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24 de julho de 2026 10:03

Maranhão entra no mapa do potássio

Maranhão entra no mapa do potássio

Chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Maisa Bastos Abram explica como as pesquisas na Bacia do Parnaíba podem ampliar o potencial brasileiro de potássio e reduzir a dependência de fertilizantes importados
SGB conclui etapa de pesquisa geofísica para identificar potencial de potássio no Maranhão | Foto: Divulgação/SGB.

Enquanto o Brasil continua dependente do mercado internacional para abastecer entre 90% e 95% da demanda por potássio utilizada na agricultura — percentual que chega a cerca de 97% no caso do cloreto de potássio (KCl), principal matéria-prima dos fertilizantes —, um projeto conduzido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) coloca o Maranhão no centro de uma discussão estratégica para o futuro do agronegócio nacional.

A conclusão da etapa de campo do Projeto Avaliação do Potencial de Potássio no Brasil, realizada na região central maranhense, representa um novo avanço na investigação do potencial mineral da Bacia do Parnaíba. Embora ainda não haja confirmação de reservas economicamente exploráveis, o estudo busca ampliar o conhecimento geológico sobre a região e produzir informações que possam orientar futuras iniciativas de exploração mineral e investimentos privados.

Projeto amplia conhecimento sobre o potencial potássico brasileiro

A chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Maisa Bastos Abram, detalha que o Projeto Avaliação do Potencial de Potássio no Brasil, integra um conjunto de estudos geocientíficos conduzidos pelo Serviço Geológico do Brasil voltados à ampliação do conhecimento geológico das bacias sedimentares brasileiras, com ênfase na prospecção de depósitos evaporíticos e na identificação de novas áreas favoráveis à ocorrência de sais de potássio.

“Atualmente em sua Fase II, o projeto adota uma abordagem integrada, combinando estudos geológicos e geofísicos para caracterizar e avaliar o potencial potássico de algumas das principais bacias sedimentares do país”, afirma.

Entre as principais atividades desenvolvidas, segundo a especialista, estão a elaboração de perfis geológicos compostos e análises estratigráficas fundamentadas na estratigrafia de sequências, a reinterpretação e o reprocessamento de dados sísmicos para o refinamento do modelo geológico das bacias, além da aplicação de métodos geofísicos e do mapeamento de novas áreas com potencial para mineralizações potássicas.

“Essas ações têm como objetivo ampliar o conhecimento sobre a gênese e a distribuição dos depósitos evaporíticos, contribuir para a identificação de novas áreas prospectivas e fornecer subsídios para futuras iniciativas de exploração mineral com potencial para subsidiar o conhecimento sobre o suprimento de um insumo essencial para a produção de fertilizantes e, consequentemente, para a segurança alimentar do país”, destaca Maisa.

Etapa de campo é concluída na Bacia do Parnaíba

No Maranhão, onde os estudos se concentram na Bacia do Parnaíba — cuja maior parte está localizada no estado —, foi concluída a etapa de campo de um levantamento gravimétrico em uma área piloto da região central maranhense.

Segundo Maisa, trabalho foi realizado por uma equipe de geofísicos do SGB, que utilizou um gravímetro para medir pequenas variações no campo gravitacional terrestre. “A técnica permite identificar diferenças de densidade das rochas em profundidade e avaliar a aplicabilidade do método na prospecção de depósitos de sais de potássio”, garante.

Os dados obtidos estão em fase de processamento e interpretação, com a realização de correções, filtragens e modelagens computacionais. Posteriormente, essas informações serão integradas a dados sísmicos e a perfis geológicos de poços.

“Essa integração permitirá a construção de um modelo geológico mais robusto da Bacia do Parnaíba, contribuindo para a identificação de áreas com maior potencial para a ocorrência de depósitos evaporíticos. A conclusão dessa etapa do projeto e a divulgação dos resultados consolidados estão previstas para o final de 2027”, informa.

Dependência das importações reforça importância estratégica

A especialista ressalta que o Brasil importa atualmente cerca de 97% do cloreto de potássio utilizado na produção de fertilizantes, cenário que evidencia a elevada dependência externa desse insumo essencial para a agricultura nacional.

Nesse contexto, ela comenta que o projeto busca ampliar o conhecimento sobre a gênese e a distribuição dos depósitos evaporíticos, identificar novas áreas prospectivas e produzir informações geocientíficas capazes de subsidiar futuras iniciativas de exploração mineral.

