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29 de outubro de 2026 16:39

Equipamento movido a energia solar retira sal da água no Sertão da Paraíba

Equipamento movido a energia solar retira sal da água no Sertão da Paraíba

Protótipo da UFPB reduziu em 90,5% os sais da água salobra em 30 dias de teste em Cajazeiras, com custo estimado de R$ 7,5 mil; o preço de cada litro só será calculado em fases futuras
Foto: Agência Pública

Um equipamento movido a energia solar para tratar água salobra, aquela com excesso de sal, foi testado no Sertão da Paraíba e reduziu em 90,5% a concentração de sais dissolvidos. O dessalinizador térmico automático, que usa o calor do sol, foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e pensado para comunidades isoladas, onde a estiagem faz as fontes de abastecimento encolherem.

No semiárido paraibano, o efeito da estiagem é visível nos açudes, reservatórios que estão entre as principais fontes de água da população. Eles seguem o regime das chuvas e baixam quando a seca chega: em agosto, por exemplo, segundo levantamento feito com base em dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa), quatro estavam completamente secos e outros 18 tinham menos de 10% da capacidade. Nesses meses, ganham importância as fontes alternativas, como a água subterrânea, que, quando salobra, precisa passar por dessalinização, ou seja, pela retirada do sal, antes de ser usada.

A solução desenvolvida pelos pesquisadores nasceu de outro uso do calor do sol. Segundo o professor Adriano da Silva Marques, do Departamento de Engenharia de Energias Renováveis da UFPB e um dos inventores, a ideia surgiu da adaptação de um fogão solar, aparelho que cozinha alimentos e que funcionava com um concentrador parabólico, estrutura que direciona a luz para aquecer. Para testar o conceito, a equipe montou um protótipo com materiais acessíveis. A pesquisa ganhou corpo no Programa de Pós-Graduação em Energias Renováveis da universidade, que informa já ter pedido de patente, registro cujo objetivo é proteger a invenção, depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

O funcionamento reproduz o ciclo da chuva: o concentrador esquenta a água salobra; ela evapora, o sal fica para trás e o vapor, ao passar pelo condensador, volta a ser líquido. O calor é o principal “ingrediente” do protótipo, mas o equipamento também usa um pouco de eletricidade: ela alimenta os motores que giram o concentrador para mantê-lo apontado para o sol ao longo do dia. Sem essa eletricidade, a dessalinização continua, porém o concentrador fica parado, e o aparelho passa a aproveitar bem a luz solar apenas quando ela incide na posição em que se encontra, o que reduz o rendimento. Segundo Marques, o consumo é mínimo.

O que os testes mostraram

Em Cajazeiras, no Alto Sertão da Paraíba, funcionou por 30 dias, das 6h às 18h, e produziu de 3,8 a 6 litros de água por dia, conforme a intensidade do sol. Nos testes, a concentração de sais dissolvidos caiu 90,5%. O professor ressalva, no entanto, que esses resultados vêm de um espaço amostral reduzido, ou seja, de uma amostra pequena, dentro do cronograma de uma pesquisa de mestrado.

Mesmo com essa ressalva, os resultados levam à pergunta que interessa a quem vive no semiárido: quanto custa ter um equipamento desses? A equipe estima em R$ 7,5 mil o custo do protótipo construído, valor que corresponde majoritariamente à compra de materiais. A conta não inclui os dosadores que fariam a remineralização, etapa que devolve minerais à água dessalinizada e é necessária para que ela atenda aos padrões de potabilidade, isto é, fique própria para beber. Essa fase não estava entre os objetivos iniciais e será tema de pesquisa de outro pós-graduando.

O custo de montagem, porém, não é o único fator: também pesa quanto tempo o dessalinizador dura. Os principais componentes, o concentrador parabólico e o absorvedor de energia térmica, peça que absorve o calor do sol e onde o sal se acumula, têm vida útil estimada entre 3 e 5 anos, prazo que o professor considera curto por se tratar de um protótipo. Nesse intervalo, o absorvedor precisa de limpeza periódica. Os testes em campo revelaram outros pontos a corrigir: proteger motores e sensores do vento forte e da chuva, melhorar a eficiência do absorvedor e substituir mangueiras e tubos por sistemas atóxicos.

Com tantos ajustes pela frente, o dado mais esperado, o custo de cada litro, ainda não existe. Isso porque, segundo o inventor, o projeto está entre os níveis 5 e 6 de maturidade tecnológica, escala de 1 a 9 que mede o quanto uma tecnologia está perto do uso real, e esse cálculo só será feito nos níveis 8 ou 9. A iniciativa é recente: o protótipo começou a ser desenvolvido em fevereiro de 2025 e demanda novas etapas de teste e aprimoramento.

Do protótipo às comunidades

Enquanto a tecnologia da UFPB amadurece, a técnica de dessalinização já funciona em comunidades paraibanas, mas por outro caminho: o Programa Água Doce, iniciativa do governo federal executada na Paraíba pelo governo estadual. Procurada, a Aesa indicou o coordenador estadual do programa, Robi Tabolka dos Santos, que enviou um balanço da iniciativa: 101 sistemas implantados em 44 municípios, que atendem 30.737 pessoas e produzem, em média, 300 mil litros de água por dia.

A diferença entre os dois projetos está na escala e no estágio de desenvolvimento. O programa público já opera com sistemas comunitários em larga escala para atender localidades rurais. Já o protótipo da UFPB é uma alternativa tecnológica para essas mesmas comunidades isoladas, mas ainda está em fase de pesquisa: nos testes, produziu de 3,8 a 6 litros por dia, o que dá a medida do caminho que ainda separa a pesquisa do uso cotidiano.

Os números, porém, mostram só parte da história: a experiência do programa indica que instalar é apenas o começo. O material aponta como um dos maiores desafios contribuir com a criação de estruturas permanentes de gestão, que cuidem dos sistemas depois de instalados. O convênio que financiou a implantação, de R$ 25,7 milhões, terminou em 2024, e há novos repasses previstos até 2028, mas a coordenação não detalhou, até o fechamento da publicação, os custos atuais de instalação e manutenção de cada unidade.

Enquanto o Água Doce contou com financiamento público para ganhar escala, o protótipo da UFPB ainda depende de aporte para avançar. O professor conta que há conversas periódicas com possíveis interessados, mas nenhuma chegou ao ponto de iniciar um projeto de desenvolvimento. Um dos obstáculos é encontrar um parceiro disposto a investir em pesquisa, custeando bolsas para professores e alunos.

O impasse, portanto, é de duas pontas. O custo de cada litro, que permitiria saber se uma família isolada poderia um dia ter o seu, só aparece quando a tecnologia alcançar os níveis mais altos de maturidade. E chegar até lá depende do investimento que ainda não veio. No semiárido, a luz do sol é o que não falta. O que falta é quem financie o caminho entre o protótipo e a casa de quem precisa de água.

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