
O Nordeste brasileiro, e o Ceará em particular, vem se consolidando como uma peça estratégica no tabuleiro global da infraestrutura digital. Essa foi a conclusão central de um debate promovido pelos jornais O Globo e Valor Econômico, nesta semana, que reuniu autoridades, pesquisadores e representantes do setor privado para discutir o papel da região como futuro polo de data centers.
Mediado pelo jornalista Gláusio Cavalcante, do O Globo, o encontro foi dividido em dois painéis: o primeiro voltado à transição energética e à infraestrutura digital, e o segundo dedicado aos impactos socioeconômicos, à inovação local e ao território. Juntos, os debates traçaram um panorama que combina otimismo com investimentos bilionários e um alerta recorrente sobre a necessidade de que o progresso tecnológico não avance sobre comunidades tradicionais e recursos naturais da região.
A energia como vantagem competitiva
O ponto de partida do debate é econômico: o maior custo operacional de um data center é a eletricidade. E é justamente aí que o Nordeste leva vantagem. A região conta com geração eólica e solar fotovoltaica abundante e com custos altamente competitivos, características que atendem diretamente às exigências de sustentabilidade impostas pelas grandes empresas globais de tecnologia — cada vez mais pressionadas a comprovar que suas operações digitais são movidas por fontes limpas.
Some-se a isso um fator geográfico decisivo: Fortaleza, especialmente na região da Praia do Futuro, recebe 18 cabos submarinos de fibra óptica, o que garante conexão de alta velocidade e baixa latência com África, América do Norte, Europa e Ásia. Essa combinação de energia barata e limpa, somada a conectividade internacional privilegiada, tem atraído investimentos de peso, como o primeiro grande data center da ByteDance, dona do TikTok, na América Latina. O empreendimento está sendo erguido em Caucaia, no Complexo do Pecém, pela empresa OMNIA Data Centers.
Para dar previsibilidade a esse tipo de investimento, o governo federal sancionou o Redata (Regime Especial de Tributação para Data Centers), programa que concede desonerações tributárias condicionadas ao uso de energia limpa, à reserva de 30% do investimento para fornecedores da indústria nacional e à destinação de recursos para pesquisa e inovação. Em paralelo, municípios como Caucaia vêm criando parques tecnológicos próprios, com incentivos fiscais e mecanismos de segurança jurídica, os chamados sandboxes jurídicos, para não perder esses projetos para concorrentes internacionais.
Baterias contra a intermitência
Um dos desafios técnicos discutidos no primeiro painel foi a intermitência das fontes renováveis: a energia solar, por exemplo, é abundante ao meio-dia, mas escasseia à noite. A solução em debate são os bancos de baterias, que armazenam o excedente de energia produzido nos picos de geração e o redistribuem em períodos de até quatro horas de descarga, quando a produção cai. Essa tecnologia evita o desperdício de energia renovável e reduz a necessidade de acionar usinas térmicas como reforço.
Ainda assim, os especialistas alertaram que as baterias resolvem apenas a oscilação diária, não dando conta de variações sazonais mais longas, como diferenças entre períodos de inverno e verão. Para dar estabilidade ao sistema elétrico e atrair novos investimentos, o governo federal planeja realizar leilões voltados especificamente à contratação desses bancos de baterias.
Território de passagem ou desenvolvimento permanente?
Se o primeiro painel tratou da engenharia da transição energética, o segundo mergulhou nas tensões sociais e territoriais provocadas pela chegada desses megaempreendimentos. O debate reuniu o professor de Direito Digital e Secretário de Inovação de Caucaia, Mcdóvel Trigueiro, a professora de Geografia da UFC Adriane Goraieb, e o diretor institucional da OMNIA no Ceará, Wellson Costa.
Trigueiro defendeu que o Ceará e Caucaia devem aproveitar a atração de grandes empresas de tecnologia com planejamento de longo prazo e foco em retorno social, propondo a criação de um distrito de inovação — um Parque Tecnológico situado estrategicamente entre os cabos submarinos, a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) e o Porto do Pecém. A ideia é atrair indústrias de ponta, como robótica e veículos voadores (vTOL), criando um ecossistema de empregos que sobreviva à fase de construção civil, tipicamente temporária. Ele também defendeu a necessidade de soberania digital: hoje, cerca de 70% dos dados brasileiros são processados fora do país, o que reforça a urgência de infraestrutura nacional, além de maior articulação entre agências reguladoras como ANEEL, Anatel e ANPD.
Já Adriane Goraieb trouxe ao debate os resultados de suas pesquisas territoriais, alertando para os riscos vividos por comunidades tradicionais, como a etnia indígena Anacé, agricultores e pescadores locais. Segundo a pesquisadora, essas populações vivem em insegurança fundiária, enfrentam medo em relação à escassez de água, desmatamento no entorno do rio Cauípe e, em alguns casos, já precisam comprar água potável devido aos impactos cumulativos da industrialização da região. Ela apontou ainda o paradoxo de comunidades a menos de um quilômetro dos data centers conviverem com “pobreza energética” — energia elétrica instável — e sem acesso sequer a sinal básico de celular.
Apesar das divergências de ênfase, os dois convergiram em pontos centrais: nenhum dos dois defende que o Nordeste seja apenas um “território de passagem” para dados que são processados e exportados sem retorno concreto à população local. Ambos reconheceram também que os empregos da fase de construção são temporários, enquanto a operação dos data centers, cada vez mais automatizada, exige pouca mão de obra — o que torna urgente pensar em um legado permanente para além do canteiro de obras.
Um ponto de discordância mais técnica envolveu o consumo de água. Enquanto Goraieb relatou o temor das comunidades quanto à escassez hídrica, Trigueiro argumentou que esse receio decorre de um mito ligado a tecnologias antigas de data centers — os projetos mais recentes instalados em Caucaia utilizam sistemas de refrigeração a ar em circuito fechado, tornando o consumo de água irrisório e deixando a energia elétrica como o verdadeiro gargalo.
Capacitação como aposta de futuro
Para os participantes, nenhum desses avanços é sustentável sem qualificação profissional. O debate destacou a instalação de um novo campus do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) no Ceará, com foco em Tecnologia da Informação e Energia, além de cursos técnicos promovidos em parceria com o Sistema S/SENAI e universidades regionais; um movimento que reflete o consenso entre os painelistas sobre a importância da chamada tríplice hélice: articulação entre governo, indústria e academia.
Ao final do encontro, ficou evidente que o Nordeste vive um momento de oportunidade histórica, mas também de responsabilidade. Transformar a abundância de sol, vento e conectividade em desenvolvimento duradouro — sem repetir ciclos anteriores de exploração de recursos naturais que deixaram pouco benefício às populações locais — desponta como o verdadeiro teste para essa nova fronteira digital brasileira.