Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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12 de agosto de 2026 11:17

Nordeste Export discute infraestrutura, logística e desenvolvimento regional em Maceió

Nordeste Export discute infraestrutura, logística e desenvolvimento regional em Maceió

Fórum nacional reuniu autoridades, empresários e especialistas para discutir segurança jurídica, energia, sustentabilidade, portos, ferrovias e comércio exterior
Foto: Tatyane Barbosa

Maceió reuniu autoridades públicas, empresários, executivos e especialistas em infraestrutura, logística e transportes durante o Nordeste Export, realizado nos dias 8 e 9 de junho. O fórum nacional promoveu debates sobre os desafios e oportunidades para o desenvolvimento regional, com foco em temas como segurança jurídica, modernização portuária, multimodalidade, sustentabilidade, energia e integração logística. Considerado um dos principais encontros do setor no país, o evento também contou com networking qualificado, palestras especiais e visitas técnicas.

Durante a abertura do Nordeste Export, o presidente da Associação Comercial de Maceió, Kennedy Calheiros, defendeu que o desenvolvimento econômico do país depende diretamente do fortalecimento da infraestrutura logística aliado ao investimento em educação. Segundo ele, a ausência de integração eficiente entre os modais de transporte, especialmente no Nordeste, limita o escoamento da produção, encarece operações e reduz a competitividade regional. O dirigente também destacou a necessidade de ampliar a segurança jurídica e investir na formação de profissionais qualificados para sustentar o crescimento econômico.

“Sem logística, não existe desenvolvimento. A infraestrutura de um país começa pela educação e se conecta diretamente com a capacidade de produzir, escoar mercadorias e receber produtos. O Brasil ainda está muito atrasado nesse sentido. Basta observar que não temos, por exemplo, as capitais do Nordeste interligadas por ferrovias, algo comum em países desenvolvidos. A China construiu cerca de 50 mil quilômetros de ferrovia nas últimas décadas, enquanto aqui seguimos avançando lentamente. Precisamos de previsibilidade, segurança jurídica e investimento, principalmente na formação de engenheiros, porque um país que quer crescer economicamente precisa criar condições reais para prosperar”, afirma.

Representando o Governo de Alagoas, o secretário executivo do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social, Lucas Canuto, apresentou o panorama do ambiente de negócios do estado e ressaltou a importância do encontro para fortalecer conexões e acompanhar tendências relacionadas à infraestrutura e logística.

“Para Alagoas, participar desse debate significa acompanhar tendências, fortalecer conexões com importantes atores do setor e identificar iniciativas que possam impulsionar nossa competitividade. Sob a liderança da secretária Alice Beltrão, o Governo de Alagoas tem trabalhado para criar um ambiente cada vez mais favorável aos investimentos e ao crescimento sustentável. Eventos como este contribuem para ampliar o diálogo e construir soluções que fortaleçam a economia alagoana, gerem empregos e promovam mais desenvolvimento para o nosso estado”, frisa.

O CEO do Grupo Brasil Export, Fabrício Julião, explicou que a escolha de Maceió para sediar a edição do Nordeste Export seguiu o modelo cíclico do evento, realizado em diferentes estados da região. De acordo com ele, a capital alagoana vive um momento estratégico diante dos investimentos previstos para o terminal de passageiros recém-licitado do Porto de Maceió, iniciativa que pode ampliar o potencial turístico local e impulsionar novas oportunidades econômicas.

“Maceió precisa estar muito atenta à cadeia logística como um todo e entender, entre os demais portos do Nordeste, qual o seu papel dentro dessa engrenagem. Nós defendemos que os portos não são concorrentes, mas complementares. Cada estado pode trabalhar com suas vocações e tipos de carga, enquanto a região Nordeste se fortalece de forma integrada. Quando logística e infraestrutura caminham juntas, quem ganha é todo o Nordeste”, ressalta.

O secretário nacional de Portos, Alex Ávila, destacou que o Governo Federal tem direcionado atenção especial às potencialidades logísticas das regiões Norte e Nordeste, sobretudo dentro do chamado Arco Norte, considerado estratégico para ampliação da capacidade portuária do país. Segundo ele, a política do Ministério de Portos e Aeroportos busca estruturar projetos a partir das vocações econômicas de cada localidade, conciliando necessidades regionais, oportunidades de investimento e desenvolvimento da infraestrutura.

Foto: Tatyane Barbosa

Nesse contexto, Ávila citou exemplos como os portos de Aratu, na Bahia, e Itaqui, no Maranhão, além do Terminal Marítimo de Passageiros de Maceió, recentemente licitado e que deverá receber investimentos voltados ao fortalecimento do turismo na capital alagoana.

“Quando olhamos para a região Norte e Nordeste, especialmente dentro do Arco Norte, enxergamos algumas das principais oportunidades de ampliação da capacidade logística do Brasil. Temos portos com grande potencial de desenvolvimento, como Aratu, na Bahia, e Itaqui, no Maranhão, além de Maceió, onde o Terminal Marítimo de Passageiros deve receber investimentos importantes para fortalecer uma vocação clara da cidade, que é o turismo”, destaca. “Nosso trabalho é justamente olhar para cada porto, identificar seus potenciais e necessidades e estruturar políticas públicas que conciliem essas características com oportunidades de investimento e desenvolvimento regional”.

