
O Semiárido do Piauí está se tornando um novo polo de produção de jaborandi, planta nativa de áreas úmidas da Amazônia e matéria-prima para medicamentos contra o glaucoma e outras doenças. Em Parnaíba, uma variedade adaptada ao clima seco é cultivada em condições controladas por meio de um projeto desenvolvido pela Centroflora, com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e do Senai. Desde o início, a iniciativa já recebeu R$ 2,5 milhões em investimentos.
O objetivo é aumentar a produtividade e elevar a concentração de pilocarpina, alcaloide de alto valor farmacêutico. Para isso, os pesquisadores reproduzem no cultivo controlado condições semelhantes às encontradas no ambiente natural da espécie. O manejo exige controle rigoroso de temperatura, irrigação e características do solo.
Estruturas com sombrite reduzem em 50% a intensidade da luz solar e criam um ambiente mais favorável ao desenvolvimento das plantas. A pesquisa também investiga a microbiota do solo, já que a comunidade de microrganismos presente em áreas nativas é diferente daquela encontrada em cultivos domesticados.
Após a colheita, as folhas passam por um processo industrial que envolve controle de temperatura, pressão e uso de solventes. Em laboratório, equipamentos como o HPLC medem a concentração de pilocarpina e identificam possíveis resíduos.
Com alto grau de pureza, a substância é exportada para pelo menos 80 países, incluindo Estados Unidos, China, Japão, Coreia do Sul e países europeus. Seu principal uso é na produção de colírios para o tratamento do glaucoma.
A cadeia também envolve extrativistas da região Norte, que coletam o jaborandi em áreas nativas sob práticas de manejo sustentável. Para os pesquisadores, a iniciativa demonstra como a integração entre agronomia, biologia, química e biotecnologia pode transformar a biodiversidade brasileira em produtos de alto valor agregado e ampliar a presença do país na indústria farmacêutica global.