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30 de outubro de 2026 12:11

Mineração baiana cresce 18% no primeiro semestre e amplia interesse por minerais estratégicos

Mineração baiana cresce 18% no primeiro semestre e amplia interesse por minerais estratégicos

Comercialização mineral chega a R$8 bilhões no semestre; terras raras atraem investimentos, mas ainda enfrentam desafios para chegar à produção comercial
Terceiro maior produtor mineral do país, o estado registra alta de 18% na comercialização de minérios, que movimentou R$8 bilhões no primeiro semestre | Foto: Mauro Pimentel/AFP

A mineração baiana registrou crescimento de 18% no primeiro semestre de 2026, com R$8 bilhões em comercialização de bens minerais. O resultado reflete a valorização de commodities no mercado internacional, a melhora das condições operacionais de unidades produtivas e o desempenho de minerais destinados ao mercado interno, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado da Bahia (SDE).

Terceiro maior produtor mineral do Brasil, a Bahia tem operações consolidadas e projetos de expansão em níquel, grafita e terras raras, minerais estratégicos para a indústria e a transição energética.

O estado concentra aproximadamente 38% das áreas requeridas para pesquisa de terras raras no país, mas, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a maioria ainda está em fase inicial. A produção comercial depende de novos estudos, investimentos e comprovação da viabilidade econômica dos depósitos.

Ouro, cobre e níquel concentram o faturamento

O ouro foi o principal produto mineral da Bahia no primeiro semestre de 2026, com R$ 3,91 bilhões em comercialização. Em seguida aparecem o cobre, com R$ 1,24 bilhão, e o níquel, com R$ 965,35 milhões. Juntos, os três minerais responderam pela maior parte do faturamento do setor no período.

Outros segmentos também tiveram participação relevante. Os agregados utilizados na construção civil, como areia, brita, argila e saibro, somaram R$ 361,07 milhões. A cromita alcançou R$ 354,21 milhões, enquanto as rochas ornamentais registraram R$ 349,52 milhões.

De acordo com a SDE, a valorização internacional do ouro, do níquel, da cromita e da magnesita contribuiu para o resultado. No mercado interno, o desempenho dos agregados para construção civil, do quartzo industrial, da diatomita e das rochas ornamentais também favoreceu a comercialização.

A secretaria atribui parte do crescimento à recuperação da unidade de Maracás, produtora de vanádio e titânio. No primeiro semestre de 2025, a operação enfrentou problemas com a qualidade do minério e a substituição programada do revestimento do forno, fatores que afetaram o desempenho.

Os dados da secretaria não permitem distinguir quanto do crescimento veio do aumento da produção e quanto resultou da valorização dos minérios. Segundo a SDE, os dados de produção física constam nos Relatórios Anuais de Lavra (RAL), cujo acesso é restrito por questões de confidencialidade previstas na legislação.

Níquel, grafita e fosfato estão entre as frentes de expansão

Além dos produtos que concentram o faturamento atual, a Bahia tem projetos em operação e desenvolvimento de grafita, manganês, ferro, vanádio e urânio, com perspectivas de expansão em parte desses segmentos, segundo a SDE.

No setor de níquel, a entrada em atividade da mina subterrânea da Atlantic Nickel, em Itagibá, deve ampliar a produção. Em Maracás, a Largo prevê aumento gradual da produção e o aproveitamento de sua estrutura para recuperar outros metais e subprodutos de maior valor, como cobre, platina e paládio, a partir do processamento de rejeitos e do minério de vanádio.

A grafita também está entre as oportunidades de expansão, impulsionada pela demanda ligada à eletrificação e à transição energética. Segundo a SDE, duas iniciativas no Sul e no Extremo Sul do estado estão em fase de comissionamento e consolidação, com novas plantas de concentrado e minas de grafita natural em flocos em estágio avançado de testes operacionais.

Outro projeto é o Minério Primário de Irecê, desenvolvido pela Galvani em parceria com a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM). A iniciativa prevê a construção de uma unidade de mineração de fosfato no município a partir do segundo semestre de 2027.

De acordo com a SDE, o empreendimento poderá ampliar a oferta de fertilizantes fosfatados e atender a 30% da demanda das regiões Norte e Nordeste. O projeto também prevê a doação anual de 10 mil toneladas de corretivo agrícola à agricultura familiar. Subproduto da fabricação de fertilizantes, o material é usado para corrigir o solo.

Terras raras: Complexo de Jequié concentra pesquisas

No segmento de terras raras, o Complexo de Jequié é apontado pela CBPM como a região de maior potencial geológico no estado. A área se estende do Vale do Jiquiriçá aos municípios de Jequié e Vitória da Conquista e vem atraindo empresas interessadas em pesquisar depósitos desses elementos.

