrações micelares combinados com etapas controladas de aquecimento e centrifugação para separar a fase oleosa dos resíduos. Segundo a pesquisadora Aeryslânnia Moreira da Nóbrega, um dos principais diferenciais está na ausência de solventes orgânicos tóxicos ou inflamáveis, o que reduz riscos operacionais e impactos ambientais. Além disso, as misturas podem ser preparadas com agitação mecânica convencional, sem equipamentos especializados ou aditivos de alto custo.
A pesquisa tem aplicação direta no perfil operacional do setor de petróleo e gás no Nordeste. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a região concentra cerca de 2.300 poços terrestres — equivalente a 41% dos poços onshore do país — nas bacias Potiguar, Recôncavo, Sergipe-Alagoas e Parnaíba, com produção de aproximadamente 100 mil barris diários de petróleo em 2025. A predominância de campos maduros amplia o volume de resíduos de perfuração gerados em operações de manutenção e reativação de poços.
Os cascalhos de perfuração constituem os principais resíduos sólidos das operações de exploração e produção, formados por fragmentos de rocha misturados com fluidos de perfuração. Quando dispostos inadequadamente, causam contaminação do solo, poluição hídrica e emissão de gases. A gestão desse passivo é regulada pela Instrução Normativa nº 01/2018 do Ibama e pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
O método pode ser aplicado em plataformas offshore, instalações terrestres e Unidades de Tratamento de Resíduos Industriais (UTRIs), contribuindo para a recuperação de óleo de alto valor agregado e a redução do volume de resíduos destinados à disposição final. A Petrobras, que gerou 0,8 mil toneladas de cascalhos e fluidos de base não aquosa em 2024, tem meta de destinar pelo menos 80% dos resíduos de processo para rotas de reuso, reciclagem e recuperação até 2030.
O grupo de pesquisa, formado por nove inventores e liderado pelo professor Alcides de Oliveira Wanderley Neto, pretende agora otimizar o processo e escalonar a tecnologia para volumes maiores, com condições operacionais mais próximas da realidade industrial.