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15 de junho de 2024 09:22

‘Com a estocagem de gás, consigo dar estabilidade aos preços’, diz CEO da Origem Energia

‘Com a estocagem de gás, consigo dar estabilidade aos preços’, diz CEO da Origem Energia

Executivo Luiz Felipe Coutinho explica que objetivo é reduzir a dependência internacional e viabilizar a produção doméstica por meio da armazenagem

Por Bruno Rosa
Para O Globo

Uma das maiores produtoras independentes de gás do país, a Origem Energia, que cresceu com a compra de ativos da Petrobras, já planeja uma abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) na Bolsa de Valores no próximo ano. A intenção é acelerar projetos que vão da criação de um centro de estocagem de gás para outras companhias em Alagoas à construção de termelétricas, além do uso de GNL (gás em estado líquido) para estimular a indústria no interior.

Em entrevista ao GLOBO, Luiz Felipe Coutinho, CEO da companhia e um dos sócios fundadores da empresa, explica que a meta é tornar a companhia um “hub de energia”. Apesar da incerteza com a eleição, o executivo lembra que está acelerando seu plano de negócios para aproveitar a esperada “agenda desenvolvimentista”, que, em sua opinião, vai ocorrer em 2023, seja com um novo governo ou com a recondução do atual.

Como a guerra entre Rússia e Ucrânia vem alterando o cenário energético global?
Haverá um maior nacionalismo energético em função da guerra na Ucrânia e uma necessidade de menor dependência de recursos estratégicos de terceiros. E nesse caminho o Brasil tem um problema relacionado ao gás natural. Importamos 50% da nossa demanda de gás natural e baseamos a nossa matriz de gás natural no GNL (gás em estado líquido) importado. E um dos caminhos que a Origem busca é viabilizar o gás natural doméstico, através da estocagem. É uma solução de estocagem de gás natural doméstico, no estado gasoso.

E de onde surgiu essa ideia?
O Brasil tem fontes produtoras de gás natural e reservatórios de gás natural em terra, mas caminha para um modelo lastreado no gás importado. Quando fundamos a companhia, fizemos um mapeamento de todos os ativos terrestres que estavam disponíveis, não só à venda pela Petrobras, mas nos leilões da ANP (Agência Nacional do Petróleo).

E qual é o valor desse investimento?
Queremos iniciar essa disponibilidade de estocagem no primeiro trimestre de 2023. É um investimento em torno de US$ 70 milhões somente na infraestrutura em Alagoas. Basicamente são compressores associados aos reservatórios. Estamos em negociações com grandes majors (petroleiras), já que o Polo Alagoas está conectado à malha de transporte nacional. A capacidade de estocar será de 1,5 bilhão de metros cúbicos de gás natural. Isso corresponde a 20 vezes a capacidade de armazenamento do mercado de gás natural brasileiro, que hoje é de 70 milhões de metros cúbicos por dia. Esse serviço nunca foi ofertado no Brasil e é mais barato do que estocar no estado líquido (GNL). É o modelo para o qual todos os países desenvolvidos migraram. Os EUA têm capacidade de estocagem de mais de um trilhão de metros cúbicos por dia.

Como isso pode viabilizar a indústria local?
O Brasil usa hoje na indústria o GLP (botijão). Talvez seja o único país do mundo. Essa demanda migraria naturalmente para o gás natural em função da maior eficiência econômica, ambiental e logística. Hoje não tem uma indústria de fertilizantes no país, mesmo tendo um dos maiores mercados agrícolas do mundo, em função do custo do gás natural, que é o seu principal insumo. Com essa estocagem, consigo dar estabilidade aos preços, criando diferentes formas de precificação. Hoje, o Brasil só tem um prato no cardápio, com a precificação e as condições impostas pela Petrobras. Já temos pedidos de indústrias querendo migrar para Alagoas em função da oferta de gás natural, perguntando sobre a nossa disponibilidade futura de gás natural para que eles venham a se instalar no estado.

