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7 de agosto de 2026 06:09

Recife Expo Center testa modelo privado em mercado nordestino marcado por investimentos públicos

Recife Expo Center testa modelo privado em mercado nordestino marcado por investimentos públicos

Inaugurado em 2024, o Recife Expo Center impulsionou o turismo de negócios e se destaca por um modelo privado, diferente dos centros de convenções financiados pelos governos estaduais no Nordeste
Foto: divulgação

No centro histórico do Recife, um investimento privado tenta demonstrar que a infraestrutura para congressos, feiras e convenções pode ser um negócio economicamente viável sem depender, desde a origem, da construção de um grande equipamento pelo poder público.

Inaugurado em agosto de 2024, o Recife Expo Center integra o Complexo Porto Novo Recife e foi construído com recursos privados. O empreendimento recebeu um aporte divulgado inicialmente em cerca de R$ 80 milhões e abriu as portas com 40 contratos já assinados, sinal de que havia uma demanda reprimida por espaços modernos para eventos na capital pernambucana.

Segundo o balanço fornecido pela administração, o centro realizou 160 eventos, recebeu 259 mil visitantes e gerou um impacto econômico estimado em R$ 647,5 milhões em seu primeiro ano de funcionamento, com a criação de aproximadamente 4,3 mil empregos diretos e indiretos.

Os números procuram medir não apenas a receita obtida pelo empreendimento, mas os gastos realizados por participantes, fornecedores e empresas contratadas em atividades como hospedagem, alimentação, transporte, montagem de estruturas, segurança, comunicação, limpeza e serviços técnicos.

Esse tipo de estimativa, no entanto, deve ser lido como uma projeção de movimentação econômica, e não como faturamento do Recife Expo Center ou riqueza inteiramente adicionada à economia pernambucana. A administração não tornou pública, nas fontes consultadas, a metodologia completa utilizada para calcular o impacto de R$ 647,5 milhões.

Também existem diferenças entre os recortes divulgados pelo próprio empreendimento. No balanço referente especificamente ao ano civil de 2025, o Recife Expo Center informou 108 eventos, 378 mil visitantes, impacto econômico de R$ 523,9 milhões e 4.360 empregos diretos e indiretos. “A divergência indica que os levantamentos provavelmente cobrem períodos ou critérios distintos, o que recomenda cautela em comparações diretas”, afirma o consultor de negócios Acácio Sinteiro.

Um equipamento menor integrado à cidade

O Recife Expo Center não disputa apenas pelo tamanho. O empreendimento possui um pavilhão de 4,1 mil metros quadrados, auditório para 1,5 mil pessoas, dez salas multifuncionais e possibilidade de receber atividades simultâneas.

Em comparação com grandes centros públicos do Nordeste, trata-se de uma estrutura mais compacta. O Centro de Eventos do Ceará, por exemplo, foi projetado para receber até 30 mil pessoas e conta com mais de 150 mil metros quadrados de área construída.

A aposta recifense está na localização e na integração com outros serviços. O equipamento funciona ao lado do Novotel Recife Marina, próximo ao bairro do Recife, ao comércio, aos polos gastronômicos e às atrações culturais. Essa proximidade reduz deslocamentos e permite que parte do gasto provocado pelos eventos permaneça na região central.

“O modelo também tenta aproveitar uma característica da economia dos congressos, o visitante de negócios não consome somente dentro do pavilhão. Ele utiliza hotéis, restaurantes, aplicativos de transporte, táxis, bares, gráficas, empresas de montagem, produção audiovisual e mão de obra temporária”, lembra o consultor.

Ao anunciar o projeto, a administração já apontava a realização de congressos médicos, feiras empresariais e encontros técnicos como parte central da estratégia. O primeiro evento, a Multimodal Nordeste, projetava reunir cerca de 5 mil pessoas e movimentar mais de R$ 250 milhões em negócios ligados à logística e à indústria.

A agenda de 2025 confirmou a presença de eventos de pequeno e médio porte e de congressos da área da saúde, segmento que, segundo a administração, carecia de um espaço mais flexível na cidade.

Mais recentemente, o centro passou a fazer adaptações para atender também eventos sociais, esportivos, religiosos e educacionais. Entre as melhorias estão mudanças nos acessos, implantação de um boulevard para pedestres, sinalização digital, salas com estrutura audiovisual previamente instalada e serviço de guarda-volumes.

