
Entre os balanços das companhias estaduais de gás, saneamento e logística, a saúde financeira aparece em formatos distintos. Empresas com receita robusta convivem com investimentos de longo prazo, pressão regulatória e obrigações sociais que ultrapassam o resultado anual. O debate sobre privatização nasce desse contraste: vender ativos, conceder serviços ou estruturar parcerias pode gerar fôlego financeiro e velocidade de execução, enquanto o controle público preserva instrumentos de política regional e atendimento em áreas pouco rentáveis.
Esta reportagem acompanha duas frentes complementares. A primeira examina estatais de gás e logística, setores associados a ativos estratégicos, geração de receita e interesse do capital privado, além de confrontar argumentos favoráveis e críticos à privatização a partir de um processo concreto. A segunda investiga saneamento e gestão pública, com foco no Marco Legal, nas metas de universalização, na tarifa social, na capacidade de investimento e nos mecanismos de governança.
Juntas, as duas apurações procuram responder se as estatais nordestinas estão financeiramente equilibradas, quais apresentam vulnerabilidades e de que forma o desempenho econômico afeta a qualidade dos serviços, a expansão da infraestrutura e o desenvolvimento regional.
Infraestrutura, lucro e disputa pelo controle
O Nordeste vive um momento de ampliação de sua participação em projetos de infraestrutura, visando consolidar uma agenda de desenvolvimento econômico de longo prazo. Com a empreitada, as estatais aparecem no centro de importantes debates para os desdobramentos dessa fase de expansão.
Por um lado, elas são responsáveis por ativos estratégicos, como portos, distribuição de gás e serviços essenciais que sustentam cadeias produtivas. Sob outra perspectiva, enfrentam restrições fiscais, mudanças regulatórias, maior participação da iniciativa privada e uma pressão constante por mais eficiência.
Com isso, as discussões sobre o futuro dessas empresas não se limita à oposição entre gestão pública e privatização. O debate se estende à garantia de capacidade de investimento, à qualidade dos serviços prestados e à sustentabilidade financeira, sem deixar de considerar o papel estratégico que elas desempenham no desenvolvimento dos estados e da região.
Para o economista alagoano Fábio Leão, o atual desafio é encontrar um modelo de atuação capaz de reunir responsabilidade fiscal, boa governança e novas fontes de financiamento. “O equilíbrio entre a saúde financeira das estatais e o investimento em infraestrutura no Nordeste exige uma transição do modelo de dependência direta do caixa público para o uso estratégico de capital privado e de fundos regionais”, afirma.
Segundo ele, diante das limitações orçamentárias enfrentadas pelos governos, estados nordestinos têm recorrido a mecanismos como Parcerias Público-Privadas (PPPs), concessões e linhas de crédito de longo prazo para manter projetos estruturantes em andamento. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e o Banco do Nordeste aparecem entre os principais instrumentos utilizados para financiar obras de infraestrutura sem ampliar significativamente a pressão sobre os cofres públicos.
Fábio avalia ainda que essa estratégia dialoga com um momento importante da economia nacional, marcado principalmente pela implementação da nova reforma tributária. Com o enfraquecimento da guerra fiscal, a tendência é que as disputas a nível regional sejam baseadas na qualidade de infraestrutura disponível em cada estado.
“Com o fim dos incentivos de ICMS, os estados precisarão competir oferecendo logística eficiente, energia, saneamento e infraestrutura capazes de atrair investimentos”, resume.
A lógica é observada de forma prática em diversas empresas públicas da região, a exemplo da Bahiagás. A empresa avalia que suas estratégias de crescimento estão conectadas às melhorias de infraestrutura na distribuição de gás natural.
Ao Investindo Por Aí, a empresa afirmou ainda que as novas dinâmicas implementadas pela reforma tributária trazem movimento para o setor. “Apesar de desafiadoras, as mudanças também representam oportunidades importantes, ao promover maior dinamismo, ampliar as possibilidades de suprimento e estimular novos modelos de negócios no setor energético”.
Segundo a companhia, sua saúde financeira vive um momento de solidez, com a possibilidade de realizar investimentos com recursos próprios, unidos ao mercado de crédito, hoje com condições mais vantajosas. Com isso, a Bahiagás observa a ampliação da sua capacidade de desenvolver projetos estruturantes robustos.
