Enquanto o governo do Piauí exibe R$ 44,7 bilhões em investimentos anunciados para energia renovável, hidrogênio verde e data centers como o grande cartão de visitas da campanha eleitoral, mais de 100 municípios convivem com a escassez de água e agricultores familiares relatam contratos de arrendamento que colocam em risco a terra e a produção de suas famílias. Afinal, o avanço da energia limpa está transformando a vida no campo — ou apenas empurrando seus custos para quem já tem menos?
Para responder a essa pergunta, Investindo Por Aí conversou com José dos Santos, o “Cardoso”, secretário de Política Agrária da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Piauí (FETAGPI). Com quatro décadas de vivência no movimento sindical e na base do semiárido, Cardoso faz um balanço sem meias-palavras: reconhece avanços reais nas políticas de convivência com a seca, mas alerta para o desequilíbrio na geração de empregos, os contratos “armadilha” de arrendamento de terra e a distribuição de água que, segundo ele, é o verdadeiro gargalo do estado — não a falta do recurso em si.
Confira a seguir uma versão editada e condensada da entrevista.
1. Secretário, o Piauí está no meio de uma campanha eleitoral. De um lado, o governador Rafael Fonteles coloca os R$ 44,7 bilhões em investimentos de energia renovável como o grande troféu de sua gestão. Do outro, a oposição diz que isso é “propaganda” diante de mais de 100 municípios em colapso hídrico. Qual dessas duas realidades pesa mais na vida do eleitor rural hoje?

O Piauí é um estado que tem bastante água — o que falta é distribuição. São poucos municípios que não têm água em abundância. Nas comunidades, bastante poços artesianos cavados, só que tem uma política ruim de distribuição. A energia renovável precisa melhorar na maneira que está sendo implantada, porque não beneficia a classe mais pobre. A gente reconhece que é investimento preciso, só precisa melhorar essa questão social. Por exemplo, o Piauí já gera, entre energia solar e eólica, o suficiente para baixar o preço da energia, e esses preços não baixaram. Por quê? Porque essas energias são implantadas através de grandes corporações e o lucro não é dividido: o sistema chega a se desligar com energia sobrando, e as contas das partes mais pobres continuam altas. Mas, no fim, o que pesa mais é a falta d’água nos municípios. Resumindo: os R$ 44 bilhões em energia renovável seriam muito mais legais se parte desse dinheiro fosse usada na distribuição de água para os municípios com escassez.
2. O discurso oficial do governo foca em atrair gigantes globais de tecnologia (datacenters) e hidrogênio verde. O senhor teme que essa “vitrine tecnológica” sirva para o governo mascarar o atraso histórico na infraestrutura hídrica e social do semiárido durante o debate eleitoral?
Com o tempo de vivência que a gente tem no semiárido, o certo seria que, ao mesmo tempo que atraísse as empresas de hidrogênio verde e de tecnologia de data center, o governo fosse tratando também a questão hídrica. Seria bem melhor. Mesmo no semiárido a gente tem água em abundância; falta é distribuir melhor. E, falando nas políticas de convivência com o semiárido, o governo — mesmo de uma maneira um pouco lenta — está investindo bastante na construção de cisternas, tecnologia social que ameniza muito essa convivência. Seria muito melhor se investisse mais em distribuição do que nas gigantes de hidrogênio verde.
3. Com sua experiência de quatro décadas no movimento sindical, o senhor avalia que o Piauí corre o risco de virar um estado “rico com povo pobre”, onde os indicadores econômicos de energia sobem para a campanha, mas a qualidade de vida no campo continua estagnada?
Eu gostaria muito que essa modalidade de pouca gente ter boa qualidade de vida e a maioria ter má qualidade de vida fosse só no Piauí, porque o restante do Brasil estaria bem melhor. Mas essa modalidade de capitalismo, infelizmente, é no Brasil inteiro: poucas pessoas detêm a riqueza do país. Os indicadores do Piauí têm até melhorado um pouco, em educação e renda, em relação a governos anteriores. Ainda assim, o risco de virar um estado rico para poucos e difícil para a maioria existe, sim — porque o sistema atende mais ao capital do que à população. Isso ocorre no Brasil todo, não só no Piauí, mas o risco está posto.
4. O governo projeta 120 novos empreendimentos captados. Nas conversas do sindicato com as bases no interior, o trabalhador rural sente que esses investimentos de fato geram emprego e renda local, ou o que chega na ponta são apenas as promessas de palanque?
Os grandes empreendimentos geram emprego na base, mas sem continuidade. Na agropecuária, especificamente, o emprego é temporário — no desmatamento e no preparo inicial da terra. Depois, a geração de emprego cai muito, porque as máquinas substituem a mão de obra humana. E, para ser claro: o subsídio que essas empresas recebem é muito maior do que o emprego que geram.
