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11 de setembro de 2026 04:10

Do Recife para 15 países: a startup que transformou a trilha sonora das lojas em máquina de vender

Do Recife para 15 países: a startup que transformou a trilha sonora das lojas em máquina de vender

Nove anos sem investimento externo, um catálogo musical próprio e uma plataforma de dados foram os ingredientes que a Musique usou para sair do Nordeste e chegar a mais de 5 mil pontos de venda ao redor do mundo

Por muito tempo, a música dentro de uma loja foi tratada como um detalhe: algo para preencher o silêncio enquanto o cliente circula entre as prateleiras. No entanto, a pernambucana Musique nasceu para desafiar essa ideia. Fundada pelo administrador André Domingues, a empresa transformou o áudio ambiente em uma ferramenta de retail media, inteligência de negócios e redução de custos, e hoje está presente em 15 países, da América Latina ao Sudeste Asiático.

Depois de deixar um emprego em uma multinacional para cursar um MBA no Reino Unido, Domingues voltou ao Brasil e passou cerca de três meses tentando se recolocar no mercado sem sucesso. “Foi quando percebi que precisava criar meu próprio caminho – apesar de, até então, nunca ter pensado em ser empreendedor e nem ter referências de empreendedorismo na família”, conta.

Foi o contato com uma empresa de Cingapura especializada em música para espaços comerciais que despertou a ideia. Domingues começou a estudar marketing sensorial e neuromarketing, e passou a defender uma tese: a música dentro de um espaço físico poderia influenciar a experiência do consumidor, reforçar o posicionamento de marcas e, principalmente, gerar resultados mensuráveis. Nascia a Musique.

Bootstrap como método

Diferentemente de boa parte das startups de tecnologia, a Musique cresceu quase uma década sem aporte externo. “Passamos os primeiros nove anos da empresa em bootstrap, sem investimento externo, aprendendo com o mercado, desenvolvendo nossa tecnologia e reinvestindo o que gerávamos no próprio negócio”, afirma o fundador. Para ele, essa resiliência foi um dos fatores mais importantes para a empresa chegar até aqui.

O ecossistema de inovação pernambucano passou a ganhar peso na trajetória apenas nos últimos dois anos, com instituições como o Sebrae e o Governo de Pernambuco atuando principalmente na criação de conexões para expandir a presença da empresa fora do estado e internacionalmente. O marco mais recente veio em 2025, quando a Musique recebeu o primeiro investimento externo de sua história, da HiPartners, fundo paulista especializado em retail tech. “Depois de nove anos crescendo com recursos próprios, a entrada de um investidor com capital, conhecimento e conexões dentro do nosso próprio mercado ajudou a acelerar a profissionalização e a escala da empresa”, diz Domingues. Na avaliação do executivo, a origem nordestina é parte da identidade da companhia, mas a trajetória prova que “é possível construir, a partir do Nordeste, uma empresa de tecnologia com atuação nacional e internacional”.

André Domingues, CEO e Fundador da Musique | Foto: assessoria de imprensa

O produto da Musique vai muito além de tocar playlists, uma vez que a plataforma centraliza a gestão de áudio de milhares de lojas e permite definir o que será comunicado, em quais unidades, regiões, dias e horários; criando, segundo Domingues, “uma camada de inteligência sobre aquilo que o consumidor escuta dentro do espaço físico”. Na prática, o sistema de som da loja vira um novo inventário de mídia: o varejista pode usá-lo para promover seus próprios produtos ou vender espaços publicitários para marcas parceiras, com campanhas segmentadas.

Um dashboard acompanha a ativação de cada unidade da rede “dia a dia, hora a hora e até minuto a minuto”, o que permite cruzar os dados de execução das campanhas com indicadores como vendas e fluxo de clientes. Os resultados, segundo a empresa, aparecem de forma concreta: campanhas de áudio já geraram aumento de até 20% nas vendas de produtos específicos, enquanto a reformulação da estratégia sonora em uma rede de restaurantes elevou em 9% o tempo médio de permanência dos clientes e em 12% o NPS da marca.

Há também uma frente de economia direta: a empresa possui catálogo próprio de música, com direitos autorais licenciados diretamente aos clientes – uma alternativa ao modelo tradicional de arrecadação coletiva. Segundo Domingues, essa estratégia já gerou “uma economia superior a R$ 2 milhões por ano” só com direitos autorais para os clientes da empresa. A produção de conteúdo em áudio também foi automatizada com inteligência artificial, incluindo locuções geradas por IA, o que reduz custos com estúdios e locutores e permite criar e distribuir uma campanha “em questão de minutos”.

Internacionalização puxada pelos próprios clientes

A expansão para fora do Brasil começou em 2020, em plena pandemia, pela Colômbia – puxada pela Volvo, cliente global que já usava a Musique no Brasil e decidiu replicar a experiência sonora padronizada em suas unidades latino-americanas. A partir daí, a mesma montadora indicou a empresa pernambucana para operações em outros continentes, o que levou a Musique ao Vietnã e, na sequência, a outros mercados do Sudeste Asiático e da Oceania.

Um detalhe chama atenção: a empresa não mantém operação comercial própria em nenhum outro país além do Brasil. “Nossa internacionalização aconteceu principalmente dentro dos próprios clientes globais: construímos um case de sucesso no Brasil e esse resultado abriu as portas para outras operações da mesma companhia ao redor do mundo”, explica Domingues. Agora, a meta é inverter essa lógica e buscar programas de aceleração fora do país para conquistar novos mercados de forma direta, e não apenas reativa.

É nesse cenário que a empresa projeta um crescimento de 300% em 2026, sustentado, segundo o fundador, pela combinação entre uma tecnologia já validada em grandes redes, o acesso ampliado ao mercado trazido pela HiPartners e a expansão dentro da própria base de clientes, quando uma operação-piloto em uma unidade avança para centenas de lojas, novas marcas ou outros países.

Para Domingues, o retail media em áudio ainda está em uma fase inicial se comparado ao digital, mas tende a crescer justamente por não competir pela atenção visual do consumidor. “A música ajuda a construir o contexto e o estado de espírito daquele ambiente; a comunicação entra no momento adequado; e o retail media transforma esse canal em um ativo também capaz de gerar receita”, resume. Nascida em Pernambuco e hoje presente em mais de 5 mil estabelecimentos pelo mundo, a Musique aposta que o próximo capítulo de sua história será escrito fora das fronteiras dos clientes que a levaram até aqui.

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