
Empreender tem sido um dos caminhos para a autonomia de milhares de brasileiras. Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) revelam o crescimento desse protagonismo no Nordeste, região que concentrou 28% do crédito liberado pelo Fampe Mulher em 2025.
O crédito com garantia do Fampe Mulher tem sido uma ferramenta estratégica para ampliar o acesso das empreendedoras ao sistema financeiro. O diretor-superintendente do Sebrae em Alagoas, Domício Silva, explica que, na prática, esse recurso permite organizar o fluxo de caixa, investir em capital de giro, ampliar estoques, modernizar processos e tornar os negócios mais competitivos.
“O crédito com garantia também reduz barreiras históricas de acesso ao crédito, especialmente para mulheres que muitas vezes não possuem garantias reais para apresentar às instituições financeiras. Isso gera mais autonomia, segurança e capacidade de crescimento sustentável”, destaca Domício.
Outro ponto ressaltado pelo gestor é a forte presença feminina nas capacitações promovidas pelo Sebrae. Segundo ele, as mulheres demonstram postura ativa na busca por qualificação. “Elas entendem que o conhecimento é uma ferramenta estratégica para reduzir riscos e aumentar as chances de sucesso do negócio.”
Além disso, dados da instituição indicam que mulheres apresentam índices de inadimplência abaixo da média nacional, o que reforça um perfil marcado por responsabilidade financeira, planejamento e compromisso com os contratos assumidos.
Esse comportamento é considerado um indicador relevante para o sistema financeiro e pode influenciar a formulação de futuras políticas de crédito, com condições mais favoráveis, ampliação de limites e fortalecimento de linhas específicas para o público feminino. Assim, investir em mulheres empreendedoras deixa de ser apenas uma pauta social e se consolida como uma estratégia econômica consistente.
A empreendedora Aline Barbirato, proprietária de uma clínica de estética em expansão no estado, é um exemplo desse movimento. No ano passado, ela deixou de atuar como Microempreendedora Individual (MEI) e passou a ser Microempresa (ME). O crédito obtido contribuiu para essa transição e para a ampliação do negócio. Agora, além dos serviços estéticos, Aline também atua na área educacional, oferecendo cursos e palestras.
Já Fábia Soares, dona de um salão de beleza no bairro Jacintinho, em Maceió/AL, utilizou o crédito para adquirir produtos, participar da missão empresarial Beauty Hair e ampliar as vendas no salão. Segundo ela, o financiamento de R$ 15 mil representou um avanço significativo para o empreendimento, especialmente no faturamento, que segue em crescimento.

Somente no ano passado, foram liberados cerca de R$ 30 milhões em crédito com garantias do Fampe em Alagoas. A linha específica voltada para mulheres registra uma taxa de inadimplência muito baixa, próxima de 0,37%. Apenas em 2025, o crédito destinado ao empreendedorismo feminino já movimentou R$ 10.510.158,43 no estado.
O economista Fábio Leão, analista do Sebrae-AL e ex-diretor de Desenvolvimento e Projetos da Desenvolve, reforça a importância do programa para a ampliação do acesso ao crédito por MEIs e micro e pequenas empresas.
“Chegamos a R$ 298 milhões em crédito em pouco mais de um ano. O Fampe Mulher Empreendedora cobre 100% da operação, desobrigando as mulheres de apresentar garantia real, avalista ou fiador para acessar o crédito”, frisa.
Benefício fiscal impulsiona autonomia feminina
Em Alagoas, uma política tributária diferenciada também contribui para fortalecer o empreendedorismo feminino. Atualmente, mais de 45 mil empreendedores que atuam com vendas diretas de cosméticos são beneficiados, sendo cerca de 31,5 mil mulheres, o equivalente a 70% desse público.
Desde 2017, a Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz-AL) reduz a carga tributária do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS-ST) nas operações de vendas diretas, realizadas no modelo porta a porta.
A medida reflete uma política pública que reconhece e valoriza a contribuição das mulheres para o desenvolvimento econômico local. Além de ampliar oportunidades, o canal da venda direta favorece a inclusão social e a geração de renda para milhares de famílias.
Com a tributação diferenciada, promove-se maior justiça fiscal e social, com benefícios diretos e indiretos para famílias que utilizam a venda direta como meio de sustento, especialmente entre as classes C, D e E.
O gerente jurídico da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), Thiago Fraga, que participou das discussões com a equipe da Sefaz-AL, destaca o impacto social da iniciativa.
“A determinação de Alagoas demonstra sensibilidade com os empreendedores locais e cria um ambiente mais atrativo para novas empresas. O fato de não haver aumento de imposto é extremamente significativo para quem empreende”, afirma.
Para a consultora de vendas Vitória Bezerra, que atua há cerca de dois anos no setor, a medida representa um incentivo importante para quem busca crescimento no segmento.

“Sou profundamente grata por essa iniciativa. Reduzir a carga tributária alivia um peso enorme para quem trabalha com vendas diretas e abre portas para novas oportunidades de crescimento”, comemora.
Vendas diretas
As vendas diretas constituem um sistema de comercialização de produtos e serviços baseado no relacionamento entre empreendedores independentes e seus clientes. O modelo se destaca pela flexibilidade de horário, autonomia no trabalho e pela possibilidade de atuação mesmo sem experiência anterior.
No Brasil, cerca de 3,5 milhões de empreendedores independentes obtêm renda com esse tipo de atividade, a maioria mulheres, segundo estudo da ABEVD. Aproximadamente 80% da força de vendas pertence às classes C, D e E.
O setor movimentou cerca de R$ 45 bilhões em volume de negócios em 2023, evidenciando seu impacto social e sua contribuição para o dinamismo econômico em diversas regiões do país.