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1 de setembro de 2026 10:19

Segunda maior força eleitoral do Brasil, Nordeste ocupa papel estratégico nos planos de governo dos presidenciáveis

Segunda maior força eleitoral do Brasil, Nordeste ocupa papel estratégico nos planos de governo dos presidenciáveis

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, a região concentra 27% do eleitorado nacional, e o levantamento dos 13 planos de governo registrados mostra o que os principais candidatos prometem para segurança hídrica, energia, minerais críticos e logística na região

Em outubro, treze chapas disputarão as eleições presidenciais, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O Nordeste chega à disputa como a segunda maior força eleitoral do país, atrás apenas do Sudeste: são 43,5 milhões de eleitores, 27,42% do eleitorado nacional, após um crescimento de 1,14 milhão nos últimos quatro anos, o maior entre todas as regiões. Cinco planos de governo trazem propostas detalhadas para a região nos eixos de segurança hídrica, energia, minerais críticos e logística: os de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Foto: Montagem sobre reprodução

O que os planos prometem

Agregar valor às reservas de terras raras, lítio e nióbio da região é consenso entre os cinco planos. Lula condiciona a extração à industrialização no país, propondo agregar valor localmente às reservas em vez de exportar apenas a matéria-prima bruta; Flávio propõe conectar a cadeia a semicondutores, baterias e turbinas eólicas; Caiado quer ampliar o processamento e a rastreabilidade da produção, incluindo o combate ao garimpo ilegal; Zema aposta em desburocratizar a mineração; Renan Santos propõe Zonas Econômicas Especiais pelo Nordeste e uma PEC para declarar terras raras questão de segurança nacional.

Para o economista Doutor Valdeci Monteiro dos Santos, professor da Universidade Católica de Pernambuco, sócio da Ceplan Consultoria e ex-assessor especial da Condepe (instituto de planejamento de Pernambuco), há condições inéditas para essa industrialização, como energia barata e demanda geopolítica, mas alerta que a região já tentou algo parecido duas vezes: no ciclo do açúcar e na industrialização incentivada pela Sudene entre 1960 e 90, que atraiu fábricas com isenção fiscal sem gerar o desenvolvimento estrutural prometido, com o valor agregado escapando para fora da região por falta de exigência legal.

Quebrar esse padrão exigiria da lei de minerais críticos condições como processamento mínimo e trabalhar o conteúdo obtido no país, em vez de só exportar a matéria-prima bruta. O projeto da mineradora Serdan em Quixeramobim, no Ceará, ilustra o risco atual: a empresa anuncia R$ 5 bilhões para extrair lítio da região, mas o plano confirmado até o momento é de apenas instalar uma unidade de concentrado, etapa inicial de purificação. Uma planta de baterias, que demandaria processamento mais avançado, aparece apenas como possibilidade futura, sem compromisso firmado, mantendo por enquanto a região como fornecedora de commodity e não como uma grande área industrial.

Na logística, a Transnordestina aparece nos planos de Flávio, que promete concluí-la e ampliá-la, e de Caiado, que fala em desenvolver “todas as regiões a partir de suas vocações”. Flávio soma o “Trem do Nordeste”, 1.400 km ligando sete capitais, de Salvador a Fortaleza, dentro de um pacote de R$ 900 bilhões para infraestrutura nacional em quatro anos.

Para Valdeci, a mesma régua usada em minerais críticos vale para a Transnordestina: há hoje condição real de entrega parcial, algo inédito na obra. O trecho até o Pecém, no Ceará, avança e deve ficar pronto no fim deste mandato ou início do próximo, mas o padrão se confirma no restante: o trecho até Suape, em Pernambuco, segue paralisado, sem data para retomada, o que resume como “a parte que interessa ao eixo político dominante avança; a parte que completa o sistema fica como promessa eterna”.

Na segurança hídrica, o retrato mais concreto é o da transposição do São Francisco: iniciada em 2007, o projeto leva água a cerca de 12 milhões de pessoas em Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. O Eixo Leste foi concluído em 2017, e o Eixo Norte, mais recente, deve ficar pronto ainda neste ano, marcando a conclusão total da obra. Os cinco planos, porém, tratam só de obras complementares pendentes, como ramais e adutoras que levariam essa água a mais municípios, de forma genérica, sem detalhar quais. Apesar da falta de detalhe, Valdeci vê algo mais concreto por trás do discurso: a política hídrica atual incorpora soluções descentralizadas, como dessalinização, reuso e sistemas adutores intraestaduais, além da megainfraestrutura tradicional, avanço real sobre o modelo anterior. Sua ressalva é a mesma da Transnordestina: bom desenho não garante entrega, e o histórico mostra obras assim avançando devagar, independentemente de quem está no comando.

O quarto eixo, energia, é onde os planos mais divergem: enquanto minerais críticos reúne os cinco em torno da mesma ideia, mas com execuções distintas, aqui as abordagens se afastam de fato. Lula e Flávio tratam a matriz eólica e solar, cerca de 70% da geração renovável do país, como plataforma para indústria verde, com siderurgia, fertilizantes e hidrogênio entre os setores citados. Renan Santos aposta em usar essa matriz limpa para atrair data centers e empresas de biotecnologia. Caiado defende reduzir o custo do gás e ampliar redes de transmissão, além de reforçar a governança da Petrobras, “sem uso político nem controle artificial de preços”. Zema vai na direção oposta: seu “Plano Implacável” defende reduzir tarifas reestruturando a estatal, sem detalhar o efeito sobre os investimentos já em curso na matriz renovável nordestina.

Fora desses quatro eixos, os cinco planos tratam segurança pública, educação, saúde e habitação como políticas nacionais, sem capítulo, meta ou cronograma específico para o Nordeste.

Voto no Nordeste tende a ser identitário e memorial

Historicamente, entre os pontos considerados pelo eleitorado nordestino está a valorização de lideranças da própria região, o que ajuda a entender por que identidade e memória pesam tanto na relação da população com a política. Alguns candidatos parecem ter a mesma percepção: duas candidaturas escolheram vices nordestinos, Flávio tem como aliado o alagoano Alfredo Gaspar (PL), e Zema, o cearense Eduardo Girão (Novo). Para o economista Doutor Valdeci Monteiro dos Santos, o voto no Nordeste, de forma mais ampla, é identitário e memorial, carregando a memória da seca, da migração, e a presença do Estado onde o mercado nunca chegou. “A região não vota em transferência de renda como categoria abstrata. Ela vota no Estado presente”, diz, lembrando que essa presença já assumiu formas como açude, universidade federal, incentivo da Sudene e energia.

Tema como a industrialização de minerais críticos, tratado com tanta robustez pelos cinco planos, parece não ter a força simbólica necessária para se tornar um diferencial de voto, avalia Valdeci, uma vez que ainda não se traduziu em identificação real do eleitorado nordestino e é reflexo da disputa entre Estados Unidos e China, não das demandas históricas da região.

Essa leitura ajuda a explicar por que a esquerda mantém vantagem histórica na região mesmo diante da disputa por atenção que os cinco planos promovem: o voto nordestino responde à percepção de continuidade de uma presença estatal ausente em outros momentos da história da região.

Fora desses cinco planos, as demais candidaturas registradas no TSE não trazem propostas específicas para a região.

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