A segurança pública ainda domina o centro das discussões do período político eleitoral, em praticamente todo o país, e na Paraíba o cenário não é diferente. Apesar de não estar entre os estados mais perigosos do Nordeste, a Paraíba vem acumulando dados negativos no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, além de protagonizar manchetes sobre o avanço do crime organizado.
De acordo com o último anuário da violência, as dez cidades com mais mortes violentas estão no Nordeste. Entre elas, a Paraíba tem como representante o município de Santa Rita, localizado na Grande João Pessoa, ocupando a nona posição. Além das mortes violentas, a Paraíba liderou o crescimento no furto de celulares em 2025, com uma alta de cerca de 51%, totalizando 4.799 ocorrências.
Buscando entender como o debate eleitoral pode ser influenciado pela segurança pública, o Investindo Por Aí conversou com o professor Ricardo Gennari, mestre em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, com especialização em Gestão de Segurança Pública na Polícia Militar do Estado de São Paulo – CAES e autor do livro “Inteligência do Crime Organizado Brasileiro”.
Além de debater os possíveis impactos ao pleito eleitoral, Ricardo também comentou sobre o avanço do crime organizado na Paraíba, sobretudo no município de Cabedelo, onde foi descoberta pela equipe do Fantástico, membros do Comando Vermelho infiltrados na prefeitura.
IPA: Segundo o Anuário de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), as 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste e uma delas é Santa Rita (PB). Por que as cidades nordestinas são tão violentas?
RG: Houve imigração do crime organizado para o Norte e Nordeste por algumas questões como: pela proximidade com países produtores de cocaína, como Bolívia, Colômbia e Peru; pelas rotas de exportação para Europa e Ásia; pela facilidade de cooptação de mão de obra; pelo vasto território pouco fiscalizado; e pela possibilidade de ampliar os lucros com garimpo, madeira, metais preciosos e tráfico de animais e plantas.
IPA: A Paraíba ainda é vista como um estado relativamente seguro em comparação com o restante do Nordeste ou esse cenário mudou?
RG: A Paraíba ainda não é tão violenta como a Bahia e Ceará, que tem várias facções que disputam território e negócio. Já na Paraíba praticamente existe apenas o PCC e Okaida sem muitos atritos. Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a Paraíba apresenta índices de letalidade inferiores aos de outras capitais do Nordeste.
IPA: Nos últimos meses o Fantástico denunciou que o Comando Vermelho se infiltrou em parte da prefeitura de Cabedelo. Como o crime consegue se infiltrar no poder público de uma cidade tão distante da sua “sede” e quais os possíveis objetivos?
RG: Através da corrupção e cooptação de agentes públicos. O crime organizado está se infiltrando em várias cidades do Brasil e não só na cidade de Cabedelo. As facções possuem muito dinheiro e objetivos que os políticos cooptados se aproveitam de leis e regras para facilitar a atuação do crime nas cidades.
IPA: Quais mecanismos podem ser adotados para evitar a infiltração do crime organizado em órgãos públicos?
RG: O Estado e os governos precisam estar em sintonia para o combate ao crime organizado. Temos diversos órgãos que precisam estar integrados. Combate à corrupção, integração de órgãos como o SUSP, Sisbin, COAF, Ministério Público Federal e Ministérios Públicos Estaduais, Polícias Federal, Polícias Civis e Polícias Militares e Justiça. Importante que os governos estejam empenhados em ter políticas públicas eficientes e eficazes para o combate ao crime organizado.
IPA: Quais estratégias de combate ao crime organizado têm apresentado melhores resultados em outros estados e poderiam ser adaptadas à realidade da Paraíba?
RG: Uso e integração da inteligência, principalmente da esfera Federal com órgãos da Paraíba, como: MP, Polícias Estaduais, SEAP e receitas estaduais e federais. Fortalecer o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (CIOSP) da Paraíba cruzando dados para prisão de criminosos e também recuperação de recursos financeiros para o Estado.
IPA: Quais propostas os eleitores deveriam observar nos programas dos candidatos para diferenciar medidas estruturais de promessas de curto prazo?
RG: Em primeiro lugar, a população deve cobrar dos candidatos a cargos eletivos e fiscalização das ações dos políticos no combate ao crime organizado. Infelizmente no Brasil, os políticos prometem muitas vezes sem conhecer os principais óbices de que o Estado e a população necessitam. As facções estão tomando conta dos Estados e cidades, caso os governantes não tenham políticas públicas eficientes para combater o crime organizado a população estará à mercê do crime.
IPA: Como evitar que o debate sobre segurança pública seja conduzido apenas por discursos de endurecimento penal, sem abordar políticas de prevenção e inteligência?
RG: Hoje os políticos falam muito de inteligência e combate ao crime organizado, para receber votos e ganhar eleições, sem conhecer a verdadeira necessidade da população. Na minha opinião, para não ficar apenas no discurso, a população precisa examinar as propostas dos candidatos para o combate ao crime organizado e fiscalizar as ações e políticas para o combate ao crime.

IPA: De que forma o avanço do crime organizado afeta a economia de um estado como a Paraíba?
RG: O crime organizado impacta diretamente na economia formal de qualquer estado. No caso específico da Paraíba, impacta diretamente os investimentos de empresas, no desenvolvimento de projetos públicos e privados, diminui o turismo pela violência, afugenta a população local para outros estados, desvaloriza o patrimônio, como imóveis, diminui empregos e salários. Há impacto direto sobre o estado e a sociedade.
IPA: Há setores mais vulneráveis aos impactos da criminalidade, como comércio, turismo, construção civil ou logística?
RG: O crime organizado quando infiltrado dentro do Estado, afugenta a cadeia de produção como indústria, comércio, agricultura e turismo. O que mais é afetado são os investimentos diretos do governo federal e de empresas nacionais e internacionais que têm buscando locais seguros para montar seus hubs de produção.
IPA: Na sua avaliação, qual é hoje o maior desafio da Paraíba para conter o avanço do crime organizado antes que ele alcance um nível semelhante ao observado em outros estados do Nordeste?
RG: O maior desafio da Paraíba seria diminuir o crime comum e combater o crime organizado investindo em ações eficientes de Estado e também investindo no HUMIT, ou seja, no policial. Forças integradas do Judiciário, Executivo e Legislativo e a colaboração da sociedade. Seria o primeiro passo para combater o crime.

