O Brasil chegou a mais de 800 parques eólicos em operação comercial, somando além de 25,04 gigawatts de capacidade instalada e beneficiando cerca de 108,7 milhões de habitantes. Desse total, 85% dos parques estão no Nordeste, a região que, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), deve puxar o país a 44,78 GW de capacidade eólica até 2028, o equivalente a 13,2% de toda a matriz energética nacional.
Os números colocam a região no centro do maior ciclo de investimento privado das últimas décadas. Mas produzir a energia não tem significado, automaticamente, reter a riqueza que ela gera. Esse descompasso entre ser a fonte do recurso e ficar de fora dos seus benefícios mais relevantes deixou de ser um debate técnico e virou tema de campanha: candidatos a governador em vários estados nordestinos já são cobrados sobre royalties, geração de empregos locais e o papel do Estado na cadeia produtiva da energia limpa.
O preço que as comunidades pagam
A expansão dos parques eólicos no semiárido nordestino tem um lado pouco visível nos anúncios de investimento. Pesquisas mostram que comunidades no Agreste de Pernambuco relatam contratos de arrendamento de até 30 anos assinados sob promessas, de geração de emprego, de ausência de ruído, de posto de saúde, que nem sempre se cumprem. Moradores relatam ainda impactos na saúde associados à proximidade das torres, como zumbido, insônia e quadros de ansiedade.
Levantamentos recentes indicam que o problema não se restringe aos parques eólicos em si. De acordo com o Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB), que cruzou dados do relatório Transição Desigual sobre a extração de minerais usados na cadeia da transição energética, os estados nordestinos com mais registros de conflitos relacionados a esse tipo de mineração entre 2020 e 2023 foram Alagoas, Bahia e Ceará. Em abril deste ano, um seminário promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Alagoas reuniu relatos de comunidades quilombolas, indígenas e de agricultores familiares atingidas por um complexo eólico de 264 megawatts na Serra do Parafuso, cuja licença prévia foi concedida em janeiro de 2025; o encontro terminou com o encaminhamento de denúncias formais a órgãos federais e estaduais.
Para Ricardo Baitelo, Doutor em planejamento energético e gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), esses impactos podem ser organizados em dois grandes eixos. “Os ambientais estão mais relacionados a alterações do meio aéreo, de água e do solo. No caso da água, a gente tem um uso que compete entre as usinas e atividades vitais para as comunidades. E no caso do solo, principalmente, a alteração do local próximo às moradias para a construção dessas obras, e a supressão vegetal e a consequência que isso tem para atividades econômicas que são relevantes à comunidade, como diferentes tipos de plantios que precisam ser deslocados ou acabam sendo inviabilizados”, explica.

Alagoas – conflitos registrados: 29
Bahia – conflitos registrados: 25
Ceará – conflitos registrados: 14
Da pauta técnica ao palanque
O volume de recursos direcionados à região ajuda a explicar por que o tema ganhou peso eleitoral. Dados do Fundo Clima, gerido pelo BNDES em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, mostram que o crédito aprovado para projetos sustentáveis no Nordeste saltou de R$ 51 milhões em 2022 para R$ 1,8 bilhão em 2024, um crescimento de 36 vezes em dois anos, segundo o OPEB. A região também atrai projetos industriais bilionários: só no Rio Grande do Norte, iniciativas de hidrogênio verde somam cerca de R$ 12 bilhões em investimentos anunciados, segundo o portal Eixos.
Ainda assim, o mesmo levantamento do OPEB aponta que os elos mais valiosos da cadeia produtiva (produção industrial de equipamentos, domínio tecnológico, propriedade intelectual e as decisões sobre o uso prioritário da energia gerada) continuam concentrados fora do Nordeste. E há sinais de contradição na própria política energética federal: o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 destinou cerca de 19 GW a fontes fósseis, e o Nordeste, “berço das renováveis”, liderou a contratação dessas novas usinas térmicas.
