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2 de julho de 2026 06:02

Próximo El Niño coloca safra nordestina em alerta e testa capacidade de adaptação do agro brasileiro

Próximo El Niño coloca safra nordestina em alerta e testa capacidade de adaptação do agro brasileiro

Com previsão de impactos sobre a safra 2026/2027, fenômeno preocupa agricultores, setor de grãos e mercado de seguros no Nordeste
Foto: Instituto Socioambiental

O Nordeste se prepara para enfrentar mais um grande teste climático. O avanço do aquecimento das águas do Oceano Pacífico tem levado centros de monitoramento a acompanhar atentamente a formação de um novo episódio de El Niño, com potencial para influenciar o clima do país ao longo da primavera de 2026 e do verão de 2027,  justamente o período mais importante para o plantio e o desenvolvimento de boa parte da produção agrícola nordestina.

Embora a intensidade definitiva do fenômeno ainda dependa das condições observadas nos próximos meses, meteorologistas já apontam para um cenário de atenção. Historicamente, episódios de El Niño costumam reduzir as chuvas em grande parte do Nordeste, aumentar as temperaturas e ampliar a ocorrência de secas, especialmente no Semiárido.

A preocupação não se limita aos impactos imediatos sobre a produção agrícola. O fenômeno também pode pressionar os mercados de crédito e seguro rural, afetar a renda de pequenos produtores, comprometer a segurança alimentar e impor novos desafios a uma das regiões mais vulneráveis do país diante das mudanças climáticas.

O alerta ganha ainda mais relevância porque ocorre poucos anos depois de uma sequência de eventos extremos que atingiram diferentes regiões brasileiras. Entre 2023 e 2025, o país registrou enchentes históricas, secas severas, ondas de calor recordes e queimadas em níveis sem precedentes.

Para o climatologista Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a discussão sobre o próximo El Niño não pode ser dissociada da crise climática mais ampla que já está transformando as condições de produção agrícola em todo o país.

“Ainda não sabemos exatamente qual será a intensidade do fenômeno. Isso deve ficar mais claro nos próximos meses. Ele pode ser um El Niño extremamente forte, pode ser um El Niño de intensidade média, mas uma coisa nós já sabemos: não será um El Niño fraco”, afirma o pesquisador. 

Segundo Artaxo, a experiência recente mostra o que pode estar por vir. “Nós tivemos enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, eventos extremos na Serra do Mar, secas severas na Amazônia, aumento das queimadas, estiagens no Nordeste e ondas de calor muito intensas no Sudeste. Independentemente da intensidade final do fenômeno, esse padrão tende a voltar. E nós continuamos despreparados”.

Dois campos, vulnerabilidades diferentes

Embora o Nordeste seja frequentemente tratado como uma região homogênea quando o assunto é clima, os impactos do El Niño tendem a atingir de formas muito diferentes os diversos segmentos do campo.

De um lado está a agricultura familiar, responsável por parcela significativa da produção de alimentos consumidos internamente e pela geração de renda em milhares de municípios. De outro, o agronegócio empresarial, especialmente nas áreas do Matopiba, região formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que se consolidou nas últimas décadas como uma das principais fronteiras agrícolas do país.

Ambos dependem da estabilidade climática. A diferença está na capacidade de adaptação. Pequenos produtores costumam ser mais vulneráveis à irregularidade das chuvas, têm menor acesso a crédito, assistência técnica, irrigação e seguro rural. Já as grandes propriedades possuem mais instrumentos para enfrentar períodos de seca, mas também operam em escalas que tornam os prejuízos potencialmente bilionários quando as condições climáticas fogem do esperado.

Segundo Artaxo, a crise climática já está produzindo uma divisão dentro do próprio setor agropecuário. “Eu costumo dizer que existem dois agronegócios. Existe uma parcela que está preocupada com a sustentabilidade e com a sobrevivência do próprio negócio. São pessoas que estão pensando no que vai acontecer daqui a cinco, dez ou quinze anos”, afirma. 

Esse segmento, segundo ele, já percebe que o clima se tornou uma variável econômica central. “Vai existir água suficiente para irrigação? O clima continuará permitindo os atuais padrões de produção? Como alimentar mais de duzentos milhões de brasileiros em um ambiente cada vez mais hostil? Como manter a competitividade econômica do país? Essas são preocupações legítimas”. 

Ao mesmo tempo, o pesquisador aponta a existência de grupos que continuam operando sob uma lógica de curto prazo. “Existe outro setor. É aquele que pensa exclusivamente no curtíssimo prazo. Que quer ganhar o máximo possível hoje. Mesmo sabendo que daqui a alguns anos seu próprio negócio pode estar ameaçado”, completa. 

Agricultura familiar continua sendo o elo mais frágil

Se os riscos climáticos aumentam para todos, eles chegam primeiro e com mais força aos agricultores familiares. Milho, feijão, mandioca, hortaliças e diversas culturas de subsistência dependem diretamente da regularidade das chuvas. Em muitas áreas do Semiárido, poucos dias de atraso no início da estação chuvosa podem comprometer o calendário agrícola inteiro.