Entre os principais investimentos está o Projeto Gás Sudoeste, considerado pela empresa o maior gasoduto de distribuição em construção no país, com mais de 300 quilômetros de extensão e investimentos superiores a R$ 600 milhões. A iniciativa pretende conectar diversos municípios baianos, interiorizar o fornecimento de gás natural e estimular novas cadeias produtivas no estado.
Além disso, a empresa também prepara investimentos voltados à transição energética, com projetos de inovação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. “A Bahiagás tem buscado se adaptar continuamente às transformações do mercado, fortalecendo sua capacidade de planejamento, diversificando suas estratégias de investimento e contribuindo para o desenvolvimento de um mercado de gás cada vez mais moderno, competitivo e integrado às novas agendas da transição energética”.
Outro segmento que prioriza a relação entre capacidade financeira e expansão da infraestrutura é o setor portuário.
O Porto de Suape, em Pernambuco, informa que vem registrando resultados financeiros mais robustos desde 2023. De acordo com a administração, o EBITDA médio anual passou de R$ 140 milhões, entre 2020 e 2022, para cerca de R$ 230 milhões no período entre 2023 e 2025. A estatal afirma ainda possuir reservas de caixa suficientes para iniciar investimentos imediatamente, além de projetos voltados à captação de recursos junto a instituições financeiras e organismos internacionais.
De acordo com a administração, a atual condição financeira expande a capacidade de resposta às demandas do mercado, através da sua capacidade de modernização. “A saúde financeira garante flexibilidade para buscar as melhores oportunidades e oferecer serviços portuários competitivos, fator decisivo para a atração de novos investimentos”, informou.
Entre as estratégias adotadas está também a busca por parcerias com operadores internacionais para viabilizar novos empreendimentos e ampliar atividades já existentes, preservando, segundo a estatal, seu papel como agente público de desenvolvimento.
Nesse mesmo caminho, a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) também afirma ter obtido resultados positivos ao longo dos últimos anos. A empresa é responsável pela administração dos portos de Salvador, Aratu-Candeias, Ilhéus, pela nova Hidrovia do Rio São Francisco e, mais recentemente, pela gestão do Porto de Itajaí (SC).
Com lucro líquido de R$ 22,8 milhões em 2024 e projeção de crescimento para 2026, a Codeba tem investido fortemente em infraestrutura portuária, a exemplo da requalificação do cais do Porto de Salvador, do aprofundamento do canal de acesso da Baía de Todos-os-Santos, e das novas dragagens em Ilhéus e obras no Porto de Itajaí.
Em nota, a Companhia destaca que as medidas são fundamentais para a ampliação da eficiência operacional. Os investimentos que estão sendo feitos na infraestrutura portuária, no aprofundamento do canal de acesso e na modernização tecnológica permitirão um aumento significativo da capacidade requerida para a atracação de navios maiores, maior fluidez e segurança na operação e na circulação dos passageiros e na operação”.
Privatização: solução ou dúvida?
Embora o fortalecimento financeiro das estatais seja frequentemente associado ao debate sobre privatizações, Fábio Leão pondera que a discussão não deve ser reduzida a uma escolha entre gestão pública ou privada.
Em sua avaliação, o economista afirma que a iniciativa privada pode oferecer vantagens importantes às estatais. Ele destaca o alívio às necessidades de aporte do Tesouro, a aceleração de processos operacionais e a ampliação da capacidade de investimento.
“A privatização pode beneficiar o caixa dos estados ao eliminar aportes recorrentes, gerar receitas com outorgas e ampliar a arrecadação tributária por meio da expansão da atividade econômica”, explica.
Ele pondera, no entanto, que segmentos ligados à dinâmica de vida da população, como saneamento, energia e infraestrutura possuem dinâmicas e particularidades diferentes de outros mercados e, por isso, não podem ser analisados somente considerando o lucro e a manutenção das empresas. “O principal perigo de tratar serviços essenciais exclusivamente sob a lógica do lucro é a exclusão das áreas menos rentáveis”, afirma.
Para Fábio, a privatização traria o risco de concentração de investimentos em regiões de maior retorno financeiro, o que poderia levar ao aprofundamento de desigualdades sociais, por exemplo, entre centros urbanos e cidades do interior.