É nesse contexto que a transição deixou de ser um assunto de especialistas. “Se fala há um bom tempo que a transição energética tenha estourado a bolha de um assunto que é importante só para quem acompanha o setor de energia (…) então com certeza ele não é mais um tema técnico, ele é uma questão política. Isso é percebido pelos governos, tanto federal quanto estadual: no seu programa político é essencial você falar da transição e das potencialidades do Brasil”, avalia o gerente de projetos do IEMA. Segundo ele, os conflitos fundiários e as denúncias de impactos ambientais também têm potencial de desgaste político, não só para os governos estaduais, “que estão intermediando a relação entre as comunidades e os órgãos que aprovam os licenciamentos”, mas também para o governo federal, responsável por organizar o processo de escuta e licenciamento.
Para o pesquisador, a expectativa é que a cobrança sobre os candidatos a governador venha, sobretudo, das populações diretamente afetadas: “a população que é afetada em maior ou menor grau por esses projetos vai cobrar melhores processos de interação com as empresas e de reivindicação tanto de direitos quanto de condicionantes, para que os próximos empreendimentos não tenham a repetição de alguns traumas que aconteceram (…) em relação à escuta das comunidades.”
O olhar de quem vive ao lado da torre eólica
Se para o eleitorado urbano a transição energética é, muitas vezes, um tema abstrato, associado a metas climáticas ou preço da conta de luz, para quem mora perto de um parque eólico ou solar ela é uma experiência concreta e cotidiana. Em depoimento à Sinteal/CUT, a secretária nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da entidade, Jandyra Uehara, resumiu esse descompasso ao afirmar que a cobertura da grande mídia costuma deixar de fora o relato de quem, segundo ela, sofre os efeitos da expansão das renováveis no território.
Essa diferença de perspectiva também aparece na leitura do IEMA sobre o comportamento do eleitor. “O eleitor que está nas comunidades e vive os impactos dos empreendimentos têm demandas diferentes do eleitor dos grandes centros urbanos. Eles são os grandes consumidores de energia para diferentes usos finais, muitos se surpreendem quando têm acesso ao ciclo da energia como um todo”, diz o pesquisador. Já quem vive ao lado de um empreendimento, avalia, tem uma demanda “mais urgente”, inclusive porque sabe que a expansão eólica e solar deve continuar, e possivelmente se acelerar, nos próximos anos. “Quem não é vizinho de algum parque eólico ou solar, possivelmente vai ser. Então, com certeza, essas comunidades têm se organizado, têm participado dos processos de consulta e audiência pública.
Para o instituto, reverter o padrão de conflitos depende de decisões que os próximos governos estaduais ainda vão tomar. A organização participa, ao lado da iniciativa Nordeste Potência, da elaboração de cadernos de salvaguardas sociais e ambientais para empreendimentos eólicos, solares e, futuramente, linhas de transmissão. “O que a gente recomenda é exatamente a questão do processo ser um processo justo. Que a gente tenha implantadas e contempladas mais salvaguardas sociais e ambientais que possam trazer direitos a essas populações e que sejam observados os critérios de representação, de escuta e de contratos que sejam justos”, resume o pesquisador. Na síntese de Baitelo, o ponto central é garantir “a participação da comunidade de uma maneira mais ativa e mais preliminar no processo”, para que ela possa discutir o que está em jogo antes que as obras cheguem.
Como medir se a transição é justa

“Não existe uma única resposta para delimitar o que deve estar incluído, mas, em linhas gerais, sem dúvida nenhuma, os indicadores socioeconômicos devem ser centrais”, afirma o representante do instituto.
O que está em jogo em 2026
O resultado das eleições estaduais deste ano vai definir quem conduz, nos próximos quatro anos, o principal ciclo de investimento privado já visto na região. Os dados mostram um Nordeste que produz cada vez mais energia e atrai cada vez mais capital, mas que também segue concentrando conflitos fundiários, denúncias de violação de direitos e uma cadeia de valor cujos elos mais lucrativos permanecem fora do mapa regional.

