
Pernambuco chega ao ciclo eleitoral de 2026 ostentando um número que chama atenção: em 2024, o estado destinou cerca de 23% de suas despesas totais à saúde pública, percentual acima do mínimo constitucional e suficiente para colocá-lo na liderança nacional em participação do orçamento voltada ao setor. Só no primeiro quadrimestre daquele ano, os investimentos somaram aproximadamente R$3 bilhões, segundo dados do próprio governo estadual.
O paradoxo é conhecido de quem acompanha a gestão pública brasileira: gastar muito não é sinônimo de gastar bem, e nem sempre o volume de recursos aplicados se traduz, na percepção do cidadão, em melhoria concreta do atendimento. Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Mackenzie, esse é justamente o ponto que deveria organizar o debate eleitoral em Pernambuco neste ano.
“Existe o porquê da necessidade de não apenas gastar muito, mas gastar bem”, afirma Prando, lembrando que a administração pública é orientada pelo princípio da eficiência, um dos pilares do chamado LIMPE – legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, previsto na Constituição. Segundo ele, a diferença entre a gestão pública e a de uma empresa privada está na natureza do que é ofertado: “No governo, na gestão pública, você oferta serviços à população, serviços estes que são frutos diretos dos impostos pagos pelos cidadãos. Portanto, há uma necessidade de não apenas investir muito, mas investir bem.”
O tempo da fila é mais forte que o tempo do investimento
Um dos pontos centrais da análise de Prando ajuda a explicar por que o volume recorde de investimento em saúde pode não se converter automaticamente em capital político. Segundo ele, há dois tempos em disputa na cabeça do eleitor: o tempo do presente, marcado pela fila, pela demora e pela dificuldade de acesso, e o tempo do futuro, representado pelo anúncio de investimentos, cujo retorno é incerto e nem sempre perceptível no curto prazo.
“É óbvio que o tempo do presente, da fila, da demora ou da dificuldade de acesso deve ter um impacto eleitoral mais negativo do que, por exemplo, o anúncio do investimento”, diz o professor. “Aquilo que está diretamente na vida cotidiana dos brasileiros, das pessoas que utilizam os serviços públicos, tem um impacto maior e inclusive isso pode mudar para pior o humor dos eleitores.”
É por isso que, na avaliação dele, soluções que ataquem o problema em tempo real (como parcerias entre poder público e iniciativa privada para reduzir filas, ou o uso de aplicativos que permitam ao paciente acompanhar sua posição na fila de consultas, exames e cirurgias) tendem a gerar mais ganho de eficiência e mais reconhecimento popular do que apenas anúncios de novos aportes financeiros. “A tecnologia é um grande aliado ao governo, mas também à população, no sentido de diminuir as distâncias e tornar a informação mais próxima”, afirma.
Inauguração rende mais que gestão
Questionado sobre quais tipos de proposta tendem a ter mais apelo eleitoral – construção de hospitais, ampliação de serviços ou melhoria da gestão -, Prando é direto ao apontar a lógica que costuma prevalecer nas campanhas: o que pode ser mostrado, fotografado e inaugurado.
“O que que permite inaugurar e tirar foto? É inauguração de hospital, ampliação de leitos, ampliação de serviços”, diz. “Você não corta uma faixa de inauguração quando você tem uma melhoria substantiva na gestão.” Para ele, embora a legislação eleitoral hoje restrinja inaugurações em período de campanha, a promessa de novas estruturas físicas segue tendo força maior no eleitorado do que a discussão, mais abstrata, sobre a qualidade da administração dos recursos já existentes, mesmo quando é exatamente aí que mora o problema.
Prando também chama atenção para a forma como os candidatos costumam (ou deixam de) enfrentar temas complexos como a gestão da saúde durante a campanha. Para ele, a comunicação política ideal seria pautada por transparência e evidências, mas a lógica das redes sociais empurra o debate para outro lugar. “O candidato hoje, muitas vezes nas redes sociais, costuma ser superficial e voltado para lacração e para os memes”, avalia.
O risco, segundo o professor, é que problemas estruturais, como saúde, segurança e habitação, acabem sendo tratados com respostas simplificadas demais para a realidade que descrevem. “Quando você avalia uma situação complexa, um problema complexo, dando uma solução simples, a solução é simples e, na grande maioria das vezes, equivocada”, afirma. Ele reconhece que Pernambuco tem realidades muito desiguais dentro do próprio estado, o que exigiria, na sua visão, políticas de saúde capazes de considerar essas diferenças regionais, e não soluções únicas para todo o território.
Dados como ferramenta de cobrança
Prando defende que iniciativas de checagem e sistematização de dados públicos cumprem um papel decisivo na qualificação do debate eleitoral. Segundo ele, quando organizações da sociedade civil ou veículos de imprensa reúnem e divulgam números sobre gastos públicos, o cidadão ganha instrumentos para avaliar se o imposto pago está sendo devolvido em serviços.
“Não se faz gestão pública eficiente sem a capacidade analítica de avaliar os dados que são produzidos nos próprios relatórios do segmento da saúde”, diz. Para isso, defende ele, é preciso ir além dos números totais e chegar ao detalhe: quanto custa uma internação, quanto custa uma cirurgia, quanto o SUS repassa, quanto o estado e os municípios aplicam em hospitais e unidades básicas de saúde.
É esse tipo de informação, concreta, comparável e verificável, que deve separar, na eleição pernambucana de 2026, os candidatos dispostos a discutir gestão de saúde pública dos que preferem apostar apenas na força simbólica da inauguração.