“Nesses casos, sem uma regulação forte, o monopólio público pode simplesmente ser substituído por um monopólio privado, com prejuízos igualmente relevantes para a população.”
Outro ponto destacado pelo economista é o chamado subsídio cruzado, mecanismo pelo qual receitas obtidas em mercados mais rentáveis financiam a expansão dos serviços em localidades menos atrativas economicamente.
“Enquanto a lógica privada busca o cliente, a lógica pública deveria buscar o cidadão”, resume.
Eficiência, dinamismo e governança
Ainda segundo o economista, o que se observa nas experiências vistas no Brasil demonstra que a privatização, por si só, não é garantia de ampliação de infraestrutura ou melhoria na qualidade dos serviços. “O sucesso depende muito mais da capacidade regulatória do Estado do que da natureza jurídica da empresa”, ressalta.
Por outro lado, Leão destaca que é necessário avançar em transparência, governança e profissionalização dentro das empresas públicas. Ele sugere que as empresas sejam blindadas de indicações políticas e contem com auditorias permanentes, feitas por agências reguladoras independentes.
O especialista defende ainda uma “terceira via”, com um modelo híbrido de gestão que reúne as dinâmicas mais funcionais de cada modalidade. Alternativas como PPPs operacionais, abertura de capital minoritário e concessões parciais, aliadas ao fortalecimento da governança corporativa, permitem a captação de recursos com a manutenção do controle estatal sobre ativos estratégicos.
“A questão central não é quem opera o serviço, mas se existe uma atuação técnica, ética e voltada ao interesse público. O fiel da balança não está apenas no capital disponível, mas na qualidade da gestão e da regulação”, conclui.
Com a ampliação da busca por competitividade econômica pelos estados nordestinos, o debate ganha ainda mais força. A combinação de sustentabilidade financeira, eficiência operacional e compromisso com o desenvolvimento regional pode ser determinante para a atração e manutenção de investimentos, fomentando um novo ciclo de desenvolvimento para o Nordeste.
Se gás e logística colocam no centro a valorização de ativos e a capacidade de induzir investimentos, o saneamento desloca o debate para a universalização de um direito básico. Nesse setor, o desempenho financeiro precisa sustentar redes de longa duração, tarifas acessíveis e atendimento em territórios onde o retorno tende a ser lento. É nessa fronteira que o desenho institucional da estatal, da concessão ou da parceria público-privada ganha efeito direto sobre a vida cotidiana.
Saneamento, universalização e gestão pública
Os balanços de 2025 da Cagece e da Embasa, somados às contas de 2024 da Cagepa, registram três companhias lucrativas, capazes de gerar caixa e acessar financiamento. Essa fotografia afasta a associação automática entre controle estatal e desorganização. A mesma fotografia expõe um paradoxo: a solidez contábil convive com redes de esgoto muito aquém do padrão exigido para 2033.
O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, o Sinisa, mostra que 84,1% da população brasileira era atendida por rede de água em 2024. A coleta de esgoto alcançava 62,3%. O Marco Legal fixou, para o fim de 2033, atendimento de 99% com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto. O desafio exige investimento contínuo, regulação estável, tarifa acessível e capacidade de execução.
A frente social torna essa equação decisiva. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, 25,4 milhões de pessoas com renda domiciliar por pessoa de até meio salário mínimo vivem fora da rede de esgoto. Entre os excluídos do abastecimento de água, 10,8 milhões estão nessa faixa de renda. A universalização, portanto, depende do alcance da infraestrutura nos territórios onde a arrecadação tarifária tende a ser menor e o custo por ligação costuma ser elevado.
Nesta segunda frente, demonstrações financeiras e documentos regulatórios são lidos ao lado de depoimentos já publicados. Cada declaração aparece com veículo e data. A fala de dirigentes registra a justificativa institucional; balanços e contratos testam se a estratégia possui caixa, prazo, metas e controle compatíveis.