5. A oposição vem batendo forte na tecla da precariedade. O senhor acredita que a cobrança por água encanada e segurança climática virou a principal munição eleitoral contra a hegemonia do PT no estado, ou a oposição também só lembra do semiárido de quatro em quatro anos?
A cobrança da oposição é sempre válida — um governo sem oposição sadia dificilmente faz algo pelos menos favorecidos. Mas o sistema político do Piauí não é diferente do resto do Brasil. Os estados do Nordeste têm uma questão climática parecida, e seja situação ou oposição, nunca de fato quiseram atacar a raiz do problema. Porque a convivência com o semiárido não se resolve com carro-pipa: se resolve com tecnologia social — construção de cisterna, de barraginha, captação de água subterrânea. E aqui eu falo sem camisa de partido, porque vivo isso na base: foi exatamente nos governos atuais que mais se construiu e se aplicou essa tecnologia social. Hoje é o PT; amanhã pode entrar outro partido e vai continuar na mesma — todos olhando mais para o próprio umbigo do que para as causas estruturantes do estado. Ainda assim, a convivência com o semiárido está bem melhor agora do que antes: tem bastante construção de cisterna e perfuração de poço com financiamento do próprio estado. Não é uma solução perfeita — cavar poço desordenadamente também agride o meio ambiente —, mas na questão hídrica estamos indo mais ou menos bem. O problema mesmo é distribuição: às vezes um município tem água em abundância e o vizinho não tem nada.
6. Para que o governo entregue os 9 GW de capacidade e atraia mais empresas, a expansão de painéis solares e torres eólicas sobre o território rural precisa ser acelerada. Essa pressa eleitoral e econômica do governo para mostrar resultados tem atropelado os direitos e as terras da agricultura familiar?
Sem dúvida. A expansão da energia eólica e solar em terras da agricultura familiar impacta, e muito, a produção agrícola e o êxodo rural. As empresas não fazem escutas bem-feitas: iludem os agricultores com contratos. Quem habita a maioria dessas terras são pessoas aposentadas, e quando as empresas chegam com um contrato, elas se iludem e esquecem a sucessão rural dos filhos. São contratos com prazos exaustivos — de 40, 50 anos —, que a maioria não lê direito e que, uma vez assinados, impedem os filhos de produzir seu próprio alimento. Isso impacta diretamente a produção agrícola da agricultura familiar. E tem mais: a energia eólica causa distúrbio nos animais e nos seres humanos — inquietação, ansiedade, desvio de rota de aves, afugentamento de espécies acostumadas ao seu habitat — por causa do ruído. Quando isso é feito atropeladamente, sem escutar as comunidades, sem debate com a sociedade, tende a provocar o êxodo rural.
7. Os contratos de arrendamento de terras para energia limpa continuam sendo uma armadilha jurídica para muitos pequenos produtores. Falta fiscalização do atual governo e dos órgãos ambientais para proteger o homem do campo da ganância dessas grandes corporações multinacionais?
Esse arrendamento de terra para as grandes empresas impacta diretamente a produção, porque os contratos são muito longos, o que inviabiliza a produção dessas famílias. Sem um acompanhamento jurídico que explique de fato o que estão assinando, tanto para energia solar quanto eólica, esses contratos acabam provocando o êxodo rural e criando um risco para a segurança alimentar.
8. Cidades como Uruçuí e Corrente sofreram o impacto severo de enchentes, enquanto o semiárido seca. Os planos de governo dos candidatos ao Karnak apresentados até agora trazem soluções reais de adaptação climática para a agricultura familiar ou tratam o clima apenas como uma fatalidade da natureza?
Não é só Uruçuí que sofre com enchentes: Corrente e Bom Jesus sofrem com calor exaustivo, que chega a 40 graus. Mas isso não é específico do Piauí — acontece no Rio Grande do Sul, no Tocantins, no Maranhão. Porque todo governador, em todo estado brasileiro, está adaptado a um sistema capitalista que não olha para o clima e só se importa com o lucro. Para mudar essa situação, no Piauí ou em qualquer outro estado, precisaríamos ser mais socialistas, mais humanos, e melhorar um pouco esse sistema capitalista que é cruel.
9. Se o senhor estivesse frente a frente com o governador Rafael Fonteles e com o candidato da oposição, Joel Rodrigues, qual seria a cobrança inegociável da FETAGPI para fechar o apoio da federação neste ano?
Se eu tivesse a chance de estar frente a frente com os dois candidatos, tanto da situação como da oposição, pediria a eles que olhassem para o modo de produção que o Piauí precisa adotar: agroecológico, com menos impacto e menos uso de defensivos agrícolas. Que as energias renováveis fossem produzidas no estado através de cooperativas e associações — não por grandes empresas. Priorizar o sistema de produção agroecológico, a distribuição igualitária de água, e energias renováveis geradas por cooperativas, e não por corporações que levam o recurso do Piauí inteiro para fora, como China, Alemanha e Inglaterra.