Segundo o diretor técnico da CBPM, Williame Cocentino, a região recebe investimentos de empresas australianas, canadenses e brasileiras. A companhia estadual também concentra parte de seus trabalhos no complexo, por avaliar que a área pode abrigar uma futura mina de terras raras.

“Essa região vem recebendo investimentos em pesquisa mineral de diversas empresas, muitas delas australianas, financiadas por capital australiano, além de empresas canadenses e brasileiras. A CBPM vem concentrando seus trabalhos nessa área porque entende que ela apresenta o maior potencial para abrigar uma futura mina de terras raras”, afirma.

O SGB também aponta o Complexo de Jequié entre as regiões cujo potencial geológico precisa ser acompanhado à medida que novos resultados de pesquisa forem divulgados. O órgão ressalta, no entanto, que a existência de áreas promissoras não comprova, por si só, a presença de depósitos com viabilidade econômica.

Outras áreas da Bahia também são alvo de pesquisas. De acordo com Cocentino, há iniciativas no sul do estado, especialmente nos municípios de Alcobaça e Prado, além de trabalhos no entorno de Caetité, próximo à mina de urânio. A associação entre terras raras e determinados contextos geológicos relacionados ao urânio ajuda a explicar o interesse pela região.

Ainda assim, a CBPM mantém o Complexo de Jequié como sua principal aposta. “A Bahia reúne quase 40% das áreas de pesquisa de terras raras do Brasil. Por isso, o estado tem potencial para abrigar uma das próximas minas desses elementos no país, além da operação da Serra Verde, em Goiás, e dos projetos que vêm se destacando no sul de Minas Gerais”, aponta.

Mais de mil processos, mas a maioria ainda está em fase de pesquisa

Levantamento da SDE com base no Cadastro Mineiro da Agência Nacional de Mineração (ANM) identificou 1.178 direitos minerários relacionados a terras raras na Bahia até 30 de junho de 2026.

Do total, 1.097 eram Autorizações de Pesquisa e 30 correspondiam a Requerimentos de Pesquisa. O cadastro também reunia 21 direitos a requerer lavra, cinco Requerimentos de Lavra, uma Concessão de Lavra, 23 registros aptos para disponibilidade e um registro em disponibilidade.

A maior parte dos processos de terras raras na Bahia ainda está na fase de pesquisa. O Requerimento de Pesquisa é o primeiro passo para investigar uma área, enquanto a Autorização de Pesquisa permite verificar a existência e as características de uma jazida. Após a aprovação do Relatório Final de Pesquisa pela ANM, o titular pode requerer a concessão de lavra. Já a Concessão de Lavra autoriza o aproveitamento econômico do depósito. As áreas em disponibilidade podem ser oferecidas a novos interessados e não representam minas em operação.

Segundo o SGB, 20 áreas chegaram à etapa de direito a requerer lavra e cinco têm solicitação de requerimento de lavra. O órgão afirma que ainda não há concessão de lavra para terras raras na Bahia. Os números divergem dos dados da SDE, que registra 21 direitos a requerer lavra e uma concessão.

Pelo levantamento da SDE, a Prado Água Mineral Ltda. possui uma concessão de lavra, a Multiverse Ltda. reúne cinco requerimentos de lavra e a Borborema Recursos Minerais Ltda. tem 21 direitos a requerer lavra.

Entre as empresas com autorizações de pesquisa, a Borborema lidera, com 194 registros, seguida pela Quantum Lítio Brasil Ltda., com 73, e pela Mars GMN Brazil Ltda., com 62. A CBPM aparece em quarto lugar, com 61, à frente da Nazca Gold Mineração Ltda., com 57, e da Alpha Minerals Brazil Participações Ltda., com 54.

Também possuem autorizações a Equinox Brazil Ltda. (47), a Pioneer Critical Minerals Brasil Ltda. (37), a Quiuqui Mineração Ltda. (31) e a Bem Mineração Ltda. (28). As demais empresas somam 453 registros.

O número de processos indica o interesse pela pesquisa de terras raras no estado, mas não comprova reservas economicamente viáveis nem investimentos já realizados. A possibilidade de produção comercial depende dos resultados dos estudos geológicos e metalúrgicos, além da viabilidade técnica e econômica da extração e do processamento dos minerais.

Borborema planeja produção em escala-piloto em 2027

Entre as iniciativas que avançaram no desenvolvimento de tecnologias para o aproveitamento de terras raras está o projeto da Borborema. Segundo o SGB, a empresa planeja produzir carbonato de terras raras em escala-piloto, em parceria com o SENAI Cimatec, no primeiro semestre de 2027.