Cagece investe quase metade da receita
A Cagece encerrou 2025 com receita líquida de R$ 2,65 bilhões, EBITDA de R$ 763,3 milhões e margem de 28,8%. O lucro líquido ficou em R$ 224,6 milhões, queda de 36,6% frente a 2024. A dívida líquida alcançou R$ 2,24 bilhões, equivalente a 2,94 vezes o EBITDA. O endividamento sustenta expansão em larga escala e também reduz a folga para choques de tarifa, juros ou custo operacional.
O dado de maior peso está no investimento. O CAPEX chegou a R$ 1,30 bilhão, valor equivalente a 49,2% da receita líquida. A execução direta da companhia respondeu por R$ 927,1 milhões, enquanto a PPP de esgoto acrescentou R$ 377,5 milhões. Poucas empresas conseguem manter esse esforço sem combinar geração própria, dívida de longo prazo e parceria privada.
O presidente da Cagece, Neuri Freitas, resumiu a fórmula defendida pela companhia: “é preciso pensar em público e privado trabalhando juntos”. O balanço de 2025 materializa essa combinação. A questão decisiva passa a ser a entrega de rede, tratamento e redução de perdas dentro do custo contratado.
A entrega social ainda corre atrás do balanço. A cobertura de água declarada pela Cagece chegou a 99,18% do estado, próxima da meta legal. A de esgoto ficou em 51,51%. O índice de perdas na distribuição recuou de 44,08% para 41,72%, nível acima da média nacional de 39,5%. O retrato é de uma estatal com capacidade de investimento, pressionada pela distância entre a rede existente e o patamar de esgoto exigido.
Embasa combina lucro bilionário e lacuna territorial
Na Bahia, a Embasa apresenta a posição financeira mais robusta do grupo analisado. A receita operacional de serviços foi de R$ 5,05 bilhões em 2025. O lucro líquido atingiu R$ 1,01 bilhão, com margem EBITDA de 25,2%. O investimento somou R$ 1,74 bilhão. Caixa, equivalentes e aplicações superavam a dívida financeira em cerca de R$ 200 milhões, segundo os saldos divulgados pela própria companhia.
A escala operacional revela o tamanho do ativo público. A Embasa mantém 416 sistemas de água em 368 municípios e atende cerca de 10,6 milhões de pessoas. No esgoto, opera 440 sistemas em 122 municípios, com atendimento de cerca de 5 milhões de pessoas. O contraste entre os dois serviços resume a pressão regional: a empresa chega com água a uma área muito extensa e precisa transformar caixa, recursos do Novo PAC e capacidade de contratação em coleta e tratamento de esgoto.
Em entrevista ao jornal A Tarde, publicada em 29 de janeiro de 2024, o então presidente Leonardo Góes projetou “quase R$ 1,7 bilhão de investimento próprio ou captado pela Embasa” naquele exercício. O fechamento posterior mostra que o patamar bilionário prosseguiu: a companhia investiu R$ 1,74 bilhão em 2025. O desafio está em converter volume financeiro em ligações ativas de esgoto, sobretudo fora dos grandes centros.
O risco regulatório também aparece na carteira de concessões. Ao fim de 2025, 43 contratos com vencimento até 2033 representavam 6,31% da receita operacional líquida. A companhia informou ter firmado 150 aditivos entre o fim de 2024 e 2025 para alinhar instrumentos às normas da ANA. Em uma estatal financeiramente saudável, a vulnerabilidade central migra do caixa imediato para a execução, a segurança contratual e a velocidade da expansão.
Cagepa lucra e escolhe uma PPP de 25 anos
A Cagepa fechou 2024 com receita líquida de R$ 1,381 bilhão, EBITDA de R$ 415,9 milhões e lucro líquido de R$ 231 milhões. A margem EBITDA saltou de 19,45% para 32,12%. O resultado pede leitura cuidadosa. A própria companhia atribuiu parcela relevante do avanço a R$ 91,6 milhões de crédito tributário e a R$ 34,07 milhões de atualização de ativo financeiro. Esses efeitos somam R$ 125,67 milhões e tornam a cifra de lucro menos representativa da operação recorrente.
Os investimentos em projetos e obras ficaram em R$ 146,6 milhões, cerca de 10,6% da receita líquida. A Cagepa também contratou 50 milhões de euros com a Agência Francesa de Desenvolvimento para 24 projetos de água e esgoto. O acesso a crédito externo reduz o peso sobre o caixa do ano, embora preserve obrigações financeiras e metas futuras.
