Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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10 de agosto de 2026 14:54

As novas rotas do Nordeste para o mundo

As novas rotas do Nordeste para o mundo

Processo de internacionalização se dá pela exportação de conhecimento, pela produção cultural de alcance mundial e pela construção de uma reputação própria

Durante muito tempo, a presença internacional do Nordeste brasileiro esteve associada quase exclusivamente às imagens que ajudaram a construir seu imaginário global: praias, música, Carnaval, culinária e um patrimônio cultural reconhecido muito além das fronteiras nacionais. Era uma projeção espontânea, sustentada principalmente pela força de sua produção artística e pela atividade turística. Nos últimos anos, porém, essa lógica começou a mudar. A região passou a desenvolver uma estratégia deliberada de internacionalização que articula governos estaduais, diplomacia climática, ciência, inovação, cultura e economia criativa.

O movimento ganha um novo capítulo entre os dias 24 de agosto e 4 de setembro, quando o Consórcio Nordeste realizará duas missões institucionais internacionais. A primeira levará uma delegação à 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17/UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia. Em seguida, representantes dos nove estados seguirão para a República Popular da China, onde cumprirão agendas em Pequim e uma visita técnica ao Deserto de Kubuqi. A iniciativa, aprovada em assembleia pelos governadores da região, sintetiza uma mudança de paradigma: o Nordeste deixa de buscar apenas investimentos e passa a oferecer conhecimento, soluções ambientais e capacidade de inovação ao restante do mundo.

O principal objetivo da missão é consolidar o Semiárido brasileiro como referência internacional em adaptação climática. A região abriga a Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e a maior floresta tropical seca contínua da América do Sul, cuja capacidade de sequestrar carbono vem sendo demonstrada por estudos científicos recentes. Ao mesmo tempo, o Nordeste acumulou décadas de experiência na convivência com a seca, desenvolvendo tecnologias sociais como os sistemas de cisternas para segurança hídrica e iniciativas de recaatingamento voltadas à restauração ecológica. Em vez de apresentar o Semiárido como território de escassez, a proposta é reposicioná-lo como um laboratório global de soluções para regiões áridas e semiáridas, onde vivem mais de dois bilhões de pessoas.

Essa mudança de narrativa é acompanhada por uma agenda econômica. Durante a COP17, o Consórcio Nordeste pretende ampliar o diálogo com organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento e governos nacionais para captar financiamentos climáticos e mecanismos de blended finance destinados ao Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE) e ao futuro Fundo Caatinga. Um dos momentos centrais da programação será o evento “Restoring for Prosperity: The Caatinga, the Semiárid Region, and Climate Finance”, na Blue Zone da conferência, ocasião em que será formalizado um Memorando de Entendimento com o Secretariado da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. Trata-se de um marco institucional: será a primeira vez que uma instância subnacional brasileira firma esse tipo de compromisso diretamente com a UNCCD, abrindo caminhos para cooperação técnica permanente e acesso a redes internacionais de financiamento.

A etapa seguinte da missão, na China, reforça outra dimensão da internacionalização nordestina: a busca por tecnologia e parcerias estratégicas. A agenda prevê encontros com órgãos do governo chinês, instituições financeiras, universidades e centros de pesquisa, além de visitas técnicas voltadas à revegetação de áreas desérticas, mecanização da agricultura familiar, saúde de alta complexidade e infraestrutura ambiental. Também estão previstas discussões sobre a elegibilidade do Fundo Caatinga para linhas internacionais de crédito e sobre modelos de atração de investimentos associados ao powershoring, estratégia que busca aproveitar a abundância de energia solar e eólica da região para instalar cadeias produtivas de baixo carbono.

Essa estratégia não surgiu do zero. Desde sua criação, em 2019, o Consórcio Nordeste vem desenvolvendo uma política contínua de paradiplomacia. Missões à França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Emirados Árabes Unidos passaram a apresentar os nove estados como um único mercado de quase 60 milhões de habitantes, ampliando sua capacidade de negociação e reduzindo a fragmentação que historicamente caracterizava a atuação internacional da região. Em vez de Bahia, Ceará ou Pernambuco disputarem atenção isoladamente, o Nordeste passou a se apresentar como um bloco geoeconômico capaz de combinar potencial energético, biodiversidade, infraestrutura logística e riqueza cultural.