Maisa reforça que o Maranhão ocupa posição estratégica por integrar o MATOPIBA, uma das principais fronteiras de expansão agrícola do país e responsável por parcela significativa da produção nacional de grãos. “A eventual identificação de ocorrências de potássio na Bacia do Parnaíba poderá representar uma oportunidade para atração de investimentos em pesquisa mineral no estado”, destaca.

Ela pondera, no entanto, que os estudos conduzidos pelo SGB ainda estão voltados exclusivamente à avaliação do potencial geológico. “A confirmação da existência de um depósito mineral economicamente aproveitável depende de etapas posteriores, como pesquisas geológicas mais detalhadas, realização de sondagens, estimativas de recursos e reservas, além de estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, que poderão viabilizar investimentos privados para sua eventual exploração”, explica.

Próximas etapas incluem integração dos dados

De acordo com a chefe do Departamento de Recursos Minerais do SGB, a prioridade agora é concluir o processamento, a integração e a interpretação das informações geológicas e geofísicas obtidas durante a campanha de campo.

“Os resultados serão consolidados em um Informe de Recursos Minerais (IRM), publicação oficial do Serviço Geológico do Brasil que reunirá os modelos geológicos produzidos, as interpretações decorrentes das diferentes técnicas empregadas e a avaliação do potencial de potássio na área estudada”, salienta.

Maisa reforça que a missão institucional do SGB é produzir e disseminar conhecimento geocientífico para subsidiar a tomada de decisões do poder público e da iniciativa privada.

“A eventual evolução de áreas prospectivas para projetos de exploração mineral dependerá de etapas posteriores, conduzidas por empresas interessadas, que deverão realizar pesquisas geológicas de maior detalhamento, estimativas de recursos e reservas minerais, estudos de viabilidade técnica e econômica, além de avaliações ambientais e sociais”, considera.

Ela acrescenta que qualquer empreendimento dessa natureza dependerá do cumprimento da legislação vigente e da obtenção das licenças e autorizações junto aos órgãos competentes.

Eventual exploração dependerá de estudos ambientais

Questionada sobre os possíveis impactos ambientais de um futuro projeto de exploração de potássio no Maranhão, a especialista afirma que ainda é cedo para apontar efeitos específicos. “Até o momento, não foram comprovados depósitos com viabilidade econômica nem realizados os estudos técnicos necessários para subsidiar um empreendimento dessa natureza”, observa.

Segundo Maisa, caso sejam identificados depósitos economicamente viáveis, a implantação de um projeto minerário dependerá da realização de estudos ambientais detalhados e do processo de licenciamento ambiental.

“Serão avaliados aspectos como as características dos ecossistemas locais, a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos, a biodiversidade, os impactos socioeconômicos e as medidas de prevenção, mitigação, compensação e monitoramento ambiental. Todo eventual empreendimento deverá estar em conformidade com a legislação vigente, conciliando o aproveitamento dos recursos minerais com a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável do território”, afirma.

Sustentabilidade será fator decisivo para eventual exploração

Ao abordar o desafio de ampliar a produção nacional de fertilizantes sem comprometer o meio ambiente e as comunidades próximas às áreas de pesquisa, Maisa sustenta que esse equilíbrio depende do cumprimento rigoroso das etapas técnicas e legais previstas para qualquer empreendimento minerário. Segundo ela, a eventual implantação de projetos exige estudos de viabilidade técnica, econômica, social e ambiental, além do licenciamento pelos órgãos competentes, com avaliação dos impactos e definição de medidas de prevenção, mitigação, compensação e monitoramento.

“O equilíbrio entre o aproveitamento dos recursos minerais e a preservação ambiental depende da adoção das melhores práticas de engenharia, do uso de tecnologias capazes de reduzir os impactos da atividade minerária, da gestão responsável dos recursos naturais e do cumprimento rigoroso das normas ambientais e sociais”, destaca a especialista.

Como referência, Maisa cita experiências consolidadas no Brasil e no exterior, como a mina de Taquari-Vassouras e a mina de Jansen, no Canadá, e destaca que projetos mais recentes adotam práticas voltadas à sustentabilidade, como reciclagem e reutilização de água, monitoramento das águas subterrâneas, recuperação de áreas degradadas, gestão da biodiversidade e planejamento do fechamento da mina desde o início da operação. 

Por fim, Maisa destaca que investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação voltados ao aproveitamento de resíduos e rejeitos representam uma alternativa importante para ampliar a sustentabilidade do setor e reduzir seus impactos socioambientais. 

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