Em 2026, a Paraíba escolheu outro caminho para acelerar o esgoto. A Cagepa licitou uma concessão administrativa de 25 anos para 85 municípios das microrregiões do Litoral e do Alto Piranhas. O projeto estima R$ 3,003 bilhões em investimento. O Consórcio Acciona Água Saneamento Paraíba venceu com proposta única e desconto de 1% sobre a contraprestação pública. O certame foi homologado e adjudicado em 1º de julho.
A operação fica distante de uma venda da Cagepa. A estatal preserva a relação tarifária com o usuário e o abastecimento de água; a concessionária privada assume concepção, financiamento, obras, expansão, operação e manutenção do esgoto no bloco. A remuneração combina parcela fixa ligada à cobertura e parcela variável atrelada ao volume tratado. Recebíveis da companhia integram a estrutura de garantia.
Questionado pelo Bom Dia Paraíba sobre o efeito da parceria, em entrevista reproduzida pela CBN Paraíba em 18 de maio de 2026, o presidente Marcus Vinícius Neves afirmou: “A relação com o cliente continua com a Cagepa e nada muda.” A coluna registrou uma ressalva relevante: tarifa e valor final da fatura são conceitos distintos. Municípios que receberem coleta de esgoto poderão incorporar a cobrança desse novo serviço. A proteção social precisa acompanhar cada ligação ativada.
A proposta única, por si, tampouco prova dano ao erário. Ela reduz o teste concorrencial do preço e eleva a responsabilidade de fiscalização. O acompanhamento precisa publicar contraprestações efetivamente pagas, metas anuais, volume tratado, qualidade do efluente, obras entregues, sanções, revisões e reequilíbrios. O verificador independente deve ter contrato, metodologia e relatórios acessíveis. Uma PPP de 25 anos será julgada pelo serviço e pelo custo total, longe de um anúncio de investimento.
Tarifa social é direito e equação financeira
A Lei 14.898 criou desconto de 50% sobre o consumo de até 15 metros cúbicos para famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único ou aptas ao Benefício de Prestação Continuada. A política ataca o ponto onde o déficit se concentra. Em 2024, 3,8 milhões de economias residenciais recebiam tarifa social, 5,5% do total informado ao Sinisa. A própria ANA estima um universo potencial bem superior.
A carta anual da Cagepa expõe a tensão financeira. Em regiões com alta concentração de beneficiários, o desconto pode reduzir receita e exigir reequilíbrio. Esse alerta merece tratamento regulatório, longe de servir como argumento contra o benefício. A resposta pública envolve subsídio explícito, revisão contratual transparente, ganho de eficiência, combate a perdas e proteção dos consumidores de baixa renda. Transferir todo o custo a outras categorias pode encarecer a atividade econômica e desgastar a legitimidade da política.
O conflito aparece com nitidez em entrevistas já publicadas. À Agência Pública, em outubro de 2024, o economista David Deccache advertiu que “as tarifas dos serviços antes públicos tendem a subir” e defendeu o fortalecimento da prestação estatal. Em posição favorável à participação privada, Gesner Oliveira declarou à Agência CNI de Notícias, em setembro de 2018: “A iniciativa privada tem um papel fundamental.” Para ele, planejamento, gestão e regulação formam o tripé capaz de transformar capital em expansão.
As duas posições oferecem hipóteses, longe de veredictos. O contrato da Paraíba permite testá-las por dados anuais: contraprestação paga, investimento realizado, cobertura, qualidade do efluente, tarifa média, alcance da tarifa social, sanções e retorno do capital. Esse painel mostrará quem absorve o risco e quem recebe o benefício.
Governança precisa sair do organograma
A Lei das Estatais exige conselho de administração, comitê de auditoria, gestão de riscos, controles internos e divulgação do interesse público que justifica cada empresa. Esses mecanismos criam barreiras contra captura política e decisões opacas. Checklists de conformidade são ponto de partida, longe de substituírem desempenho.
Em entrevista ao IBGC em Foco, reproduzida pela FGV EBAPE, o professor Joaquim Rubens Fontes Filho ligou crises corporativas a fatores objetivos: “As falhas empresariais estão associadas a erros procedimentais, fraudes, desvios”. A advertência desloca o debate da quantidade de instâncias de controle para sua capacidade de detectar risco, corrigir rumo e atribuir responsabilidade.