A situação preocupa porque, apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas com programas de convivência com o Semiárido, milhões de produtores continuam altamente dependentes do regime de chuvas. Tecnologias sociais como cisternas, barragens subterrâneas, bancos comunitários de sementes e sistemas de captação de água ajudaram a reduzir vulnerabilidades históricas, mas especialistas avaliam que os investimentos não avançaram na mesma velocidade que o agravamento da crise climática.

Para Artaxo, o principal problema não é a falta de conhecimento técnico. “Precisamos de planos de contingência imediatamente. É melhor fazer esses planos agora, não quando o problema já estiver instalado. Cada região possui suas vulnerabilidades”. 

Ele destaca que a adaptação precisa acontecer nos territórios. “É importante entender uma coisa: a adaptação acontece município por município. Ninguém adapta um país continental como o Brasil de uma vez só. Por isso é tão importante pressionar prefeitos, câmaras municipais e governos estaduais. São as populações locais que conhecem suas vulnerabilidades”.

Foto: Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)

Matopiba entra em zona de atenção

Nas últimas duas décadas, a região se transformou em uma das principais áreas produtoras de soja, milho e algodão do país. A expansão da fronteira agrícola trouxe investimentos, aumento de produtividade e crescimento das exportações.

Mas também ocorreu em uma área particularmente sensível às mudanças climáticas. Estudos recentes apontam aumento gradual das temperaturas médias, maior frequência de eventos extremos e crescente pressão sobre recursos hídricos em diversas áreas do Cerrado.

Caso o El Niño provoque atraso ou irregularidade das chuvas no início da safra, produtores podem enfrentar dificuldades no plantio, necessidade de replantio e redução da janela ideal para culturas subsequentes, como o milho segunda safra.

Representantes do setor agrícola já vêm defendendo maior investimento em monitoramento climático, manejo conservacionista dos solos, irrigação eficiente e ampliação dos instrumentos de mitigação de risco. A avaliação é que o fenômeno pode representar um teste importante para a resiliência da principal fronteira agrícola do país.

Seguro rural ganha protagonismo

Outra preocupação crescente é o impacto do clima sobre o mercado de seguros. À medida que secas, ondas de calor e eventos extremos se tornam mais frequentes, aumenta também a pressão sobre seguradoras e instituições financeiras.

O seguro rural vem sendo apontado por entidades do setor como uma ferramenta cada vez mais estratégica para garantir estabilidade econômica diante de um ambiente climático mais instável. No entanto, o acesso à cobertura ainda é desigual.

Em muitas regiões do Nordeste, especialmente entre agricultores familiares, a proteção continua limitada, seja pelo custo das apólices, seja pela dificuldade de acesso a produtos adequados à realidade local. A expectativa é que a discussão ganhe força nos próximos meses, especialmente se os modelos climáticos continuam apontando para a persistência do fenômeno ao longo da safra 2026/2027.

O problema não é falta de recursos

Na avaliação de Paulo Artaxo, o Brasil possui condições técnicas e financeiras para enfrentar melhor os impactos climáticos. O desafio, segundo ele, está na execução das políticas existentes. “Não falta dinheiro. Existem bilhões de reais disponíveis para adaptação climática em fundos públicos, no BNDES e na Finep. O problema é a implementação”. 

O pesquisador cita iniciativas como o Adapta Brasil, plataforma que reúne informações sobre vulnerabilidades climáticas em todos os municípios brasileiros. “Hoje nós sabemos onde estão os riscos. Sabemos quais municípios são mais vulneráveis. Temos os recursos. O que falta é transformar isso em ação concreta”. 

Ele lembra que os eventos extremos deixaram de ser exceções. “Esses eventos deixaram de ser exceções. Eles estão se tornando parte da nova realidade climática. Nós vamos continuar enfrentando secas, enchentes, ondas de calor, queimadas e outros eventos extremos. A questão não é se eles vão acontecer. A questão é quando vão acontecer”. 

Um teste para o futuro do agro nordestino

Mais do que um fenômeno meteorológico, o próximo El Niño deve funcionar como um teste de estresse para o modelo de desenvolvimento agrícola da região.

A agricultura familiar precisará demonstrar capacidade de resistência diante de um cenário potencialmente mais seco e quente. O agronegócio exportador do Matopiba, por sua vez, será pressionado a acelerar investimentos em adaptação e gestão de risco. No centro dessa discussão está uma questão cada vez mais evidente: a estabilidade climática se tornou um ativo econômico.

Para Artaxo, essa realidade já não pode ser ignorada. “A crise climática não é um problema apenas para movimentos sociais ou para ambientalistas. Ela é um problema econômico”, e conclui afirmando que “sem estabilidade climática não haverá segurança alimentar. Sem clima estável não haverá segurança hídrica. Sem clima estável não haverá desenvolvimento sustentável. Por isso a questão climática se tornou central. Ela atravessa todas as demais”. 

Para o Nordeste, onde clima, produção agrícola e desenvolvimento econômico sempre caminharam juntos, a próxima safra poderá mostrar até que ponto o país está preparado para enfrentar essa nova realidade.

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