Recife Expo Center | foto: Snptee

Dinheiro privado na construção, articulação pública no entorno

A origem privada do investimento diferencia o Recife Expo Center, mas não significa ausência de relação com o poder público. O empreendimento está inserido em uma área considerada estratégica para a reocupação econômica do centro da capital. Desde a abertura, representantes da Prefeitura do Recife destacam sua convergência com o Recentro, programa municipal de revitalização da região central.

“Na prática, o modelo combina investimento empresarial dentro do equipamento com políticas públicas de mobilidade, ordenamento urbano, turismo, segurança e promoção do destino”, avalia Sinteiro.

Esse arranjo mostra uma diferença importante. O risco da construção e da exploração comercial foi assumido pelo investidor privado. Ao município e ao estado cabem responsabilidades relacionadas ao ambiente no qual o negócio opera, como acessibilidade, infraestrutura urbana, promoção turística e conservação da área central.

É um desenho distinto do que predominou historicamente no Nordeste, onde governos estaduais construíram grandes centros de convenções como parte de suas políticas de turismo e desenvolvimento.

Grandes equipamentos nordestinos nasceram com recursos estatais

O exemplo mais robusto é o Centro de Eventos do Ceará. Construído pelo Governo do Estado com participação de recursos federais, o equipamento teve investimento divulgado entre R$ 437,5 milhões e R$ 479,7 milhões, dependendo da fase considerada. Com capacidade para até 30 mil pessoas, foi concebido como uma obra estruturante do turismo de negócios de Fortaleza.

Na Paraíba, o Centro de Convenções de João Pessoa também foi implantado pelo governo estadual, com investimento total divulgado em aproximadamente R$ 240 milhões e área construída próxima de 49 mil metros quadrados.

Em Natal, o principal centro de convenções pertence ao Governo do Rio Grande do Norte e é administrado pela Empresa Potiguar de Promoção Turística. Depois de modernizações e ampliações, o complexo passou a contar com mais de 21 mil metros quadrados de espaços para eventos.

Em Aracaju, a reforma e ampliação do Centro de Convenções de Sergipe consumiram quase R$ 30 milhões em recursos públicos estaduais e federais. Depois da obra, a gestão foi transferida por 25 anos a uma empresa privada, que assumiu a obrigação de investir em equipamentos, mobiliário e tecnologia. O espaço ampliado chegou a 23,2 mil metros quadrados e capacidade de até 8,5 mil pessoas em pé.

Teresina adotou um caminho semelhante. O Centro de Convenções da capital piauiense permaneceu como patrimônio público, mas foi concedido por 20 anos a uma empresa privada, responsável pela modernização, operação, exploração e manutenção. O contrato tem valor informado de R$ 34,38 milhões e prevê pagamento ao Estado de um percentual da receita bruta.

Em Salvador, o atual centro de convenções foi construído pela prefeitura depois que o antigo equipamento estadual foi fechado por problemas estruturais. O episódio evidencia um risco recorrente dos grandes centros públicos: sem manutenção contínua, estruturas concebidas para estimular o turismo podem se transformar em passivos fiscais e urbanos. O antigo Centro de Convenções da Bahia foi interditado em 2015 e teve parte de sua fachada desabada em 2016.

“Em vários estados, o poder público financiou a infraestrutura inicial porque considerou que os efeitos sobre o turismo, o emprego e a arrecadação justificavam um investimento que talvez não apresentasse retorno financeiro direto suficiente para um investidor. Posteriormente, muitos governos recorreram a concessões privadas para profissionalizar a gestão, reduzir despesas de manutenção e aumentar a capacidade de captar eventos”, avalia o consultor de negócios.

O Recife Expo Center inverte essa lógica. O capital privado bancou a implantação de uma estrutura mais enxuta, orientada por uma demanda comercial identificada previamente. A localização junto a um hotel e a outros ativos do Complexo Porto Novo Recife também permite que o investidor capture receitas que não se limitam ao aluguel das salas e dos pavilhões.

É uma diferença relevante. Um centro de convenções isolado depende das receitas dos eventos e, em alguns casos, de aportes governamentais. Um complexo integrado pode distribuir o retorno entre hospedagem, alimentação, estacionamento, serviços e valorização imobiliária.

Essa integração ajuda a explicar por que o modelo privado encontrou espaço no Recife. O equipamento não funciona somente como infraestrutura turística; ele também fortalece um conjunto mais amplo de negócios no entorno.

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