A SDE também destaca a iniciativa da Borborema, que conta com uma planta-piloto para desenvolver processos hidrometalúrgicos capazes de separar elementos de interesse econômico, como neodímio e praseodímio. A secretaria menciona a instalação da estrutura no SENAI Cimatec e sua futura montagem em Camaçari, mas a localização e a etapa do projeto precisam ser confirmadas.

O projeto está entre os mais avançados do estado, mas a produção em escala-piloto ainda não significa operação comercial. O avanço depende dos resultados dos testes, da definição de um processo eficiente de extração e da viabilidade econômica.

O SGB também recomenda acompanhar novos resultados de pesquisa e anúncios da Borborema sobre áreas como Monte Alto e ocorrências de terras raras associadas à mineração de urânio em Lagoa Real.

Desafio está em extrair e processar os elementos com viabilidade econômica

A identificação de terras raras no subsolo é apenas uma das etapas para desenvolver uma mina. Antes de iniciar a produção comercial, as empresas precisam comprovar que os elementos podem ser extraídos e processados de maneira técnica e economicamente viável.

Para Cocentino, da CBPM, esse é um dos principais obstáculos para transformar o potencial geológico em produção. “Identificar a presença de terras raras não é suficiente: é necessário desenvolver uma rota tecnológica que permita extrair o material de maneira viável”, explica.

O desafio não termina na extração. A cadeia produtiva envolve o processamento do concentrado mineral, a separação dos elementos e a produção de óxidos e metais, etapas que exigem tecnologia, infraestrutura e investimentos específicos. Segundo o diretor técnico, a China concentra grande parte do domínio tecnológico desse processo.

Na Bahia, instituições como o já citado SENAI Cimatec, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) desenvolvem pesquisas voltadas à extração e ao processamento desses minerais.

A CBPM avalia que a infraestrutura industrial existente no estado pode contribuir para atrair novas etapas de processamento. Cocentino cita o polo industrial de Camaçari como uma área com potencial para receber uma unidade de separação de terras raras, caso os projetos avancem e haja condições para sua implantação.

“Essa é uma das possibilidades que a companhia considera ao negociar áreas de pesquisa e buscar investidores: associar a exploração mineral ao desenvolvimento da cadeia produtiva no próprio estado. O objetivo é garantir que o máximo possível dos benefícios econômicos e das oportunidades de desenvolvimento permaneça na Bahia”, afirma Cocentino.

A estratégia, segundo o diretor técnico, é vincular os projetos à instalação de atividades industriais no território baiano, de forma que o estado não se limite à extração e possa participar de etapas de maior valor agregado.

Apesar do número de áreas requeridas e do interesse de empresas nacionais e estrangeiras, o avanço da pesquisa não garante a abertura de uma mina. Projetos de mineração exigem capital para investigar depósitos, testar métodos de extração e processamento e avaliar a viabilidade do empreendimento. Parte das iniciativas pode não alcançar a etapa de produção.

O SGB ressalta os riscos envolvidos nesse processo. “Os empreendimentos mineiros estão sujeitos a riscos inerentes ao negócio. Os projetos em fase de exploração exigem altos investimentos para investigar o potencial econômico dos depósitos, e nem todos se tornarão minas no futuro”, ressalta o órgão.

A expansão da mineração baiana depende tanto do desempenho dos segmentos já consolidados quanto da viabilidade econômica de projetos de minerais estratégicos. No caso das terras raras, o potencial geológico e o interesse empresarial ainda precisam se traduzir em resultados de pesquisa, avanços tecnológicos e investimentos para viabilizar a produção.

Secretário destaca diversidade mineral e oportunidades de expansão

Em avaliação sobre o desempenho do setor, o secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, João Carlos Oliveira, relaciona o crescimento do primeiro semestre à valorização das commodities e à melhoria das operações. 

“Os resultados do primeiro semestre de 2026 demonstram a força e a diversidade do setor mineral baiano, com crescimento impulsionado tanto pela valorização das commodities quanto pela melhoria das condições operacionais”, considera.

“Além disso, a Bahia reúne ativos consolidados e projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, com perspectivas importantes em minerais estratégicos, como níquel, grafita e terras raras. Esse potencial amplia as oportunidades para fortalecer a atividade mineral e consolidar o estado como referência na produção de minerais essenciais para a transição energética”, conclui.

Consulte os dados

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) disponibiliza um dashboard interativo com informações sobre as áreas requeridas para pesquisa de terras raras no país. A ferramenta permite navegar pelos dados e visualizar a distribuição dos requerimentos por estado e outras informações sobre as áreas pesquisadas.

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