Marca Nordeste

Essa construção coletiva também alcançou o turismo. Durante décadas, os estados promoveram seus destinos individualmente. Mais recentemente, em parceria com a Embratur, o Consórcio Nordeste passou a estruturar a ideia de uma Marca Nordeste, apresentada ao mercado internacional como um destino integrado. A estratégia busca oferecer ao visitante estrangeiro uma experiência regional, conectando diferentes estados em roteiros culturais, gastronômicos e naturais. É uma lógica semelhante à adotada por regiões europeias que utilizam sua identidade compartilhada como diferencial competitivo.

Ao mesmo tempo em que fortalece sua atuação institucional, o Nordeste amplia sua projeção internacional por meio da cultura. O exemplo mais evidente vem do cinema. Nos últimos anos, Pernambuco consolidou-se como um dos principais polos audiovisuais da América Latina. Em 2023, “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, foi selecionado para Cannes e despertou interesse internacional ao transformar a memória dos antigos cinemas do Recife em reflexão sobre patrimônio urbano. Dois anos depois, “O Agente Secreto” levou essa trajetória a um novo patamar ao conquistar os prêmios de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho e de Melhor Ator para Wagner Moura no Festival de Cannes.

Mais do que um sucesso artístico, o filme tornou-se um poderoso instrumento de projeção territorial. Ambientado em Recife durante o Carnaval de 1977, ele apresenta a cidade não como pano de fundo, mas como personagem central da narrativa. Sua arquitetura, seus bairros, sua atmosfera urbana e sua memória histórica passaram a circular em reportagens, críticas especializadas e debates culturais em diversos países. A estreia foi recebida com uma longa ovação em Cannes, enquanto apresentações de frevo acompanharam a delegação brasileira no festival, reforçando a associação entre Pernambuco e uma identidade cultural singular.

É um tipo de internacionalização diferente daquela produzida pelas campanhas promocionais tradicionais. Em vez de vender diretamente um destino turístico, o cinema constrói prestígio simbólico. E prestígio gera curiosidade, interesse, circulação de pessoas, coproduções, festivais e investimentos na economia criativa. Trata-se da essência do chamado soft power: a capacidade de influenciar por meio da cultura, da reputação e da criatividade.

Esse movimento também pode ser observado em outras partes da região. A Bahia fortalece sua estratégia de posicionar Salvador como uma das principais capitais afro-diaspóricas do mundo, utilizando música, religiosidade, patrimônio e afroturismo como instrumentos de diplomacia cultural. O Ceará projeta internacionalmente sua liderança em hidrogênio verde e energias renováveis, enquanto Sergipe e Rio Grande do Norte investem em narrativas ligadas à autenticidade territorial, ao patrimônio histórico e à sustentabilidade.

O que conecta todas essas iniciativas é uma mudança profunda na forma como o Nordeste se apresenta ao exterior. Durante muito tempo, sua inserção internacional esteve baseada em atributos naturais ou em ações pontuais de promoção econômica. Hoje, a região articula uma estratégia muito mais sofisticada, na qual cultura, ciência, inovação, transição energética, biodiversidade e cooperação internacional passam a integrar uma mesma narrativa.

Em um cenário global marcado pelas mudanças climáticas, pela busca por energias limpas e pela valorização das identidades culturais, o Nordeste parece ter encontrado uma oportunidade rara. Sua internacionalização já não depende apenas da capacidade de atrair investimentos ou turistas. Ela passa também pela exportação de conhecimento, pela produção cultural de alcance mundial e pela construção de uma reputação própria. Do Semiárido às salas de cinema de Cannes, das cisternas à economia verde, das missões diplomáticas à força da economia criativa, o Nordeste desenha novas rotas para o mundo e, talvez pela primeira vez, faz isso falando com uma só voz.

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