
O Nordeste brasileiro desponta como uma das regiões mais estratégicas para o futuro da mineração nacional e para a relação comercial do país com a União Europeia. Um estudo da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) revela que Bahia, Sergipe e Piauí concentram sete projetos de exploração de minerais críticos, com potencial de atrair até US$ 6,4 bilhões em investimentos. Esses empreendimentos, ainda em diferentes fases de desenvolvimento, podem reposicionar o Brasil em cadeias globais essenciais para a transição energética, a indústria de alta tecnologia e a segurança alimentar.
A União Europeia, que busca reduzir sua dependência de um único fornecedor para mais de 65% do consumo anual de cada matéria-prima crítica até 2030, vê no Brasil uma alternativa estratégica. Em 2025, o bloco absorveu US$ 4,3 bilhões das exportações brasileiras de nove minerais críticos analisados pela ApexBrasil — 37,6% do total exportado pelo país. Cobre, níquel e grafite lideraram as vendas para o mercado europeu.
Bahia: diversidade mineral e projetos de grande porte
Entre os três estados, a Bahia se destaca pela variedade de projetos. O grafite é uma das frentes mais promissoras, com dois empreendimentos robustos. O Bahia Graphite, com títulos minerários em Itaitu, Lajedo e Capela, estima recursos de mais de 670 mil toneladas de grafite contido e busca US$ 13 milhões para avançar na exploração. A empresa também planeja uma unidade de processamento em Nova Fátima, com investimento previsto de US$ 60 milhões.
Outro projeto relevante é o Boa Sorte, da Graphcoa, em Itagimirim. Com vida útil estimada de 15 anos e produção anual de 20 mil toneladas de grafite natural em flocos, o empreendimento já possui licença e estudo de viabilidade concluído. A expansão industrial prevê investimentos de US$ 120 milhões e início das operações em 2029.
A demanda europeia reforça o potencial baiano: entre 2019 e 2023, a China respondeu por 25% do grafite natural importado pela UE, enquanto o Brasil participou com 9%. Em 2025, o país exportou US$ 44,3 milhões em produtos da cadeia do grafite, sendo US$ 16,4 milhões destinados ao bloco europeu.
Além do grafite, a Bahia abriga o projeto Lagoa Grande, da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), em Pilão Arcado. A área possui potencial para níquel, cobre e cobalto, com recursos estimados em mais de 405 milhões de toneladas de minério. Os investimentos podem chegar a US$ 2,5 bilhões na fase de exploração e US$ 1 bilhão na etapa de processamento.
Outro destaque é o Monte Alto, da Borborema Recursos Estratégicos, controlada pela Brazilian Rare Earths. O projeto prevê produção de concentrado de terras raras e, posteriormente, de neodímio e praseodímio — essenciais para ímãs permanentes usados em turbinas eólicas e veículos elétricos. A cadeia é altamente dependente da China, que respondeu por 81% do abastecimento europeu entre 2019 e 2023.
Piauí: níquel e cobalto para a transição energética
No Piauí, o Piauí Nickel Project, da Brazilian Nickel, em Capitão Gervásio Oliveira, prevê investimento de US$ 1,5 bilhão e início das operações em 2030. A produção estimada é de 28 mil toneladas anuais de níquel e mil toneladas de cobalto durante os primeiros dez anos.
O Brasil já possui posição relevante no mercado europeu: em 2025, respondeu por 34,5% do minério de níquel importado pela UE e liderou o fornecimento de ferroníquel, com 77,1% das compras do bloco. As exportações brasileiras da cadeia do níquel somaram US$ 1 bilhão, sendo US$ 456,6 milhões destinados à Europa.
Sergipe: potássio e minerais pesados para segurança alimentar e indústria
Sergipe aparece com dois projetos estratégicos. O maior é o empreendimento de potássio da South Atlantic Potash, com investimento entre US$ 2,1 bilhões e US$ 2,2 bilhões. A produção inicial prevista é de 2 milhões de toneladas anuais de cloreto de potássio, podendo chegar a mais de 14 milhões de toneladas por ano. O mineral é essencial para fertilizantes, e tanto Brasil quanto UE dependem de importações, principalmente de Canadá e Rússia.
O estado também abriga o projeto Saramém, da Backshore Resources, com recursos de 196 milhões de toneladas de minerais pesados como ilmenita, rutilo, zircão e monazita. A empresa busca US$ 3,5 milhões para uma planta-piloto e US$ 15 milhões para uma unidade industrial.
Desafios e oportunidades
Apesar do potencial, a maioria dos projetos ainda depende de financiamento, parceiros comerciais e licenciamento. A ApexBrasil destaca que o Brasil ainda atua majoritariamente na extração e no processamento intermediário, e que agregar valor — por meio de refino e fabricação de insumos — é uma oportunidade estratégica.
Instrumentos como o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e o FIP Minerais Estratégicos, do BNDES e do Ministério de Minas e Energia, podem ajudar a transformar projetos em operações produtivas. O BNDES estima mobilizar R$ 1 bilhão em iniciativas voltadas à transição energética e descarbonização.