O painel “InfraESG | Boas práticas e sustentabilidade na logística” trouxe especialistas para discutir os desafios e oportunidades da sustentabilidade aplicada ao setor logístico, incluindo avanços dos terminais de regaseificação, boas práticas no transporte terrestre e o uso de biocombustíveis como alternativa para a matriz de transporte. Mediado por Leopoldo Figueiredo, diretor-geral da Rede BE News, o debate contou ainda com a participação de Leonardo Cerquinho, diretor de Desenvolvimento de Negócios do Grupo Dislub Equador, e Luiz Carlos Ciocchi, ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e consultor do Instituto de Petróleo, Gás e Energia (Ipegen).

Ao longo do painel, a superintendente de Sustentabilidade, Pessoas e Inovação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Cynthia Ruas, apontou que o avanço de práticas sustentáveis na logística ferroviária e terrestre exige mudanças estruturais e regulatórias graduais. Para ela, iniciativas ligadas à descarbonização, ao uso de combustíveis alternativos e à modernização da matriz de transporte já vêm sendo discutidas no setor, embora muitos projetos ainda estejam em fase experimental.

A representante da ANTT também realçou que a incorporação de critérios ESG nos contratos de concessão tem aproximado áreas técnicas e econômicas dentro das discussões regulatórias, ainda que o processo demande cautela e amadurecimento institucional. “Existe, sim, iniciativa nesse sentido, especialmente voltada à descarbonização e à modernização da logística, mas ainda em caráter muito experimental. Estamos falando de uma mudança de paradigma na matriz de transporte e isso exige planejamento, adaptação e diálogo entre os diversos agentes envolvidos”. A executiva afirma ainda que “temos buscado incorporar essa visão também nos contratos de concessão, aproximando diferentes áreas para pensar soluções mais sustentáveis, mas tudo isso precisa ser feito com bastante cautela e responsabilidade, porque é um processo gradual”.

O valor da governança

A programação do Nordeste Export também incluiu debates sobre segurança jurídica e previsibilidade nos contratos de infraestrutura e energia, dragagem, tecnologia e sustentabilidade, além das perspectivas do setor privado para o desenvolvimento do comércio exterior. O fórum contou ainda com palestras especiais do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Vital do Rêgo Filho, e do presidente da Praticagem do Brasil, Bruno Fonseca, abordando governança, infraestrutura e segurança institucional.

Em sua palestra, o ministro Vital do Rêgo defendeu que o desenvolvimento econômico do Nordeste depende diretamente da superação de gargalos históricos relacionados à infraestrutura e logística. Segundo ele, embora a região reúna vantagens competitivas relevantes, como posição geográfica estratégica, expansão da energia limpa, mercado consumidor robusto e portos importantes, ainda enfrenta entraves como baixa integração entre modais, lentidão em projetos ferroviários, deficiência de armazenagem e limitações logísticas.

O presidente do TCU também evidenciou a atuação do tribunal no fortalecimento da governança e da segurança jurídica para investimentos. Somente em 2025, as ações de controle da Corte geraram benefícios financeiros próximos de R$ 62 bilhões. Vital chamou atenção ainda para o número de obras públicas paralisadas: mais de 11 mil empreendimentos com recursos federais estavam interrompidos até abril deste ano, sendo mais de 5 mil apenas no Nordeste.

“O Nordeste não carece de vocação, o Nordeste carece de conexão”, teoriza. “A região já é uma das maiores oportunidades econômicas do Brasil, mas precisa de uma infraestrutura à altura da sua grandeza. Se concluirmos projetos estruturantes como a Transnordestina, fortalecermos os portos, integrarmos rodovias, ferrovias, aeroportos e ampliarmos a cabotagem, o Nordeste pode se tornar a principal plataforma logística do Atlântico Sul”, reforça. Para o ministro, “o papel do TCU é contribuir para que isso aconteça com planejamento, segurança jurídica, governança e controle preventivo, porque obra parada custa caro e a ausência de infraestrutura custa o futuro”.

No segundo dia de programação, o evento contou com uma visita técnica ao Porto de Maceió e ao terminal da Origem Energia, reunindo participantes previamente inscritos para conhecer de perto a dinâmica logística e energética de Alagoas. A atividade incluiu a apresentação das áreas operacionais do cais, das principais cargas movimentadas no porto e de um projeto inovador de estocagem subterrânea de gás natural, atualmente em fase de estudos.

Segundo a diretora de Inteligência de Mercado do Grupo Brasil Export, Núria Bianco, a proposta da visita técnica foi proporcionar uma imersão prática na realidade regional, especialmente para participantes de outros estados, permitindo a troca de experiências e o conhecimento de soluções com potencial de replicação nacional.

“A importância dessa visita foi justamente conhecer projetos que possam ser replicados em outros lugares do Brasil. Como Alagoas tem um perfil muito voltado para o gás, há interesse de representantes de outras regiões, principalmente do Norte, em entender como funcionará esse projeto de estocagem subterrânea em Maceió”, ressalta, ao mencionar o interesse crescente por iniciativas ligadas à segurança energética e infraestrutura de armazenamento.

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