
Muito além de um modelo de organização de produtores, o cooperativismo consolidou-se como uma das engrenagens do desenvolvimento econômico brasileiro e ganha protagonismo no Nordeste ao impulsionar a produção agropecuária, ampliar o acesso ao crédito e fortalecer economias locais. Com 25,8 milhões de cooperados, 4.384 cooperativas, mais de 578 mil empregos diretos e R$ 757,9 bilhões movimentados em 2024, o setor reforça sua importância para cadeias produtivas estratégicas e para a geração de renda em todo o país.
No Nordeste, cooperativas ligadas à produção de leite, frutas tropicais e mel, aliadas ao crédito rural e ao financiamento de instituições, como o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), ajudam a estruturar a economia regional ao ampliar mercados, fortalecer a agricultura familiar e manter a renda circulando nos próprios municípios.
“A relevância do cooperativismo no Nordeste não está apenas no volume de recursos ou de produção que movimenta, mas na função econômica que desempenha ao internalizar renda e distribuir riqueza dentro dos próprios territórios”, avalia o doutor em Economia e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), campus Arapiraca, Anderson Araújo.
Segundo o economista, o cooperativismo vive um momento de fortalecimento institucional e expansão de oportunidades. O crédito cooperativo, por exemplo, deixou de ocupar um papel secundário no sistema financeiro brasileiro. Hoje, as cooperativas de crédito somam quase 19 milhões de associados e ampliam sua participação em regiões historicamente menos atendidas pelos grandes centros financeiros.
Araújo destaca que o Nordeste ainda representa uma fronteira de crescimento para esse modelo. Levantamento do Banco Central apontava, em 2018, a presença de cooperativas de crédito em apenas 11% dos municípios nordestinos, percentual inferior ao registrado em outras regiões do país. Embora esse cenário tenha evoluído nos últimos anos, a região continua apresentando amplo espaço para expansão.
É nesse contexto que o especialista considera relevante a retomada da atuação do BNB junto ao cooperativismo regional. Operador do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o banco voltou a ampliar sua atuação junto às cooperativas, fortalecendo um elo considerado estratégico para levar crédito e investimentos aos pequenos produtores.
O momento também é marcado por avanços institucionais. Em 2026, as cooperativas passaram a integrar o grupo de beneficiários do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), enquanto o cooperativismo foi reconhecido como manifestação da cultura nacional. Para Araújo, as medidas representam mais do que um reconhecimento simbólico e ampliam as possibilidades de financiamento e desenvolvimento do setor.

Se o crédito cria oportunidades, são as cooperativas que transformam financiamento em desenvolvimento local. Na avaliação do superintendente de Agronegócio e Microfinança Rural do Banco do Nordeste, Luiz Sérgio Farias Machado, o modelo cooperativista exerce papel fundamental na organização da produção, especialmente entre agricultores familiares.
“A cooperativa agrícola tem uma importância vital para a agricultura familiar. Ela organiza a produção, recebe essa produção e a transforma em um valor agregado maior para o produtor, gerando renda para agricultores e comunidades”, afirma.
O executivo ressalta, porém, que o fortalecimento do setor passa também pela profissionalização da gestão. “As cooperativas precisam ter boa governança, conformidade e capacidade de gestão para competir no mercado. O Banco do Nordeste reformulou sua política de atendimento exatamente para apoiar cooperativas que atendam a esses requisitos”, acrescenta.
Ampliação de mercados
Na prática, os efeitos desse modelo podem ser observados em diferentes regiões do Nordeste. Em Alagoas, a Cooperativa dos Agricultores Familiares e dos Empreendimentos Solidários (Coopaiba) reúne iniciativas ligadas à agricultura familiar, ao beneficiamento de alimentos e à geração de renda para comunidades locais.
Desde 2025, a cooperativa passou por um processo de reestruturação gerencial que ampliou significativamente sua capacidade de beneficiamento de coco, principal matéria-prima trabalhada pela entidade. A produção mensal saltou de sete para 45 toneladas, embora a demanda continue superior à capacidade atual de atendimento.
“Hoje, nossa demanda por produtos beneficiados é cerca de 50% maior do que a capacidade de oferta. O desafio é ampliar a produção local de coco para atender esse mercado crescente”, comenta o gerente da cooperativa, Ernan Silva.
A experiência da Coopaiba ilustra um fenômeno observado em diversas regiões do Nordeste: a capacidade do cooperativismo de agregar valor à produção local, ampliar mercados e criar alternativas de renda para pequenos produtores que dificilmente conseguiriam alcançar os mesmos resultados de forma isolada.

Os reflexos desse movimento aparecem em algumas das principais cadeias produtivas da região. No mel, o Nordeste lidera a produção nacional e concentra experiências bem-sucedidas de organização coletiva. O Piauí, por exemplo, foi o maior exportador brasileiro do produto em 2023, com forte participação da agricultura familiar e elevado índice de certificação orgânica.
Na fruticultura, estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Pernambuco concentram a maior parte da produção nacional de melão e respondem por parcela significativa das exportações brasileiras de frutas frescas, demonstrando a capacidade competitiva das cadeias produtivas organizadas na região.
Já na atividade leiteira, o cooperativismo exerce papel ainda mais relevante do ponto de vista social. Em muitas áreas do semiárido, especialmente na caprinocultura leiteira, as cooperativas representam a principal alternativa para beneficiamento, comercialização e acesso ao mercado formal, garantindo renda para milhares de famílias.
Cooperação apoiada por políticas públicas
Além do crédito e da organização produtiva, políticas públicas também contribuem para fortalecer atividades desenvolvidas em ambiente cooperativo. Em Alagoas, a isenção de ICMS sobre o óleo diesel destinado a embarcações pesqueiras reduz custos operacionais e beneficia centenas de pescadores.
A operacionalização do benefício conta com a participação da Coopaiba, que presta suporte logístico aos trabalhadores da pesca em municípios do litoral sul alagoano. Segundo a cooperativa, a medida ajuda a fortalecer a atividade pesqueira, ampliar a renda das famílias e estimular a permanência das comunidades em seus territórios.

Para o secretário especial da Receita Estadual, Francisco Suruagy, a política gera impactos que vão além da redução de custos. “Ao reduzir um dos principais gastos da atividade pesqueira, fortalecemos toda a cadeia produtiva e contribuímos para a geração de renda e o desenvolvimento local”, considera.
Mais do que movimentar bilhões de reais ou reunir milhões de cooperados, o cooperativismo tem se consolidado como uma ferramenta de desenvolvimento regional capaz de conectar crédito, produção, comercialização e inclusão econômica. No Nordeste, onde grande parte da atividade produtiva está ligada à agricultura familiar e aos pequenos negócios, sua importância está menos no volume que movimenta e mais na capacidade de manter a riqueza circulando dentro das próprias comunidades.