No saneamento, governança efetiva tem medida concreta. Ela aparece na regularidade do abastecimento, na redução de perdas, na qualidade da água, no tratamento do esgoto, na execução física do investimento, na modicidade tarifária e na publicação de contratos. Também aparece na seleção técnica de dirigentes, na independência do conselho e na capacidade da agência reguladora para sancionar a estatal ou a concessionária privada.
A Caema oferece um teste adicional de transparência. A companhia mantém páginas de demonstrações financeiras, governança e sustentabilidade. O relatório de sustentabilidade disponível informa ausência de verificação externa para esse conteúdo. Em setembro de 2025, a empresa divulgou quase R$ 90 milhões em obras em andamento e R$ 79,9 milhões em licitação. Comunicados de obras revelam carteira de projetos, porém ficam longe de comprovar geração própria de caixa, endividamento administrável e capacidade de financiar a expansão.
Em entrevista à Mirante News FM, em março, o presidente Marcos Aurélio Freitas destacou que a companhia está “presente em 138 municípios maranhenses” e citou um plano superior a R$ 75 milhões para estações e redes na Grande Ilha. A escala territorial amplia a responsabilidade de publicar contas comparáveis. Em outro polo do debate, a geóloga Ediléa Dutra Pereira, da UFMA, declarou à Agência Tambor em novembro de 2025: “A Caema precisa ser fortalecida”. Para ela, gestão hídrica, política ambiental e esgotamento precisam caminhar juntos.
Uma comparação responsável com Cagece, Embasa e Cagepa depende das demonstrações auditadas da Caema para 2025, do cronograma da dívida, do fluxo de caixa operacional, da origem de cada investimento e dos indicadores de cobertura e perdas. Até essa checagem, classificá-la como insolvente ou equilibrada seria prematuro. A dificuldade de obter séries padronizadas já integra a pauta: transparência é condição para controle público, acesso a crédito e confiança regulatória.
| Empresa e período | Indicadores financeiros | Investimento | Pressão de serviço e leitura |
| Cagece | 2025 | Receita R$ 2,653 bi; EBITDA R$ 763,3 mi (28,8%); lucro R$ 224,6 mi; dívida líquida R$ 2,242 bi; dívida/EBITDA 2,94x. | CAPEX R$ 1,305 bi, equivalente a 49,2% da receita; R$ 377,5 mi vieram da PPP. | Água 99,18%; esgoto 51,51%; perdas 41,72%. Alta capacidade de execução, com pressão de dívida e grande lacuna no esgoto. |
| Embasa | 2025 | Receita de serviços R$ 5,048 bi; EBITDA 25,2%; lucro R$ 1,006 bi; saldos indicam caixa líquido perto de R$ 200 mi. | R$ 1,739 bi; Novo PAC prevê R$ 7,3 bi para 42 projetos. | 10,6 mi de pessoas com água; 5 mi com esgoto. Posição financeira robusta e desafio de converter recursos em rede de esgoto. |
| Cagepa | 2024 | Receita R$ 1,381 bi; EBITDA R$ 415,9 mi (32,12%); lucro R$ 231 mi. Eventos extraordinários somaram R$ 125,67 mi. | R$ 146,6 mi em projetos e obras; financiamento de € 50 mi com a AFD. | Resultado positivo, com base recorrente menos exuberante. PPP de R$ 3,003 bi vira eixo da expansão do esgoto em 85 municípios. |
| Caema | dados a fechar | Diagnóstico conclusivo depende das contas auditadas de 2025 e da abertura de caixa, dívida e subsídios. | Divulgação oficial citou perto de R$ 90 mi em obras e R$ 79,9 mi em licitação em setembro de 2025. | A apresentação pública dispersa dificulta séries comparáveis. Transparência e origem dos recursos entram no centro da entrevista. |
Nota metodológica. Os períodos e os conceitos contábeis diferem. A receita da Embasa usada no quadro exclui receita de construção. Os valores de investimento seguem a rubrica divulgada por cada companhia. O quadro orienta a apuração e fica longe de constituir auditoria ou ranking.