
A Braskem viveu, no fim de agosto, um dos capítulos mais duros de sua história recente: pediu recuperação extrajudicial para renegociar cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas financeiras. O pedido, protocolado em 24 de agosto em São Paulo, teve apoio inicial de credores que representam 39,6% dos créditos. A empresa passou a dispor de 90 dias para elevar essa adesão a mais da metade e vincular também os credores que ainda resistem.
No auge da empresa, em outubro de 2017, a companhia valia mais de R$ 60 bilhões na Bolsa. Desde então, já perdeu cerca de US$ 11 bilhões ou R$61 bilhões em valor de mercado, e as ações bateram mínima histórica nas últimas semanas, acumulando queda de cerca de 65% só neste ano.
Para o professor Rogério Machado, da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a trajetória da empresa resume a mudança de era do setor. Ele trabalhou, entre os anos 1980 e 1990, numa unidade que hoje pertence à Braskem, então batizada de Unipar Divisão Química, em Mauá (SP). Segundo ele, naquele período tudo o que a fábrica produzia encontrava comprador dentro e fora do país, inclusive os rejeitos. “O que fizermos alguém compra, até nosso resíduo compram para queimar em caldeira”, lembra Machado, citando o jargão da época.
Uma década tentando resolver o dono
Parte da crise tem raiz numa questão de controle acionário: entre 2016 e 2018, a Novonor (antiga Odebrech) deu sua fatia de 38,3% do capital da Braskem como garantia de empréstimos com bancos. Sem conseguir pagar, entrou em recuperação judicial em 2019, e a venda dessa participação virou peça central da negociação com os credores.
Candidatos não faltaram – LyondellBasell, Unipar, J&F e a emiradense Adnoc estiveram entre os interessados-, mas as conversas esbarravam no preço, nos passivos e na presença da Petrobras, dona de 47% das ações votantes. Em 2023, a Adnoc chegou a oferecer R$ 10,5 bilhões pela fatia da Novonor, mas recuou em 2024 diante de riscos ambientais e da indefinição da estatal. A questão societária só foi resolvida neste ano, quando um fundo da gestora IG4 assumiu o controle de 50,1% do capital votante.
Enquanto a disputa pelo comando se arrastava, outros problemas se acumulavam. O afundamento do solo provocado pela mineração de sal-gema em Alagoas obrigou cerca de 60 mil pessoas a deixar suas casas e já consumiu quase R$ 16 bilhões da companhia. “O erro homérico cometido no Nordeste, com a exploração de sal, chega a bilhões de reais em indenizações”, resume Machado. A operação mexicana, inaugurada em 2016, também recorreu neste mês à recuperação judicial nos EUA, incapaz de gerar caixa suficiente para cobrir seus custos.
O tabuleiro mudou lá fora
É nesse ponto que a crise deixa de ser só brasileira. Machado lembra que o mercado que a Braskem conheceu nas décadas de 1980 e 1990 não existe mais: a China deixou de ser apenas grande consumidora de petroquímicos para se tornar autossuficiente e, segundo ele, passou a exportar excedentes a preços com os quais poucos concorrentes competem. Os Estados Unidos somaram-se a esse movimento com plantas de grande escala baseadas no gás de xisto, matéria-prima abundante que pressionou ainda mais os preços globais.
Esse excesso de oferta mundial, que desde 2022 corrói as margens do setor, atingiu a Braskem justamente quando ela estava presa à indefinição societária que limitava sua capacidade de investir. Enquanto isso, concorrentes seguiram ganhando escala: em 2025, Adnoc e OMV formaram a Borouge Group International, avaliada em cerca de US$ 60 bilhões, e a Adnoc ainda comprou a canadense Nova Chemicals por US$ 13,4 bilhões. A última grande expansão da Braskem, a própria planta mexicana hoje em dificuldades, é de 2016.
Credores, bancos e Petrobras não se entendem
Os detentores de títulos internacionais, que concentram cerca de dois terços da dívida, defendem dinheiro novo, garantias adicionais e conversão de parte dos créditos em ações, com participação da Petrobras. Os bancos locais preferem apenas alongar prazos, mas exigiram garantias e um novo empréstimo de US$ 700 milhões, recusado pela empresa. Já a Braskem busca preservar sua estrutura de controle sem exigir aportes dos acionistas. A Petrobras resiste a ampliar sozinha sua exposição, com receio de consolidar os passivos da Braskem em seu balanço; em agosto, ampliou uma linha de crédito à companhia para R$ 2,35 bilhões, o que fez as ações dispararem mais de 14% em um pregão. Semanas antes, a Fitch já havia rebaixado a empresa à categoria de calote seletivo, após a suspensão do pagamento de juros.
Analistas financeiros avaliam que o desfecho da reestruturação pode ter efeitos além da própria Braskem, afetando fundos de renda fixa e outros instrumentos expostos a debêntures e títulos ligados à companhia, lembrete de que o caso interessa também a quem nunca comprou uma ação da empresa.
Mesmo que a negociação avance, Machado defende que o desafio de fundo do setor permanece: o Brasil não é autossuficiente em nafta, sua principal matéria-prima petroquímica, e depende de importações para sustentar uma produção que já não cresce. A isso soma-se um fator que, segundo ele, raramente aparece nas análises do setor: a crise climática. “A transição energética é algo premente, derivada da crise climática, que era algo do futuro e, no caso, não é mais, mas sim do agora”, afirma o professor, para quem investir hoje em petroquímicos tradicionais tem se tornado cada vez menos atraente para fundos que buscam critérios de sustentabilidade.
Para ele, a saída não passa por abandonar os produtos petroquímicos, mas por reciclá-los e combiná-los com matérias-primas não derivadas de petróleo, caminho de longo prazo que a Braskem ainda não tem musculatura financeira para trilhar.