
Alagoas chega ao ciclo eleitoral de 2026 vivendo uma contradição que aparece cada vez mais nas pesquisas econômicas mas principalmente no dia a dia das famílias. Os indicadores de emprego avançaram, a pobreza atingiu os menores níveis já registrados no estado e a abertura de novos negócios continua crescendo. Ainda assim, boa parte da população segue com dificuldades para transformar essa melhora estatística em sensação concreta de segurança financeira.
O resultado é um ambiente econômico que tende a empurrar a disputa pelo governo estadual para temas ligados à renda, ao custo de vida, ao acesso ao crédito e ao fortalecimento dos pequenos negócios.
O cenário não é exclusivo de Alagoas. Em todo o país, a percepção de inflação, o peso das dívidas e a dificuldade de recompor o orçamento familiar aparecem entre as principais preocupações dos eleitores. No estado, porém, esses fatores ganham relevância adicional porque convivem com uma economia historicamente marcada pela desigualdade social.
Dados do governo estadual mostram que Alagoas encerrou 2025 com o menor nível de pobreza de sua história, resultado atribuído à combinação de programas sociais, geração de empregos e investimentos públicos.
Ao mesmo tempo, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor revela uma realidade mais complexa. Em Maceió, mais de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida, índice que permanece em patamar elevado mesmo após a melhora de outros indicadores econômicos.
Na prática, isso significa que a recuperação econômica ainda não chegou de forma homogênea aos lares alagoanos. Para muitas famílias, o emprego voltou, mas a renda continua pressionada por prestações acumuladas, contas de consumo, alimentação e serviços básicos. O crédito, que deveria funcionar como instrumento de investimento ou expansão do consumo, tem sido usado com frequência para equilibrar despesas correntes.
O fenômeno ajuda a explicar por que o comércio e os serviços continuam relatando um consumidor mais cauteloso, mesmo em um contexto de crescimento econômico. Os dados nacionais reforçam essa percepção. A Confederação Nacional do Comércio registrou novo recorde de endividamento das famílias brasileiras em 2026 e projeta a manutenção de índices historicamente elevados ao longo do primeiro semestre.
Levantamentos recentes também mostram que uma parcela significativa das dívidas está relacionada a despesas essenciais, como contas de água, energia e outros compromissos básicos do orçamento doméstico. Para economistas, esse quadro produz uma diferença importante entre os indicadores macroeconômicos e a percepção cotidiana da população.
Em termos estatísticos, a economia pode apresentar melhora. Mas quando a renda disponível continua comprometida por financiamentos, cartão de crédito e contas atrasadas, o consumidor sente pouco espaço para ampliar gastos ou planejar investimentos familiares.
Essa percepção tende a ganhar força durante a campanha.
A economia entra na disputa
O cenário político alagoano já começa a ser desenhado em torno de dois protagonistas. De um lado está o ministro dos Transportes, Renan Filho, nome ligado ao grupo político que governa o estado e que busca associar sua candidatura aos resultados econômicos recentes.
Do outro aparece JHC, que consolidou capital político na capital e tem procurado ampliar sua presença no interior. Pesquisas divulgadas nos últimos meses mostram uma disputa apertada entre os dois nomes, sem favoritismo consolidado.
Embora a campanha ainda esteja em fase inicial, analistas políticos observam que os dois campos terão incentivos para abordar a economia a partir de perspectivas distintas. A tendência é que o grupo governista destaque os avanços em emprego, redução da pobreza, investimentos públicos e expansão da infraestrutura.

Já a oposição deverá concentrar atenção na renda disponível das famílias, no custo de vida, no endividamento e na percepção de que a recuperação econômica ainda não se converteu plenamente em melhoria do poder de compra.
A disputa tem potencial para reproduzir, em escala estadual, boa parte dos temas que devem marcar a sucessão presidencial. Questões como inflação percebida, crédito, capacidade de consumo, empreendedorismo e qualidade dos serviços públicos aparecem como pontos de convergência entre os debates nacional e estadual.
Na avaliação do economista e cientista político José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio, a tendência é que as campanhas procurem dialogar com uma população que percebe avanços econômicos, mas ainda convive com insegurança financeira. “As eleições recentes mostram que emprego e crescimento econômico continuam importantes, mas a percepção sobre renda e custo de vida pesa cada vez mais. Muitas vezes os indicadores melhoram antes que os benefícios sejam plenamente percebidos pelas famílias”, afirma.
Para ele, essa combinação cria um ambiente favorável para que os candidatos disputem narrativas sobre quem é mais capaz de ampliar oportunidades econômicas e melhorar as condições concretas de vida da população.
O peso do pequeno negócio
Outro elemento que tende a ocupar espaço na campanha é o papel das micro e pequenas empresas. Dados do Observatório Sebrae indicam forte dinamismo na abertura de novos negócios em Alagoas, movimento que vem ampliando o peso do empreendedorismo na economia estadual.
O segmento, porém, também enfrenta desafios relacionados ao crédito, aos custos operacionais e à capacidade de consumo da população. Quando o orçamento das famílias fica mais apertado, o primeiro impacto costuma aparecer justamente nos pequenos estabelecimentos comerciais, que dependem do gasto cotidiano dos consumidores.
Por isso, propostas ligadas ao acesso a financiamento, simplificação tributária, capacitação profissional e estímulo ao empreendedorismo devem ganhar espaço nos programas de governo.
A economista Tânia Bacelar destaca que o comportamento do pequeno negócio costuma funcionar como um termômetro das economias regionais. “Quando as famílias estão endividadas ou inseguras em relação à renda futura, o primeiro reflexo aparece no comércio de bairro, nos serviços e nos pequenos empreendimentos. São setores muito dependentes do consumo cotidiano e, por isso, sentem rapidamente qualquer retração no orçamento das famílias”, observa.
Segundo ela, propostas voltadas à ampliação do crédito produtivo, à qualificação profissional e ao fortalecimento dos empreendedores locais tendem a ganhar relevância em estados como Alagoas, onde as micro e pequenas empresas têm papel crescente na geração de emprego e renda.