O senhor citou a indústria de fertilizantes. Mas um dos desafios é justamente levar o gás para o interior…
Esperamos interiorizar o gás a partir de Alagoas. E temos conversas aprofundadas com empresas para parcerias a serem firmadas de olho nessa distribuição. Vamos fazer isso ainda em 2023 e levar esse gás através da liquefação. Essa é uma forma mais inteligente de se interiorizar o gás do que subsidiar a geração termelétrica em larga escala, como foi no leilão da Eletrobras.

Mas desde o início da Lei do Gás, os investimentos são tímidos. O que é preciso para destravar isso?
A infraestrutura essencial ainda está na mão da Petrobras, como a de processamento, exceto em Alagoas. A Petrobras está desinvestindo no seu passo, pois é uma empresa com os seus interesses próprios, mas a Lei do Gás é um pequeno passo importante. Outros precisam acontecer. Precisamos que a infraestrutura seja destravada com a venda de mais ativos. E precisamos que outros pontos regulatórios importantes aconteçam.

Quais pontos regulatórios?
A regulação hoje trata da estocagem de gás próprio. Precisamos fazer adaptações para estocar gás de terceiros. Estamos trabalhando junto com a ANP. É uma regulação que não existia em função do monopólio. Estamos trabalhando junto aos secretários de Fazenda para criar um arcabouço fiscal com segurança jurídica para que o gás possa circular entre os diferentes estados.

Quando deve sair essa regulação da estocagem?
Muito provavelmente ainda este ano.

E qual é o plano de expansão da empresa?
O modelo futuro das empresas será o de energia integrada, um hub energético. A médio e longo prazos, queremos ser uma solução completa de oferta de energia. Vamos criar um parque termelétrico com capacidade de gerar 300 megawatts para participar nos próximos leilões. Um investimento entre U$$ 80 milhões e US$ 100 milhões.

Também temos investimentos previstos em estocagem e na interiorização do gás natural liquefeito nos próximos três anos, da ordem de US$ 350 milhões a US$ 400 milhões. A partir de Alagoas, vamos atender de uma maneira muito competitiva em um raio de 700 quilômetros. Isso é quase o Nordeste inteiro. Em fevereiro de 2023, vamos perfurar um poço para demarcação de uma potencial zona de gás nunca explorada pela Petrobras.

E qual é o plano de expansão de capital?
Temos planos de crescimento em outros segmentos que vão demandar capital. Talvez no ano que vem a gente busque acesso à capital para desenvolver esse plano de negócio por meio de um IPO. Há um mar de oportunidades a ser explorado. Então, trazer capital de boa qualidade para acelerar estes projetos é de total interesse da companhia.

O processo eleitoral afeta a decisão de investimento?
Independentemente de quem estiver na linha de comando e sua ideologia, será preciso que a energia seja gerada e distribuída no Brasil de maneira eficiente. Seja um novo governo que ganhe ou um governo que parta para uma recondução, começa uma agenda desenvolvimentista, que pressupõe a abertura de investimento. Um dos grandes benefícios institucionais que a gente teve na nossa nova democracia, que é jovem, foi a criação das agências regulatórias independentes.

E de que forma a discussão dos preços da Petrobras atrapalha o desenvolvimento das iniciativas privadas?
A questão do preço é tratada de uma maneira muito mais política do que técnica. E isso se potencializa em ano eleitoral. Após as eleições, você sai de uma discussão política, em que a Petrobras é utilizada com objetivos políticos, e começa a se acomodar na discussão mais técnica, como deveria ser. A gente caminha para um ambiente em que certamente, independentemente de quem lá esteja, vai se defender uma maior abertura do mercado e uma maior atratividade de investimentos para reduzir a dependência dos combustíveis internacionais. E aí você começa a ter uma abertura e atratividade de investimentos que vão diminuir o poder da Petrobras acerca do controle de preços.

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